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NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
- Caso Kliemann -
A Midiatização do Imaginário Coletivo
(...) A morte de Margit não foi um crime qualquer
praticado nas sombras de uma ponte.
Inserto do prefácio do livro "Caso Kliemann: A História de Uma Tragédia",
do escritor Celito De Grandi, da lavra do também escritor
Luiz Antônio de Assis Brasil
Quando se fala em Caso Kliemann, na realidade estamos falando em dois casos, um, o primeiro, nos remete a um episódio trágico, desumano, terrível que dividiu o estado e que gerou polêmicas insolúveis até os dias de hoje, o assassinado da jovem senhora, mãe de três meninas, Margit Kliemann, ocorrido em junho de 1962.
O outro (Caso) nos remete à morte, também por assassinato, do ex-marido da senhora Margit, o então atuante deputado estadual Euclides Nicolau Kliemann, PSD, por um desafeto político, o vereador de Santa Cruz, PTB, Floriano Peixoto Karan Menezes, por tiros de revólver, ao vivo, na Rádio Santa Cruz, ocorrido em agosto do ano seguinte, ainda no calor dos fatos e polêmicas do controverso primeiro assassinato.
La prima tragedia,
O dia era 20 de junho de 1962.
Nesse dia, frio e chuvoso, na primeira hora da tarde, o corpo da jovem esposa do deputado Euclides Kliemann, 36 anos, a senhora Margit Kliemann, uma elegante e bela socialite da Porto Alegre de então, foi encontrado em uma poça de sangue aos pés da escadaria do palacete do casal, na Rua Barão de Santo Ângelo, no bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre, por seu marido. Justo naquele dia, trágico dia, o casal completava 18 anos de casados.
Eles haviam planejado viajar à noite à cidade natal de ambos, a germânica Santa Cruz do Sul, dista, hoje, 154 km da capital gaúcha. As três filhas do casal, entre 9 e 15 anos, lá estavam, férias escolares, curtindo os avós. Como chovia muito, e as estradas à época não tinham a segurança dos dias de hoje, o casal considerou mais prudente aguardar o dia seguinte.
O deputado, então, resolveu jantar na casa do irmão, Lauro, que também residia em Porto Alegre.
Euclydes Nicolau Kliemann, 41 anos (1922-1963) era um atuante deputado estadual, eleito pela primeira vez em 1954, de grande destaque em seu partido, o PSD, um dos rivais do PTB de então. O PTB (João Goulart, Brizola), a UDN (Carlos Lacerda) e o PSD (Juscelino Kubitschek) eram os três grandes atores na arena política de então, que era tão ‘quente’ quanto os dias de hoje, se não maior ainda.
E o deputado Kliemann não era daqueles de ‘passar paninho em questões polêmicas’. Era tão atuante que os jornais da época (Última hora, Correio do Povo, Folha da Tarde, Diário de Notícias) o apontavam como um político com potencial de chegar ao posto de governador do estado.
Logo após, em seu primeiro depoimento à polícia, o deputado relatou que estranhara o silêncio de Margit, pois ela, e ninguém, atendia o telefone.
Dera então início a uma desesperada procura pelos endereços de parentes e amigos.
Por fim (estranho), decidiu procurá-la em casa.
Lauro, que o esperava no carro, entrou logo a seguir e testemunhou o desespero do irmão, que chorava agarrado ao cadáver.
Tratou então de dar alguns telefonemas e, antes mesmo que a polícia tivesse chegado, o palacete já estava repleto de políticos e curiosos, contaminando a cena do crime.
Até o governador Leonel Brizola esteve no local, acompanhado da esposa, Neusa, que passou mal.
De acordo com a perícia, Margit foi atacada com um objeto que perfurou seu crânio, e depois jogada do alto da escada. Um dos inspetores que investigava o caso, Julio Moraes, apontava o marido como o culpado pelo crime.
O jornal porto-alegrense Última Hora alimentava a acusação. Não se pode esquecer que a Última Hora era um jornal da rede do jornalista, amigo e apoiador do presidente Vargas, até sua morte em 1954, que não prezava muito pela sobriedade, era do tipo que "se torcido, saía sangue!", portanto, relevemos esta acusação editorial. Além da Última Hora, também o Diário de Notícias e a revista nacional O Cruzeiro, navegavam as ondas de acusações sem provas, aleivosias midiáticas, ou, ‘pessoal, vamos vender jornais, provas é com a polícia’.
Na época, vários boatos – de tudo quanto era lado – surgiram sobre o assassinato, sem nunca terem sido confirmados. Dentre esses, três foram considerados os principais:
1) Obviamente, o mais "provável" era o marido-deputado Euclides Kliemann (PSD), de 41 anos na época do homicídio. Uma das teses probatórias que corriam aos ventos era que Margit teria descoberto um caso extraconjugal do marido com uma garota de programa da boate Riviera, um badalado ponto de prostituição de luxo de Porto Alegre. Na época, quem acusava Euclydes sustentava que o casal havia brigado calorosamente por causa da suposta traição, então...
2) Outro, sobrinho do casal, o então chamado, pela imprensa, bad boy Luiz Fernando Kurth, 17 anos, chegou a ser detido pela polícia para prestar depoimento. Em seu livro, Celito de Grandi versa sobre esse assunto, com alguns bons detalhes. Eu, escrevinhador, conversando com meus botões: "jovem sobrinho do marido, tia jovem e bonita, sozinhos, só falta a fagulha!"
3) E, por fim, uma personagem misteriosa conhecida na crônica policial dos pampas como "Dama de Vermelho".
Vejam abaixo um inserto do livro do Celito, páginas 102:
(...) o Diário de Notícias passa a explorar, nas edições seguintes, o surgimento da Dama. E só aos poucos Última Hora admite sua existência. É quando Sérgio Jockymann entra em cena, usa seu talento de ficcionista e oferece a dama à imaginação dos seus leitores.
Por fim, em março de 1965, a extinta Delegacia de Segurança Pessoal do estado inocentou Euclides Kliemann da acusação.
Na realidade, talvez quem tenha chegado mais próximo do autor (ou autores) do crime foram o então deputado Pedro Simon, o jornalista Sérgio Jockymann, e, bem depois, lá por meados da primeira década dos anos 2000, quando iniciou os trabalhos de pesquisa para produzir seu livro, o escritor Celito de Grandi.
A bem da verdade, nenhum dos três tinha provas cabais (mesmo, porque, esse é um trabalho exclusivo da polícia), mas as maiores suspeitas, as mais fundamentadas, apontavam na direção do bad boy, sobrinho do Euclides, já também falecido, pois ‘em razão do vício, pensando que não havia ninguém no palacete, ele e sua gangue teriam invadido a casa para roubar bens, joias, dinheiro guardado, etc. Quando, surpresos, depararam-se com a tia, reagiram como drogados reagem... ’
La seconda tragedia,
Um ano e dois meses após a morte trágica de sua esposa, Euclydes Nicolau Kliemann foi assassinado, a tiros de revólver, em 31 de agosto de 1963, durante uma transmissão ao vivo na Rádio Santa Cruz.
O autor do disparo foi o vereador Floriano Peixoto Karan Menezes (PTB), também conhecido como Marechal, seu figadal inimigo político na região de Santa Cruz, que potencializava a rivalidade acusando o deputado Kliemann (PSD) de ter ‘ele’ assassinado cruelmente sua própria esposa.
Euclydes havia convocado seus adversários políticos para um debate, ao vivo, na rádio. Dos convidados, somente um aceitou a convocação para debater os problemas locais, o vereador Marechal.
Durante o programa, o vereador Marechal assumiu o microfone e acusou, ao vivo e publicamente, que Euclydes, seu debatedor e desafeto, seria o assassino da esposa.
Imediatamente após a acusação, o deputado invadiu o estúdio, gerando uma discussão que culminou em um disparo à queima-roupa efetuado pelo vereador, que atingiu o coração de Kliemann.
Floriano Peixoto Karan Menezes foi submetido a três julgamentos pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, sendo então defendido pelo advogado e deputado Pedro Simon, resultando em uma condenação por homicídio culposo com pena leve.
(Pedro Simon, além de ex-vereador de Caxias do Sul e deputado estadual empossado em fevereiro de 1963, era um hábil advogado criminalista, e que não escondia sua opinião em relação à inocência do seu colega Euclides.)
Após apelações, o terceiro e último júri condenou o réu a seis anos e seis meses de prisão em regime fechado pelo assassinato do deputado.
O vereador assassino cumpriu apenas parte da pena e faleceu no ano de 2004.
Essas duas mortes são muito penosas, tristes, mas o pior da tragédia foi o fato de as três meninas terem ficado literalmente sem mãe e pai. Este tema também é explorado no livro do Celito.
That’s All, Folks!


