(Interessante o quanto "essa data" – 14 de julho – importa em nosso estado. São ruas, avenidas, praças, clubes sociais, clubes de futebol, como o 14 de Julho de Livramento, fundado lá atrás em 1902, o extinto 14 de julho de Passo Fundo, enfim, um oceano de 14 de julho.
Só tardiamente foi que descobri que não era uma homenagem à icônica data francesa, a data que simboliza a queda da Bastilha, a "bastilha do absolutismo francês. Era sim algo bem provinciano, nosso, daqui mesmo: a data em que o Júlio de Castilhos promulgou a sua "democrática" Constituição Republicana de 1891, feita todinha por sua mente e mão destra. Talvez, a escolha dessa data, especificamente, não tenha sido randômica, e, sim, intencional por parte do Júlio de Castilhos, vá se saber!
O fato é que os prosélitos republicanos usaram a data para homenagear à República e ao líder maior desse evento aqui em nosso Estado, o Dr. Júlio de Castilhos.
Eu respeito – sempre – a história e seus construtores, mas o pai do republicanismo em nosso estado foi um ditador cruel, responsável por mais de 10 mil mortos na Revolução Federalista de 1893. Isso é FATO!, ergo, apropriação indébita!)
O dia era 13 de julho de 1789...
O comandante da prisão-fortaleza da Bastilha, Bernard de Launay, do alto dos 25 metros de seus muros, via fumaça em pontos diversos da cidade e a agitada e frenética movimentação da multidão faminta e revoltada.
Já fazia algum tempo, desde 05 de maio, que a Assembleia dos Estados Gerais reunia-se para resolver a grave crise financeira do país, mas que logo se libertou das amarras reais e passou a trabalhar na formulação de uma Constituição.=
No dia seguinte, 14 de julho, Launay, indeciso, nervoso, toma algumas decisões não muito hábeis. Com poucos soldados à disposição, autoriza disparos de mosquetes contra a multidão que havia invadido o pátio interno da fortificação. Muitas mortes enfurecem ainda mais a turba. Então, Launay toma outra decisão que o faz perder a cabeça, literalmente: rende a fortaleza com a promessa de salvo-conduto. Sua cabeça, decepada, passeia pelas ruas de Paris na ponta de uma lança, acompanhada pela turba em delírio.=
Interessante que este episódio, símbolo e marco da Revolução Francesa, em si, deu em nada, pois não havia ali mais prisioneiros. Até mesmo o ‘sádico’ Marquês de Sade, o ilustre libertino prisioneiro, havia sido transferido para outro local dez dias antes!
Neste 14 de julho, à noite, no Palácio de Versalhes, uns 25 quilômetros de Paris, Luís XVI retira-se cedinho para seu leito real. É acordado por um nervoso auxiliar, o duque de Liancourt, que lhe comunica, "majestade, hoje houve sérios distúrbios em Paris". "É uma revolta?", questiona entre bocejos um sonolento e surpreso rei. "Não, majestade, trata-se de uma REVOLUÇÃO!"
Luís XVI,
O rei francês da dinastia Bourbon, nascido em 1754, assume o reino em 10 de maio de 1774, com – apenas – 20 anos.
15 anos após, a roda da revolução que impactará para sempre a França, a Europa e o Mundo e que lhe cortará o pescoço, inicia seu giro inexorável. =
Seu reino está absolutamente endividado e em crise permanente, muito em função das péssimas administrações de seus antepassados dinásticos, desde seu bisavô Luís XIV, o Rei-Sol, símbolo maior do absolutismo europeu, cujo maior prazer era promover dispendiosas guerras.-
Além dessas gestões perdulárias, ainda houve dois outros graves geradores de gastos para um cofre já vazio: 1) a guerra contra a Inglaterra na Colônia Americana, de 1754 a 1763; 2) e a Revolução Americana, de 1776 a 1783, na qual a França apoiou as 13 Colônias com dinheiro, soldados e armamentos.
Mas, a bem da verdade, Luís XVI conseguia ser ainda mais inábil que seus antecessores na administração da nação mais populosa da Europa à sua época – 25 milhões de súditos. As dificuldades econômicas da França e as graves injustiças sociais avolumavam-se mais e mais.
A corda extremamente tensionada estoura por volta de 1787.
Então, seus ministros das Finanças tentam achar solução para resolver a grave crise. Uma delas era obter algum dinheiro taxando as propriedades dos nobres. Em oposição, o Parlamento (composto de nobres escolhidos pelo rei, e de função meramente em conformidade ao poder real) disse que somente os Estados Gerais podiam votar/autorizar tais tributos.=
Os Estados Gerais era algo medieval que havia se reunido pela última vez, 175 anos atrás, em 1614. Em realidade, ninguém mesmo sabia como a coisa iria funcionar.=
Sabia-se que era formado pelos três estados: o clero, a nobreza e os plebeus.=
O Rei e a nobreza acreditavam que dominariam o resultado da votação. Mas, não funcionou assim. Mesmo lentamente, a roda da revolução inicia o seu firme andar.
Os Estados Gerais foi então convocado pelo próprio rei para iniciar trabalhos em 1789:
- 05 de maio, reúnem-se em assembleia em Versalhes;
- 17 de junho, os delegados do Terceiro Estado rebelam-se e adotam o título de Assembleia Nacional;
- 1º de julho é assinado, pelos rebeldes delegados do Terceiro Estado, o Juramento da Sala do Jogo da Péla;
- 14 de julho, população ataca a prisão-fortaleza da Bastilha;
- 26 de agosto, a Assembleia Nacional aprova a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão;
- 5 de outubro, seis mil mulheres marcham de Paris a Versalhes e trazem "a tiracolo" a família real e a Assembleia Nacional para Paris;
1790:
São formados os clubes Cordeliers, Girondinos e Jacobinos. Os girondinos, à direita da mesa da Assembleia; e os Jacobinos, à esquerda;
1791:
- 20 de junho, família real tenta fugir para a Áustria;
- 17 de julho, massacre do Campo de Marte, em Paris;
- Em setembro, promulgada a Constituição com separação de poderes, direitos civis completos, o voto, mesmo que censitário, dava direito a voto à maioria dos homens adultos;
- Setembro, Prússia e Áustria decidem intervir na França;
- Outubro, eleições trazem agora uma maioria de esquerda;
1792:
- 20 de abril, Luís XVI, pressionado pelos girondinos, declara guerra à Áustria e Prússia; tem início a Guerra da Primeira Coalizão;
- 10 de agosto, a população ataca o Palácio das Tulherias; Luís XVI é aprisionado;
- 20 de setembro, reunião da Convenção Nacional; Exército francês vence os prussianos na Batalha de Valmy;
- 22 de setembro, Convenção Nacional declara a República francesa;
1793:
- 21 de janeiro, Luís XVI é guilhotinado;
- Fevereiro e março, França anexa Mônaco e declara guerra à Inglaterra, Holanda e Espanha;
- Março, revolta na Vendeia;
- 10 de março, Convenção cria o famigerado Tribunal Revolucionário;
- 2 de junho, deputados girondinos são expulsos da Convenção e presos;
- 24 de junho, A Convenção Nacional aprova uma Constituição nacional, Ano I, Sufrágio universal, não censitário, Ser Supremo;
- 13 de julho, Jean-Paul Marat é assassinado;
- 5 de setembro, tentativa de golpe dos hebertistas é malograda;
- 17 de setembro, aprovada a Lei dos Suspeitos; tem início o regime do Terror, sob o comando do Comitê de Salvação Pública;
- 31 de outubro, líderes Girondinos são guilhotinados;
1794:
- 8 de junho, Robespierre dirige o Festival do Ser Supremo;
- 5 de abril, Danton e seus partidários, presos e julgados, são mortos na guilhotina;
- 28 de julho, Robespierre, preso e sentenciado, morre na guilhotina. Acaba a Convenção, acaba o período do Terror;
1795:
Agosto, nova Constituição, ano III, retorno do voto censitário, igualdade só para direitos civis, instalação do Diretório;
1796:
Conspiração dos iguais, panfletista Gracchus Babeuf é preso e guilhotinado;
1799:
- 9 de novembro, Golpe do 18 Brumário, fim da revolução e início da era Napoleão Bonaparte. Napoleão executa um golpe de Estado e toma o poder da França, instalando o Consulado, de três cônsules, no qual era o líder inconteste.
Por fim, entre ganhos e perdas, não dá para se negar que a Revolução Francesa foi, é, e continuará sendo ad aeternum um marco na história da civilização humana.
Houve erros, sim, obviamente!
Os Danton, Robespierre, Jean Paul Marat, Conde de Mirabeau, Jacques Brissot, Camille Desmoulins, Louis Saint-Just, são apenas seres humanos, que, por obra do destino, envolveram-se no contexto de um grande evento prenhe de humanidade.
E, como já disse o grande Charles Chaplin, ‘O Mundo não é composto de heróis e vilões, mas de homens e mulheres, com todas as paixões que Deus lhes deu. O ignorante condena, o sábio se compadece’.
Viva a Revolução Francesa!