NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26.
PORTO ALEGRE
253 ANOS DE FUNDAÇÃO
Porto Alegre me dói
Não diga a ninguém Porto Alegre me tem
Não leve a mal
A saudade é demais
É lá que eu vivo em paz
Porto Alegre é demais.
(Inserto da letra da música Porto Alegre é Demais,
de autoria do músico e político José Fogaça, um porto-alegrense nativo)
Nesta próxima quinta-feira, 26 de março, Porto Alegre, a capital de todos os gaúchos, completa exatos 254 anos da sua fundação por 60 casais açorianos, ocorrida lá no distante ano de 1772, e com o pomposo e extenso nome de Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais.
Já no ano seguinte, 1773, a freguesia torna-se a capital do Continente de São Pedro do Rio Grande. O título de Capitania, só em 1807, pela carta-patente de 19 de setembro.
Essa questão de datas festivas sempre gera confusões, a tal ponto de o prefeito José Loureiro da Silva (1893-1961), que foi prefeito em duas gestões, ter, na sua primeira passagem pelo Paço Municipal, de 1937 a 1941, festejado o bicentenário da cidade em 1940.
A questão é que ele e seus assessores, inclusive historiadores de nomeada, usaram como referência uma interpretação histórica de que a cidade teria surgido em 5 de novembro de 1740. É que, nessa data, Jerônimo de Ornellas recebeu de Portugal uma sesmaria no Morro de Santana. Então, a data foi oficialmente considerada como o ‘marco histórico da fundação’.
Depois, foi revisada a partir das reclamações de outros historiadores.
Eu, particularmente, não acho que tenha havido erro, pois a mim é uma questão de critério. A minha Taquari, por exemplo, resolveu fixar a data do município em 04 de julho de 1849, quando foi elevada à condição de Vila (município), mas na realidade, como povoado, Taquari foi fundada em 1764, oito anos antes que Porto Alegre. Viamão, ao qual a área onde hoje situa-se a Porto Alegre estava abrangida, foi fundada como povoado em 1741.
Voltando, em 1772, Porto Alegre foi fundada como ‘freguesia’. (A ordem era; marco, feitoria, arraial, povoado, freguesia, vila, e cidade.)
Sua elevação à condição de vila só ocorre 37 anos depois, em 1809, a partir da Provisão Real de 07 de outubro desse mesmo ano.
É com esse status de vila que o Porto dos Casais adquire o direito de ter: câmara municipal, cobrar impostos, possuir cadeia, pelourinho, etc.
Coincidente à elevação do Porto dos Casais, mais três povoados também o são: Rio Grande, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha.
Com essas quatro vilas, o ex-continente de São Pedro do Rio Grande do Sul torna-se independente, administrativa e judicialmente, agora com o título de Capitania de São Pedro, sendo o seu primeiro governador e capitão-general o Brigadeiro D. Diego de Souza, empossado em nove de outubro de 1809.
Esses 60 casais açorianos, e muitos outros, tinham vindo em 1752, da vizinha Santa Catarina, com o objetivo de ser ‘o nobre sangue lusitano’ que iria povoar as terras das Missões Jesuíticas, trocadas com os espanhóis, e que ficaram com a posse da Colônia de Sacramento, um ‘estorvo’ português às margens do Rio da Prata, isso em decorrência do Tratado de Madri, de 1750.
Em decorrência da Guerra Guaranítica e da invasão de Ceballos em 1763, houve atraso nas distribuições das datas de terra aos ilhéus colonos, os quais ficaram arranchados provisoriamente às margens dos lagos Guaíba e Patos e de alguns rios da região, o que provocou insatisfações, rebeliões e, triste, a mão pesada das autoridades portuguesas.
Os ilhéus tinham todas as razões para se rebelarem, pois tinham vindo das distantes ilhas com gordas promessas das autoridades reinóis de receberem datas de terra, ajuda de custo, ferramentas, sementes, animais, etc., e estavam deixados, passados quase 20 anos, ao mais abjeto léu.
Frequentemente sou questionado por estudantes e amantes da história da formação do nosso estado em relação aos legados deixados pelos açorianos. Não é uma resposta fácil.
Afinal, são mais de 250 anos. As brumas do tempo são severas, como sabemos!
Mas sempre é possível dizer-se alguma coisa, vamos lá então:
O principal pra mim, e o mais visível, é o fato de grande parte da nossa população ter um pezinho firme nos açores.
Como parâmetro, os livros de história afirmam que de cada quatro norte-americanos, hoje em dia, um deles descende do grupo dos 120 colonos puritanos que lá chegaram em 1620.
Por aqui, li em algum lugar que neste momento olvido, chegamos próximos a 75% da população, pois os açorianos, sabemos, amalgaram-se geneticamente com negros, índios, italianos, alemães, poloneses, sírios, libaneses, poloneses, judeus, ergo...
Também temos, mesmo que sejam, em alguns casos, quase traços:
a) Na culinária, vários tipos de preparo de peixes, o ‘fervido’, prato muito comum aqui na minha Taquari e em outros núcleos habitacionais açorianos;
b) Na dança e na música: a dança do pau de fita, a dança do pezinho, a chimarrita, o balaio, o tatu;
c) Na religião: a festa do Divino Espírito Santo, o Terno de Reis; o uso de enfeites com serragens no Corpus Christi, as benzedeiras;
d) Na arquitetura, as nossas igrejas bem simples num estilo barroco colonial;
e) As rendas de bilros;
f) Aí em Porto Alegre, o nome dos bairros Moinho de Ventos e Azenha, derivados do trigo e das oliveiras, seu plantio e sua moagem ou extração;
g) Aqui em Taquari, os cítricos, cujas sementes vieram guardadas nas pregas dos vestidos das colonas;
h) Na linguagem e nas falas: o ‘des’, ao invés de desde (muito usado na obra maior do Erico Veríssimo, O Tempo e O Vento); ‘alambrar’, ao invés de lembrar; ‘fema’, mulher bonita; ‘tás’, ao invés de estás; ‘atoleimado’, ao invés de bobo, tolo; ‘bicha’, ao invés de fila.
i) Por fim, listo alguns nomes típicos açorianos derivados dos migrantes europeus que ajudaram a colonizar o arquipélago a partir de 1450, e que muitos pensam serem nomes portugueses, mas não o são: Rosa (Roosen), Dutra (De Hurtere), Silveira, Terra, Paim, Bittencourt, Goulart, Brum e muitos outros.
Como diz o poeta Fogaça, em sua belíssima canção-ode: Porto Alegre é demais!
Parabéns a esse alegre povo que a cada ano torna a ressoar o distante eco das algaravias desses primevos 60 casais ilhéus açorianos.
Festejar – é preciso!

