Terça, 11 de dezembro de 2018




Jamais troquei de lado.
Por quê? Eu não tenho lado.
Ou melhor, o meu lado sou eu
...
ANDO DEVAGAR
PORQUE NÃO TENHO PRESSA







15 ANOS!!
Atualizado diariamente
até o meio-dia













especial

GRAMADO, GRAMADO!


Fernando Di Primio, jornalista


Fui  a Gramado, para mais um Festuris.

E, de repente me dei conta que faz 60 anos que vou a Gramado!

Minha mãe, Dona Lucila, logo que eu e meu irmão nascemos, bem que tentou Torres, que era a praia da época. Mas, sempre tão bonita e elegante, ela logo se deu conta da ação inclemente do sol sobre a pele e simplesmente decidiu nunca mais ir à praia. (Com a concordância de meu pai, sempre tão apaixonado e que tudo fazia para agradá-la.). E continua alva e linda até hoje.

Pois bem, em uma ida à Serra, que seria originalmente à Canela, e então ainda por estradas de chão batido, ela descobriu, por acaso, Gramado e, nela, o Parque Hotel, do seu "Nina". Foi amor à primeira vista! Conta que "era bacana porque além de estarmos no meio da natureza, acordando com o canto dos passarinhos, a gente ficava em chalés e parecia que estávamos em casa". (Eram chalés de madeira, que estão lá até hoje!) E, desde então, passamos a "veranear" em Gramado em todas as nossas férias escolares, pelo menos até uns doze, treze anos... Faz tempo!



Aliás, tempo é uma palavra muito ligada à Gramado.

Não só o tempo no sentido meteorológico (o frio desejado, a esperança de neve...), mas o tempo cronológico mesmo! O tempo que passou e fez bem à cidade. O tempo que passou e fez dela – que era rigorosamente uma cidade como outra qualquer do interior – o emblema que é hoje! Uma cidade que decidiu ser o que é. Que foi em busca de sua vocação e que usou o tempo, cada dia, um dia após o outro, para forjar a sua história de brilho.

Uma cidade que teve homens corajosos, visionários e empreendedores como Gunther Schlieper (um dos precursores na implantação das construções em estilo bávaro), Jaime Prawer (que criou o chocolate artesanal e fez dele uma marca da cidade –, aliás com o tempo, muitíssimo bem seguido por Julinho Cavichioni e outros caras de ponta); a família Masotti, uma das pioneiras na ideia dos móveis de Gramado e depois Arthur Guarisse que, com sua elegância e talento, foi um dos primeiros a glamourizar a ideia; Horts Volk, prefeito que comprou a ideia e fez nascer o Festival de Cinema; Luciano Pecin (que não bastasse ser um craque na hotelaria ainda criou o Natal Luz), a família Caliari, que inventou o café colonial como conceito (e que hoje está também à frente do fantástico Snowland); o gigante Clécio Gobbi que trouxe o fondue para cidade e foi ao longo desse tempo um dos baluartes e precursores de sua gastronomia (muito bem secundado por homens como Vanderlei Eckert – leia-se Pastasciutta e Joaquim Oliveira como seu maravilhoso Belle du Valais) e outros, tantos outros, muitos outros.



Como as famílias Perini (“inventores do Serra Azul”) e Bertolucci (“inventores” do Serrano). E como não citar, também, a Ruth e a Soraya, que comandam lojas simplesmente fantásticas como a Arraial e a Giovana Regali. Ou o casal Luís e Neusa Silveira que criaram o Kurotel? Ou o Hilário, então? Que era garçon do Serra Azul e hoje é um dos empresários de hotelaria que mais cresce na cidade: já são três os seus hotéis Sky, a caminho de quatro, de cinco...

Gramado, aliás, tem coisas fantásticas: tem uma lojinha, por exemplo, na rua principal, que está lá no mesmo lugar há, sei lá, com certeza há mais de vinte anos e que só vende meias!!! Maravilhosas, coloridas, listradas, mas só meias! E independente do crescimento da cidade, continuam existindo aquelas lojinhas simples de cidade de interior, algumas bem breguinhas, hoje convivendo ao lado de gigantes como Mc Donalds, Hard Rock Café e Renner...

Ah, já me estendi demais.

Mas só queria ter dito que o tempo fez bem a Gramado, que usou bem o tempo. E que nesses 60 anos em que eu vou lá – graças à Dona Lucila –, foi muito bom ter visto todo esse crescimento.

Hoje quando se fala em móveis, se fala em Gramado; quando se fala em chocolate, se fala em Gramado; quando se fala em turismo, se fala em Gramado; quando se fala em foundue, se fala em Gramado; quando se fala em café colonial, se fala em Gramado; quando se fala em cinema se fala em Gramado, quando se fala em Natal, se fala em Gramado...

E isso, rigorosamente não foi construído por acaso! (Ah, e o que é melhor: tem muita coisa nova acontecendo... Gramado, podem ter certeza, caminha para um novo ciclo e um claro destino: o de se tornar, diante de tantos atrativos, atrações que virão e diversidade, a Orlando brasileira...)

Ou seja, Gramado, que era pra ser apenas uma cidadezinha do interior, é o máximo!


Segunda, 10 de dezembro de 2018




Jamais troquei de lado.
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especial

POR QUE OS JAPONESES SÃO ODIADOS? CONFIRA NESTE TEXTO


Ricardo Orlandini, jornalista - www.ricardoorlandini.net/


"Aceitar a inocência e vitimização do “Japão de Hirohito” é o mesmo que negar o Holocausto Judeu perpetrado pelos nazistas"



Hiroshima e Nagasaki


A nuvem de cogumelo sobre Hiroshima (esquerda) após a queda da Little Boy e sobre Nagasaki, após o lançamento de Fat Man.
O Conselho de Alvos (em inglês, Target Committee), de Los Alamos, nos Estados Unidos, recomendou as cidades de Kyoto, Hiroshima, Yokohama e o arsenal em Kokura como possíveis alvos das Bombas Atômicas recém criadas.

O Conselho rejeitava o uso da arma contra alvos "estritamente militares", pois queria que o ataque tivesse um grande efeito psicológico na população japonesa. Mesmo critério utilizado nos bombardeios das cidades alemãs com bombas incendiárias do tipo “napalm”. Quanto maior as baixas civis, melhor, pois o “terror” se espalharia e a pressão para o fim da guerra aumentaria.

Às 8h15m da manhã de 6 de agosto de 1945, a bordo do avião "Enola Gay", o piloto Paul Tibbetslançava a bomba atômica cujo codinome era Little Boy, que destruiu a cidade de de Hiroshima, no Japão, matando instantaneamente 80 mil civis, chegando a quase 220 mil no total.

Pelo "azar histórico" e questões climáticas, pois não havia visibilidade no alvo principal que era a cidade de Kokura, três dias depois, os habitantes de Nagasaki tornaram-se os alvos de mais uma das maiores atrocidades da história.

Na manhã de 9 de agosto de 1945, a tripulação do avião B-29 Superfortress, batizado de "Bockscar", pilotado pelo “Major Charles W. Sweeney” e carregando a bomba nuclear de nome código Fat Man, deparou-se com o seu alvo principal, o arsenal de "Kokura".

Após três voos sobre a cidade sem visibilidade e com baixo nível de combustível, o bombardeiro dirigiu-se para o alvo secundário, a cidade de Nagasaki.

As condições de visibilidade em Nagasaki também não eram as ideais, mas às 11h02min, uma abertura de última hora nas nuvens permitiu ao artilheiro do "Bockscar" ter contato visual com o alvo.

A bomba "Fat Man", contendo um núcleo de aproximadamente 6,4 kg de plutônio-239, foi lançada sobre o vale industrial da cidade matando instantaneamente 40 mil pessoas, chegando a mais de 80 mil nos dias seguintes.

O papel dos bombardeios na rendição do Japão, assim como seus efeitos e justificativas, são até hoje submetidos a muito debate e polêmica.

Sabe-se hoje que um viés político foi ocultado da opinião pública na época. Os soviéticos já estavam a um passo de uma invasão e os aliados não queriam outra situação parecida com a da Alemanha ocupada e dividida no pós-guerra.

Mas a história está registrada e, em algum momento, outros fatos pouco lembrados vêm à tona.

O fato histórico de Hiroshima & Nagasaki é que milhares de civis inocentes foram dizimados.

Mas existem outros fatos, pouco divulgados, que talvez justifiquem esta opção norte-americana pelos bombardeios de 6 e 9 de agosto de 1945.

Se formos a fundo sobre o tema e, mesmo sem mudar minha opinião sobre estes ataques que vitimaram milhares de pessoas inocentes, a grande maioria de civis, passo a relatar algo que julgo extremamente importante no contexto que levou os Estados Unidos da América a tomar a decisão de bombardear o Japão com bombas atômicas.

A queda do Império japonês já começava a se desenhar no final de julho de 1945, quando implacáveis bombardeios castigaram suas cinco principais cidades - Tóquio, Osaka, Nagoya, Kobe e Yokohama -, arrasando-as em proporções de 45% a 60% de sua área. Os principais alvos industriais foram destruídos, um a um. As cidades secundárias também não foram esquecidas pelos norte-americanos, que mantiveram 60 delas sob um programa incendiário especial. A maioria foi consumida pelo fogo, em números que giram em torno dos 70% de destruição. Toyama, com seus 127.860 habitantes, teve nada menos do que 99,5% de sua área consumida pelas chamas.

Entretanto, a propaganda japonesa continuava pregando a invencibilidade nipônica. Pelo raciocínio oficial, para vencer a batalha, os EUA deveriam matar os 100 milhões de habitantes do Japão. Entregar-se, jamais.

No final do mês de julho de 1945 Tóquio recebera uma proposta de rendição incondicional, porém com a promessa de repatriamento das tropas japonesas, a permanência das indústrias e uma participação nipônica no comércio mundial; além disso, o acordo compreenderia a instalação de uma monarquia constitucional sob a atual dinastia.

Tal condescendência, que não se verificou no acordo com a Alemanha Nazista, tinha uma contrapartida alarmante, no caso da proposta não ser aceita: "A alternativa para o Japão é a imediata e total destruição", diziam os termos aliados.


Korechika Anami, General do Exército Imperial Japonês e Ministro da Guerra


Ainda que considerada atraente por alguns integrantes do governo japonês, a proposta acabou sendo rejeitada pelos radicais: em 29 de julho, transmite-se a resposta oficial dos japoneses: o Império decidira "ignorar" o ultimato. A declaração do estandarte da intransigência, o General Anami, explica a escolha.

"Capitulação sem condições é para o Japão um termo não somente inaceitável, mas também inconcebível. Os Estados Unidos não estão preparados para pagar o aterrador preço de sangue que lhes custaria uma invasão. Eles ainda amolecerão e concordarão com condições mais favoráveis se continuarmos contrários às resoluções do desespero."

Um desprezo, quase uma provocação. Em outras palavras: o então Japão pagava para ver.

Pagou e se deu mal.

Acredito interessante e importante que analisemos alguns fatos de nossa história que podem nos esclarecer o que realmente ocorria na primeira metade do Século XX.

Em 15 de agosto de 1945, os japoneses ouvem pela primeira vez em suas vidas a voz de seu imperador, que exorta seu exército e seu povo a pôr fim às hostilidades na Segunda Guerra Mundial. Isso permite aos norte-americanos desembarcar nas ilhas japonesas sem encontrar resistência.

Em 28 de agosto de 1945, começou formalmente a ocupação do Japão pelo Comandante Supremo das Forças Aliadas, o General Douglas MacArthur.

A cerimônia oficial de rendição aconteceu no dia 2 de setembro de 1945, quando oficiais do Japão representando o Imperador assinaram a ata de rendição do Japão ao general americano Richard Kerens Sutherland, a bordo do USS Missouri.

De derrotado na Segunda Guerra Mundial à segunda economia do mundo, o Japão deu um salto gigantesco no pós-guerra.

Mas a verdade verdadeira é que o Japão é odiado até hoje por diversos países da região, merecendo um lastimável capítulo na história mundial intitulado “Crimes de Guerra do Japão Imperial”.



Xuzhou (徐州), China, 1938. Uma vala comum cheia de corpos de civis chineses, assassinados por soldados japoneses.



Prisioneiros chineses sendo enterrados vivos.



Cabeças decapitadas de vítimas do Massacre de Nanking.



Soldados japoneses atiram em prisioneiros Sikh com os olhos vendados.
A fotografia foi encontrada entre registros japonesas quando as tropas britânicas entraram Singapura.



Um prisioneiro de guerra australiano, o sargento Leonard Siffleet, capturado na Nova Guiné, prestes a ser decapitado por um oficial japonês



Prisioneiros de guerra australianos e holandeses em Tarsau na Tailândia, 1943

O historiador Chalmers Johnson assim escreveu:

“Pode não ter sentido tentar estabelecer qual dos dois agressores do Eixo na Segunda Guerra Mundial, Alemanha ou Japão, foi o mais brutal para as pessoas que vitimou. Os alemães mataram seis milhões de judeus e 20 milhões de russos [isto é, de cidadãos soviéticos]; os japoneses assassinaram algo como 30 milhões de filipinos, malaios, vietnamitas, cambojanos, indonésios e birmaneses e pelo menos 23 milhões de chineses étnicos. Ambas as nações saquearam os países conquistados, numa escala monumental, embora os japoneses tenham pilhado mais, por um período mais longo, do que os nazistas. Ambos escravizaram milhões e os exploraram como trabalhadores forçados — e, no caso dos japoneses, como prostitutas [forçadas] para tropas nas linhas de frente. Se você era um prisioneiro de guerra dos nazistas de origem britânica, norte-americana, australiana, neozelandesa ou canadense (mas não russa) tinha 4% de chance de morrer antes do fim da guerra; [comparativamente,] o índice de mortalidade dos prisioneiros de guerra aliados mantidos pelos japoneses era de quase 30%.”

R. J. Rummel, professor de ciência política na Universidade do Havaí, declara que entre 1937 e 1945, os militares japoneses assassinaram de três milhões a mais de dez milhões de pessoas, sendo o número mais provável em torno de seis milhões de chineses, indonésios, coreanos, filipinos e indochineses, entre outros, incluindo prisioneiros de guerra ocidentais.

De acordo com Rummel, apenas na China, no período 1937-45, aproximadamente 3,9 milhões de chineses foram assassinados, principalmente civis, como resultado direto das operações japonesas e 10,2 milhões em todo curso da guerra.

Sei muito bem que esses fatos históricos que relato são chocantes e, muitos deles, desconhecidos pela grande maioria das pessoas na atualidade.

Não estou defendo o que os norte-americanos fizeram em Hiroshima e Nagasaki, nem poderia fazê-lo, sendo eu um pacifista convicto.

Mas a verdade histórica demonstra que de “santos” os japoneses daquela época estavam bem distantes. O Japão Imperial, a fé cega em um imperador considerado infalível e até um Deus, associado a um militarismo expansionista exacerbado e que considerava os demais povos asiáticos como inferiores, formaram um caldo de ódio contra o Japão.

Certa vez perguntei a um amigo australiano sobre a guerra, o Japão e as bombas atômicas.

Ele me respondeu curto e grosso: “se tivéssemos a bomba atômica, o Japão não existiria mais”.

Palavras fortes, mas muito parecidas a de amigos chineses, coreanos e filipinos que tive o privilégio de conhecer em minhas andanças pela Ásia.

A “tática da vitimização”, muito bem conhecida por nós brasileiros, pode servir a alguns propósitos políticos imediatos, mas não dura para todo o sempre. Um dia a cortina cai e a verdade vem à tona.

Para minha tristeza descobri o que revelo aqui nesse texto há poucos anos. Dois amigos, o Carlos Mello e o Roberto Henry Ebelt, contestaram minhas opiniões antiamericanas sobre as Bombas Atômicas e me deram o rumo da pesquisa.

Pesquisei, achei e me horrorizei com o que descobri.

Mas como disse certa vez o ex-presidente norte-americano Abraham Lincoln:

“Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo...”

Mas o pior, o inimaginável pela maioria dos ocidentais, onde me incluo, ainda viria à tona.

O incidente mais infame durante este período foi o Massacre de Nanquim de 1937-38, quando, de acordo com as descobertas do Tribunal Militar Internacional para o Extremo Oriente, o Exército Imperial Japonês massacrou cerca de 200 mil civis e prisioneiros de guerra, embora existam estimativas ainda maiores, na casa das centenas de milhares.


Dois oficiais japoneses, Toshiaki Mukai e Tsuyoshi Noda numa competição para determinar quem conseguiria matar cem pessoas primeiro com uma espada.


A manchete diz: “Recorde Incrível” - Mukai 106 X 105 Noda.
Publicado no Tokyo Nichi Nichi, em 13 de dezembro de 1937.

Crime semelhante foi o Massacre de Changjiao, um massacre de civis chineses pelo Exército Expedicionário Chinês (o qual, apesar do nome, era japonês) em Changjiao, Hunan. Shunroku Hata comandava as tropas japonesas. Durante quatro dias, de 9 de maio de 1943 a 12 de maio de 1943, mais de 30.000 civis foram assassinados e milhares de mulheres foram estupradas.


Monumento em Changjiao lembrando as atrocidades japonesas


No Sudeste Asiático, o Massacre de Manila, resultou nas mortes de 100.000 civis nas Filipinas, e no Massacre Sook Ching, entre 25 mil e 50 mil chineses étnicos de Singapura, foram conduzidos para as praias e massacrados.


O centro de Manila após a ação das tropas japonesas



Ação das tropas japonesas contra civis em Sook Ching

O historiador Mitsuyoshi Himeta afirma que o "Sanko Sakusen" (Política dos Três Tudos), uma estratégia de “terra arrasada” usada pelas forças japonesas na China entre 1942-45 e sancionada pessoalmente pelo imperador Hirohito, foi sozinha responsável pelas mortes de "mais de 2,7 milhões" de civis chineses.

E por aí seguem outras tantas atrocidades cometidas com autorização expressa do imperador Hirohito, considerado um DEUS pelos japoneses.

Outro capítulo à parte nesta história é a infame Unidade 731, uma unidade secreta de pesquisa e desenvolvimento da guerra biológica do exército imperial japonês que utilizou seres humanos em experiências secretas durante a Segunda Guerra Mundial e Segunda Guerra Sino-Japonesa(1937-1945).

A Unidade 731 ficava localizada no distrito de Pingfang, na cidade de Harbin, no estado fantoche de Manchukuo (nordeste da China), sendo responsável por alguns dos crimes de guerra na China e outros países da Ásia, estando entre as maiores atrocidades realizadas pelo exército imperial japonês.



Shiro Ishii, médico e comandante da unidade 731, o Josef Mengele japonês.



Experiência de hipotermia, usando como cobaias prisioneiros chineses sob vigilância de soldados japoneses.



Complexo da Unidade 731.


Placa em memória das vítimas num dos prédios do complexo.

O filme de 1988, produção conjunta de Hong Kong/China, “Hei tai yang 731” (Men Behind the Sun, pt. Campo 731: Bactérias, a maldade Humana) retrata as experiências da Unidade 731. Imagens chocantes revelando atrocidades barbaras.

Da mesma maneira que não consigo aceitar os bombardeios atômicos no Japão, não consigo aceitar os crimes perpetrados pelo Exército Imperial Japonês e pela Marinha Imperial Japonesa, cometidas com o aval e em nome do Imperador Hirohito.

Sendo assim, concluímos que ao condenarmos os norte-americanos pela morte de “apenas” pouco mais de 400 mil pessoas nos bombardeios à Hiroshima e Nagasaki, estamos sendo “injustos” com a “competência” dos soldados japoneses que eliminaram milhões de civis inocentes durante o conflito.

Estive naquela região algumas vezes e percebi que até hoje existe um forte “rancor”, se pode-se dizer assim, contra os japoneses.

A história é implacável.

A história registra as marcas da destruição perpetradas pelos homens, e estas verdades não podem ser apagadas, nem mesmo pelos mais ferrenhos opositores dos norte-americanos.

Relembrar destes fatos ocorridos na primeira metade do Século XX, mostram que o homem ainda não aprendeu a conviver em paz neste pequeno planeta azul chamado Terra.

Os bombardeios a Hiroshima & Nagasaki ocorridos em 6 e 9 de agosto de 1945, onde milhares de civis inocentes foram dizimados, não podem ser analisados isoladamente.

Aceitar a inocência e vitimização do “Japão de Hirohito” é o mesmo que negar o Holocausto Judeu perpetrado pelos nazistas.

Atos bárbaros que em nada se justificam.

Isso não é só minha opinião, isso é história.


Sexta, 7 de dezembro de 2018




Jamais troquei de lado.
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especial

Nesta sexta, uma cesta de
DALTON TREVISAN


Uma das raras fotos de Dalton


O curitibano Dalton Jérson Trevisan completou 93 anos em 14 de junho de 1925.
É um dos mais célebres contistas brasileiros e seu livro mais conhecido é "O Vampiro de Curitiba". Raramente aparece em público, mesmo quando é homenageado - sempre manda um representante. Por este comportamento, apelidaram-no de Vampiro de Curitiba.
Trevisan trabalhou durante sua juventude na fábrica de vidros de sua família e chegou a exercer a advocacia durante sete anos, depois de se formar pela Faculdade de Direito do Paraná. Quando era estudante de Direito, costumava lançar seus contos em folhetos.
Liderou o grupo literário que publicou, entre 1946 e 1948, a revista Joaquim. O nome, segundo ele, era "uma homenagem a todos os Joaquins do Brasil".
A publicação tornou-se porta-voz de uma geração de escritores, críticos e poetas. Reunia ensaios assinados por Antonio Cândido, Mário de Andrade e Otto Maria Carpeaux e poemas até então inéditos, como "O Caso do Vestido", de Carlos Drummond de Andrade. A revista também trazia traduções de Joyce, Proust, Kafka, Sartre e Gide e era ilustrada por artistas como Poty, Di Cavalcanti e Heitor dos Prazeres.
A Joaquim, que circulou até dezembro de 1948, continha o material de seus primeiros livros de ficção, incluindo Sonata ao Luar (1945) e Sete Anos de Pastor (1948) - duas obras renegadas pelo autor. Em 1954 publicou o Guia Histórico de Curitiba, Crônicas da Província de Curitiba, O Dia de Marcos e Os Domingos ou Ao Armazém do Lucas, edições populares à maneira dos folhetos de feira.
...
Inspirado nos moradores de Curitiba, criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e os costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular, que valoriza os incidentes do cotidiano sofrido e angustiante.
Publicou também Novelas Nada Exemplares (1959) e ganhou o Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro. Como era de se esperar, enviou um representante para recebê-lo. Morte na Praça (1964), Cemitério de Elefantes (1964) e O Vampiro de Curitiba (1965). Isolado dos meios intelectuais e concorrendo sob pseudônimo, Trevisan conquistou o primeiro lugar do I Concurso Nacional de Contos do Estado do Paraná, em 1968.
Escreveu depois A Guerra Conjugal (1969), posteriormente transformada em filme, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, Crimes da Paixão (1978) e Lincha Tarado (1980). Em 1994 publicou Ah, é?, obra-prima do estilo minimalista. Seu único romance publicado é A Polaquinha.



...
Livros publicados no exterior:
Novelas Nada Ejemplares - tradução de Juan Garcia Gayo, Monte Avila - Caracas (1970)
De Koning der Aarde (O Rei da Terra) - tradução de August Willemsen - Amsterdam (1975)
The Vampire of Curitiba and Others Stories - tradução de Gregory Rabassa, Alfred A. Knopf - Nova York (1972)
El Vampiro de Curitiba - tradução de Haydée M. J. Barroso, Ed. Sudamericana - Buenos Aires (1976)
De Vijfvleugelige Vogel (O Pássaro de Cinco Asas) - trad. August Willemsen - Amsterdam (1977)




UMA VELA PARA DARIO

  Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa  na pedra o cachimbo.

 Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

Ele reclina-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros que se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario ronqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.

Cada pessoa que chega ergue-se na ponta dos pés, não o pode ver. Os moradores da rua conversam de uma porta à outra, as crianças de pijama acodem à janela. O senhor gordo repete que Dario sentou-se na calçada, soprando  a fumaça do cachimbo, encostava o guarda-chuva na parede. Mas não se vê guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informa da farmácia na outra rua. Não carregam Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito peso. É largado na porta de uma peixaria. Enxame de  moscas lhe cobrem o rosto, sem que faça um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que apreciam o incidente e, agora , comendo e bebendo, gozam as delícias da noite. Dario em sossego e torto no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugere lhe examinem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira é de outra cidade.

Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproxima-se do cadáver,  não pode identifica-lo - os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio - quando vivo - só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.

A última boca repete - Ele morreu, ele morreu. E a gente começa a se dispersar. Dario levou duas horas para morrer, ninguém acreditava estivesse no fim. Agora, aos que alcançam vê-lo, todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso dobra o paletó de Dario para  lhe apoiar a cabeça. Cruza as mãos no peito. Não consegue fechar olho nem boca, onde a espuma sumiu. Apenas um homem  morto e a multidão se espalha, as mesas do café ficam vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço vem com uma vela, que acende ao lado do cadáver, Parece morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecham-se uma a uma as janelas. Três horas depois, lá está Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó. E o dedo sem a aliança. O toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair.



O CICLISTA

Curvado no guidão lá vai ele numa chispa. Na esquina dá com o sinal vermelho e não se perturba – levanta voo bem na cara do guarda crucificado. No labirinto urbano persegue a morte com o trim-trim da campainha: entrega sem derreter sorvete a domicílio.

É sua lâmpada de Aladino a bicicleta e, ao sentar-se no selim, liberta o gênio acorrentado ao pedal. Indefeso homem, frágil máquina, arremete impávido colosso, desvia de fininho o poste, o caminhão; o ciclista por muito derrubou o boné.

Atropela gentilmente e, vespa furiosa que morde, ei-lo defunto ao perder o ferrão. Guerreiros inimigos trituram com chio de pneus o seu diáfano esqueleto. Se não se estrebucha ali mesmo, bate o pó da roupa e – uma perna mais curta – foge por entre nuvens, a bicicleta no ombro.

Opõe o peito magro ao para-choque do ônibus. Salta a poça d`água no asfalto. Num só corpo, touro e toureiro, golpeia ferido o ar nos cornos do guidão.

Ao fim do dia, José guarda no canto da casa o pássaro de viagem. Enfrenta o sono trim-trim a pé e, na primeira esquina, avança pelo céu na contramão, trim-trim.




PENÉLOPE

Na rua de casas iguais morava, há muitos anos, um casal de velhos. Ela o esperava, costurando na cadeira de embalo da varanda e, quando ele vinha pela rua, com um pacote no braço, descia, de chinelos, os dois degraus da varanda e lhe sorria, com o portão aberto. Cruzavam o pequeno jardim e, apenas na porta, por causa dos vizinhos, mas ainda antes de entrar, ela lhe erguia a cabeça, sem nenhum fio branco, e ele a beijava na testa. Estavam sempre juntos, lidando no seu quintal, ele com as couves, ela com sua coleção de cactos. Quando deixavam aberta a porta da cozinha, os vizinhos podiam ver que ele enxugava a louça para a mulher. E, aos sábados, saíam para o seu passeio diante das vitrinas, ela, gorda, ainda bonita, de olhos azuis e ele, magro, baixo, de preto. Nas noites de verão, ela usava vestidos brancos, de pernas nuas, ele não, sempre de preto. Havia um mistério na vida deles, que nenhum vizinho conhecia. Sabia-se vagamente que os filhos tinham morrido num desastre, há muitos anos. O casal de velhos abandonou tudo, casa, túmulos, bichos e se mudara para aquela cidade, naquela rua. Eram os dois, sem cão, gato, passarinho, nem mesmo galinhas. Tinham medo de se afeiçoar a qualquer coisa. Algumas vezes, na ausência do marido, ela trazia ossos para os cães vagabundos que cheiravam o portão. Quando engordavam uma galinha, a mulher se enternecia por ela e não tinha coragem de matá-la. Então, o velho desmanchou o galinheiro e, no seu lugar, plantou uns pés de couve. Arrancou a única roseira que crescia num canto do jardim; nem a uma rosa se atreviam a dar os seus restos de amor.

Afora a viagem, que faziam uma vez por ano para visitar o túmulo dos filhos, não saíam de casa, o velho fumando seu cachimbo, a velha trançando as agulhas de tricô, a não ser no seu clássico passeio dos sábados. E foi num sábado que, ao abrir a porta, eles acharam a seus pés, uma carta. Era estranho, porque ninguém lhes escrevia, os dois sozinhos no mundo, e confabularam antes de se decidir a abri-la. Era um envelope azul, sem qualquer endereço. A mulher propôs rasgá-lo, sem ler. Já tinham sofrido demais. Ele respondeu que ninguém podia mais fazer-lhes mal. Não queimou a carta, não se apressou de abri-la, deixou-a sobre a mesa. Sentaram-se um diante do outro, sob o abajur azul da sala, ela com seu tricô, ele com seu jornal. As vezes, ela curvava a cabeça, mordendo uma agulha na boca e com a outra contando os pontos. Quando chegava ao fim, tinha de contar a linha de novo: pensava na carta sobre a mesa. O homem lia com o jornal dobrado, no joelho, e leu duas vezes cada linha para entendê-la: pensava na carta sobre a mesa. O seu cachimbo apagou, não o acendeu, os olhos parados na mesma notícia, ouvindo apenas o seco bater das agulhas entre os dedos da mulher. Então, pegou a carta e abriu-a. Achou um pedaço de papel dobrado, com duas palavras: cOrNo MaNsO, escritas com grandes letras recortadas de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Entregou o papel à mulher que, depois de ler, o olhou. Nenhum falou. A mulher se ergueu, segurando a carta na ponta dos dedos. Onde é que você vai? o homem perguntou. Queimar... ela respondeu. Não, ele disse. Dobrou o papel dentro do envelope azul e guardou-o no bolso. Juntou para a mulher a toalhinha que tinha caído no chão e continuou a ler o jornal e em cada linha, aquela noite, leu as duas palavras da carta.

Não estava mais certo de que ninguém podia fazer-lhes mal. Antes da mulher se erguer e guardar a cestinha com os fios e as agulhas, segurou-lhe a mão para consolá-la: aposto, minha velha, disse, que a mesma carta foi jogada sob a porta de todas as casas da rua. As vozes das sereias cantam ainda no coração dos velhos? Nem mesmo um pobre casal de velhos estava a salvo. Haviam-lhes tirado os filhos, os bichos, a cidade. Agora, queriam separá-los um do outro.

O homem esqueceu a carta no bolso e passou-se outra semana. No sábado, de volta do seu passeio, antes de abrir a porta, sabia que ela estava ali, azul sobre o capacho. A mulher pisou na carta, fingindo que não a via. Ele a juntou e guardou no bolso. Quase no fim do serão, sem erguer a cabeça da toalhinha, contando sempre a mesma linha, ela perguntou: você não vai ler a sua carta? Olhava-a, fingindo que lia o jornal, admirando-lhe a bela cabeça, sem nenhum cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, eram azuis como no primeiro dia. Eu já sei o que diz, ele respondeu. Então por que não a queima? É um jogo, minha velha, disse, mostrando o envelope azul entre os dedos: nenhum sobrescrito e fechado. Rasgou-o numa ponta e tirou o papel dobrado: duas palavras, as mesmas, nas letras recortadas de jornal. Soprou o envelope, sacudiu-o sobre o tapete, mais nada. A mulher tricoteava, como se não visse a carta. Ele a guardou no bolso, com a outra e continuou a ler em cada linha do jornal aquelas duas palavras. Ela não lhe perguntou, como se soubesse. Tinha o rosto oculto pela sombra do abajur. O homem reparou que ela desmanchava um ponto errado na toalhinha. Eram os dedos que tricoteavam ou as mãos que tremiam?

Ele acordou com dor de cabeça, no meio da noite, levantou-se da cama e foi beber água no filtro. Afastou a cortina e, na rua deserta, viu na sombra dum muro, o vulto daquele homem. Ficou ali, com a mão crispada na cortina, até o homem ir-se embora. Deitou-se, de costas para a mulher, (sabia que estava acordada e de olhos abertos para ele), imaginando quem seria o homem na sombra do muro. E pensou, pela primeira vez, se a carta não podia ser para ele mesmo.

De manhã, esqueceu a ideia e, deitado na cama, observava de olhos meio fechados a mulher, que se vestia para ir às compras. Diante do guarda-roupa, ela escolhia um vestido. Os seus vestidos brancos a deixavam mais gorda. Esperou-o para tomarem café juntos, como todas as manhãs e, quando ela fechou a porta, foi olhá-la pela janela. Era ela mesma, a sua mulher. O homem se sentiu envergonhado e fechou os olhos, dizendo: minha velha, me perdoe... Quando os abriu, notou que a mulher olhava para a janela, ainda que não pudesse vê-lo, atrás da cortina. Por que olhara a janela? Para dar-lhe adeus, se ele ali estivesse ou para saber se desconfiava dela?

No sábado seguinte, quis propor-lhe ficarem em casa, de luzes apagadas e surpreenderem o autor das cartas. Ao vê-la tão alegre, porque iam passear, não teve coragem e saíram. Durante o passeio pensou o tempo todo se era apenas ele que recebia as cartas. Não podia abordar um dos vizinhos no portão e perguntar-lhe aquilo. As casas da rua, de aluguel, eram todas iguais. Podia ser engano, o envelope não tinha endereço. Se, ao menos citasse nomes, horas, lugares... Quando abriu a porta, lá estava ela: a carta azul. Desta vez, não a leu diante da mulher. Guardou-a no bolso, junto com as outras e pôs-se a ler o seu jornal, sob o abajur. Quando virava as páginas, surpreendia o rosto da mulher debruçado sobre as agulhas. Era uma toalhinha difícil, porque há meses trabalhava nela. Como se lesse no jornal, ele lhe contou a história de Penélope, que desfazia de noite, à luz das velas, as linhas trançadas durante o dia, para ganhar tempo dos seus pretendentes, esperando a volta do senhor seu marido. Pela primeira vez, pensou se Penélope não teria enganado ao marido ausente. Para quem era a mortalha que ela bordava? Teria continuado a trançar suas agulhas após a volta de Ulisses? Homero não fala. Nem a mulher, que não perguntou sobre a carta.

No banheiro, fechando a porta à chave, abriu a carta. As duas palavras... Ele tinha o seu plano: guardou a carta no envelope e dentro dela um fio de cabelo. Pendurou o paletó no cabide, com a carta visível num dos bolsos. Foi-se deitar, enquanto a mulher punha o saco de pão na janela e a garrafa vazia de leite na porta. No dia seguinte, após o café, quando ela saiu, com a sacola das compras no braço, examinou a carta: estava no mesmo lugar, parecia intacta. Abriu-a e procurou o pequeno fio de cabelo, não estava mais.

Então, revolveu no fundo das gavetas. Não tinha tempo, ela voltaria logo. No emprego, imaginava os passos de sua mulher pela casa. Quando a encontra no portão descobre nos seus olhos o reflexo da gravata azul do outro. Observando-a, de manhã, na penumbra do quarto, suspeita que as sombras no seu gordo corpo nu são de abraços do outro. Ele quer erguer-lhe o cabelo da nuca para ver se não tem a tatuagem dos dentes do outro. Na sua ausência, abre o guarda-roupa da mulher, cobre a cabeça com seus vestidos e cheira-os. Espreita os homens que passam diante da casa, atrás da cortina. Conhece agora o leiteiro e o padeiro, jovens, de olhos falsos.

Pode contar, na volta do emprego, quais foram os passos da mulher pela casa: se os móveis têm pó ou não, se a terra nos vasos de flores está molhada ou seca... Ele marca o tempo pela toalhinha. Sabe quantas linhas a mulher tricoteou. Sabe quando ela erra os pontos e deve desmanchá-los, antes mesmo de contá-los com a ponta da agulha.

Nada tem contra ela e o homem ficou silencioso. Come de cabeça baixa, sem falar. Lê o seu jornal, de noite e, em vez de ler para a mulher as notícias divertidas, como antes, lê apenas em voz alta as histórias de crimes. Enquanto lê, vigia o rosto curvado da mulher, na sombra azul do abajur. Se ouve passos de noite na calçada vai espreitar pela janela, de pijama e pés descalços; a cortina está amarrotada no canto pela sua mão crispada.

Houve somente uma cena entre eles, quando comprou um revólver. Ele o guardou sobre o guarda-roupa da mulher. Ela perguntou: você está louco, meu velho? Para que um revólver? Há muito ladrão nesta cidade. E olhou como se ela fosse um ladrão. Meu Deus, a mulher gemeu, você não pensa que eu... e quis abraçá-lo, com as mãos estendidas, quando o homem, para desvencilhar-se, empurrou-a e, como não o soltasse, lhe golpeou o rosto com toda a força. Ela cobriu o rosto com uma das mãos e com a outra pegou a sua, ainda fechada. Pensou que fosse mordê-lo. Ela lhe beijou a mão, antes que pudesse retirá-la. O homem sentiu pena, mas não lhe pediu perdão. Foi a única cena e, depois dela, a mulher aceitou tudo.

Ele quer saber o destino de velhos presentes, de jóias sem valor (desconfia que o outro é moço, ela deve dar-lhe presentes). Quem sabe, faça toalhinhas de tricô, para o outro vender. No serão, os dois sob o abajur, em vez de ler o jornal, vigia a mulher - o rosto, o vestido, as mãos - atrás dos dedos do outro. Crava-lhe os olhos na mão (as mãos que acariciam e não têm memória dos carinhos) até que ela erra o ponto, tem que desmanchar a linha.

Às vezes, quando chega em casa ela não o espera mais no portão, (porque finge não vê-la e passando por ela sobe os dois degraus, como se estivesse ali no portão à espera do outro) a casa está silenciosa, ele aspira os odores no ar, passa a mão sobre os móveis, apalpa entre os dedos a terra dos vasos. Adivinha onde a mulher está. Esconde-se dele, nos cantos escuros da casa e dá-lhe as costas, para que não veja os seus olhos vermelhos. Eram olhos azuis que sorriam a vida inteira para ele. Estão vermelhos de chorar pelo outro, por não ter podido vê-lo.

Uma noite, acordou e achou o outro travesseiro vazio, ainda quente da cabeça da mulher. Sob a porta, viu uma luz na sala. Pé ante pé, agarrou o revólver sobre o guarda-roupa e abriu de súbito a porta. Sob o abajur, a mulher fazia o seu tricô - sempre a toalhinha para a mesa da sala. Era ela Penélope, desfazendo na noite o trabalho executado de dia? Tecia a mortalha para o marido antes de casar-se com o outro?

Erguendo os olhos da toalhinha, viu o revólver na mão do homem, mas não disse nada. As suas agulhas batiam uma na outra, embora não tricoteasse e estivesse olhando para o homem. Ele voltou para o quarto, fechando a porta, não sabia por que não a matava.

No meio de uma refeição, ele a interroga sobre seus velhos namorados, do tempo de solteira, de um primo que queria casar com ela. Ela responde, enquanto ele aprova com a cabeça, fumando seu cachimbo, de olhos meio fechados. Agora sabe, tem todas as provas: ela o enganava com o primo. Se não fosse culpada, protestaria, fugiria de casa. Mas não: ouve tudo, conta tudo. Se ela se contradiz, corrige-a batendo com a ponta do cachimbo apagado no seu prato.

- Mas faz tanto tempo, meu...

Não tem coragem de chamá-lo "meu velho". Enquanto ela vai, com sua sacola, de cabeça baixa, fazer suas compras, o velho revolve as cinzas do fogão, para saber se ela queima os bilhetes do outro.

De súbito, no meio da leitura em voz alta de um crime, ele tira as cartas do bolso - são muitas, uma de cada sábado - e lê, uma por uma, como se fossem todas diferentes. Guarda-as de novo no bolso, porque não se separa delas, e prossegue a leitura do jornal em voz alta.

Achou, numa caixa de sapatos, cheia de fotografias, uma dela, menina, com o primo, o outro. Ele colocou a fotografia sobre a mesa da sala, de pé, contra um vaso de cacto. Assim que a mulher abriu a porta, olhou para a mesa e viu a fotografia. Ela começou a chorar. Tinha pacotes nas mãos e não podia esconder as lágrimas, nem enxugá-las. Olhava para o homem e para a fotografia, e chorava. Ela nada disse, aquelas lágrimas eram de culpada. O homem se deu por satisfeito. Eram provas que reunia, queria ser justo.

O passeio aos sábados era seu único vício de velhos. Ela se arrumava, punha seu melhor vestido, seu chapéu fora de moda. Fumando seu cachimbo atrás da janela, deixou-a que se arrumasse. Ela sentou-se na poltrona da sala, com seu chapéu de flores na cabeça, a bolsa no braço, e ficou esperando. Não se virou, enquanto ela esperava, com as mãos cruzadas. Ele então se voltou, olhou o chapéu, a bolsa, as mãos vazias da toalhinha e disse:

- Meu Deus, que chapéu feio... Não posso sair na rua com uma mulher que usa um chapéu desses!

Abriu o jornal e começou a ler as notícias policiais em voz alta, enquanto a mulher ouvia, sem tirar o chapéu, já com o tricô na mão. Aquele sábado não veio nenhuma carta. Foi até a porta, abriu-a, olhou para o capacho e para a mulher. Era vigiado, ele também, o corno manso, pelo outro. Sentia falta daquela carta. Era uma correspondência inteligente entre outro e ele, um jogo, como tinha dito uma vez à mulher. Um dia, o outro revelaria tudo, era preciso não interromper as cartas. Então, continuaram a sair nos sábados.

Eles saem, dá o braço à mulher no portão e não falam durante todo o passeio, passam diante das vitrinas sem parar. Como é gorda, ela cansa mais depressa, mas não se queixa, nem ele diminui o passo. Na volta, sob a porta, junta a carta azul e, antes de abri-la, passeia com ela na mão pela casa, pára diante da mulher, de rosto azul sob o abajur. Ele a lê escondido, de porta fechada, no banheiro, e guarda com um cabelo no envelope e deixa sobre a mesa. Em todas encontra depois o cabelo, a mulher nunca mais leu as cartas. Ou - ele pensa, com uma nova ruga na testa - descobriu o seu segredo e lê as cartas substituindo o cabelo por um dos dela?

Uma tarde, de volta do emprego, abriu a porta e aspirou o ar, como fazia antes de entrar. Passou a mão no canto dos móveis: pó. Apalpou a terra dos vasos: seca. O coração batia na ponta dos pés, enquanto avançava pela casa. Entrou, ante pé, no quarto escuro e acendeu a luz: a mulher estava deitada na cama de casal, de chapéu de flores na cabeça, a bolsa no braço, segurando o revólver na mão direita. Ele não pôde fechar os seus olhos, outra vez azuis. Eles sorriam de novo para o velho.

Não sentiu piedade, estava vingado. Chamou a polícia que o deixou em paz, estava no emprego na hora em que a mulher se suicidou. Quanto o enterro saiu, os vizinhos repararam que, embora fosse um casal tão unido de velhos, ele não chorou nenhuma vez. Segurou na alça do caixão e ajudou a empurrá-lo no túmulo, (como fazem os velhos, ele o tinha construído há anos) e antes mesmo de o pedreiro, erguer a sua parede de tijolos, ele deu as costas para a mulher e foi-se embora.

Quando entrou em casa, reparou em qualquer coisa estranha: a toalhinha sobre a mesa era nova. Era a toalhinha de tricô! A mulher esperou terminar a toalhinha antes de se matar. Ela trançara sua própria mortalha. Penélope concluiu sua obra, o marido chegou em casa. Ele a tocou, na ponta dos dedos, estava lavada e engomada. Não tinha mancha de lágrimas, nem ruga de dedos trêmulos. Acendeu a lâmpada do abajur azul. Sobre a poltrona da mulher, diante da sua, vê as agulhas de tricô cruzadas na sua cestinha.

Era sábado, o velho pensou. Nada tinha a recear, nenhuma carta chegaria. Ninguém mais podia fazer-lhe mal. A mulher estaca morta, pagara pelo seu crime. E, então, pensou que a mulher podia ser inocente. A carta poderia ser jogada sob todas as portas da rua. Ou ser atirada sob a sua porta, por engano, eram todas as casas iguais. Havia um meio de saber: se fossem destinadas a ele, com a mulher morta, não viriam nunca mais. Não as acharia sob a porta, encostadas no capacho. Aquela fora a última: o outro teria visto, de tarde, a casa de portas e janelas abertas para sair o enterro. Teria visto ao crepúsculo o carro funerário saindo do portão. Teria seguido, ninguém sabe, o enterro, era um dos que o acotovelavam para ver o caixão entrar, rangendo sobre os grãos de areia, no túmulo.

O velho saiu de casa. Andava com um braço dobrado, pelo hábito de dá-lo à mulher por tantos anos. Diante de uma vitrina de vestidos, alguns brancos, sentiu no braço a mão de sua mulher. Ele tinha razão, aquela carta fora a última. Nunca mais viria outra. Subiu os dois degraus da escadinha, parando com o pé no ar diante da porta. Eu fui justo, ele se disse e abriu a porta para ver a carta azul.