Sexta, 10 de abril de 2026

 


NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo






JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26.






Hiroshima e Nagasaki

"...Pensem nas crianças / Mudas telepáticas / Pensem nas meninas / Cegas inexatas / Pensem nas mulheres / Rotas alteradas / Pensem nas feridas / Como rosas cálidas..."

Inserto do poema ‘Rosa de Hiroshima’, do poeta Vinicius de Moraes, musicado por Gerson Conrad, megasucesso do grupo Secos e Molhados - em 1973.


Acredito que a grande maioria dos leitores desta cesta semanal assistiu ao blockbuster cinematográfico Oppenheimer, produzido em 2023, um longa de três horas centrado na vida de Robert Oppenheimer e nas etapas (desde a famosa carta de 1939 do físico judeu alemão Albert Einstein ao presidente americano F. D. Roosevelt), que vão do projeto ao desenvolvimento,  construção e eclosão experimental da primeira  bomba atômica, o maior esforço militar/científico da 2ª Guerra Mundial e do século XX.


O filme em si, longo, um pouco lento, arrastado, explora o ambiente intelectual das universidades americanas prenhes de um certo ‘romantismo comunista’, as pressões políticas, a corrida armamentista, a criação do Projeto Manhattan, a construção do megalaboratório de Los Alamos (Novo México) e de uma cidade/comunidade para abrigar seus milhares de cientistas e trabalhadores, as inevitáveis cenas – reais ou imaginárias – envolvendo espionagem por agentes infiltrados russos apesar da extrema segurança, as sempre presentes contradições, etc., etc.


Há um livro sobre os eventos das duas bombas, O Último Trem de Hiroshima, do escritor norte-americano Charles Pellegrino, de 2010, com 400 páginas (reli-o para escrever este presente texto), o mais completo documento sobre esta importante página da história do século XX, prenhe de detalhes técnicos das bombas, seus efeitos terrivelmente deletérios, nomes de personagens, etc., e com uma carga de humanidade no relato das vítimas dessas duas bombas que faz com que o mais duro leitor borre páginas lacrimosas com os relatos dos sofrimentos desses agentes passivos da guerra, principalmente as crianças.

Durante os anos que precederam a 2ª Guerra Mundial, laboratórios em Berlim (bem na dianteira), Cambridge e Roma competiam pela primazia da descoberta do que haveria no núcleo atômico.

Evidentemente que havia curiosidade intelectual, mas o motor central desta disputa era armamentístico.


Logo se descobriu o princípio da fissão nuclear, ou seja: o núcleo de um átomo de urânio ao ser atingido por um nêutron dividia-se em dois liberando uma quantidade enorme de energia e provocando a emissão de mais outros nêutrons que vão atingir os átomos ao redor, gerando então a famosa ‘reação em cadeia’ e a liberação de energia em forma de uma explosão fantástica, destrutiva e incontrolável, a terrível bomba atômica!

Diz-se que os Estados Unidos gastaram mais de dois bilhões de dólares no Projeto Manhattan, o que, a dinheiro de hoje, seria qualquer coisa próxima a 40 bilhões (de dólares).

Era para ser tão "secreto" que a história nos avisa que não havia mais de 100 pessoas que o conheciam. Todos que ali trabalhavam assinavam um contrato de confidencialidade, sob lei marcial, tanto que o chefão do projeto era o general Leslie Groves, que indicou e escolheu o físico quântico norte-americano Robert Oppenheimer para coordenar e liderar a parte técnica.

Tão secreto que até o vice-presidente da República Harry Truman somente foi interado quando da sua ascensão à presidência em 12 de abril de 1944, com a morte do titular, o presidente F. D. Roosevelt.


E foi o Truman quem teve que dar a palavra final sobre a decisão de largar as bombas sobre o território e cabeças dos inimigos japoneses!

(Bom, isso é o que os livros nos contam, mas eu, historiador e conhecedor da antropologia humana, não tenho dúvidas de que essas instalações e pesquisas eram do amplo conhecimento de milhares de pessoas dentro do território americano e no mundo, e de que o vice-presidente Harry Truman era sabedor em detalhes das pesquisas.

Os comunistas soviéticos, meros quatro anos depois dos americanos, já tinham a sua bomba desenvolvida e operacional, cópia do projeto americano quase que integralmente.)

Os Estados Unidos, nos alvores do século XX, por ser uma nação recente, não estava ao nível das nações européias em termos de desenvolvimento científico de ponta .

Mas, embora a física quântica tenha nascido na Europa, quando do início dos anos 1940, já haviam migrado para a América, fruto da ascensão do nazismo e do medo da guerra, dezenas de cientistas de ponta, como: Albert Einstein, Enrico Fermi, Leo Szilard, Eugene Wigner e muitos mais.

Também é fato que, a partir de 1920, as Universidades americanas começaram a formar as primeiras gerações de físicos, matemáticos, químicos, absolutamente inteirados da física quântica, como por exemplo, o Oppenheimer e o Feynman. Mas, acima de tudo, acima da vontade férrea dos americanos, havia um formidável parque industrial e uma exuberância financeira singular.

Das três bombas produzidas com o escasso material que havia (os americanos blefaram que tinham mais bombas, fazendo com que os japoneses acabassem por render-se incondicionalmente), a primeira, de plutônio, a chamada ‘bomba experimental’ foi explodida às 5,30h da manhã de 16 de julho de 1945 no topo de uma torre metálica de 30 metros de altura instalada no deserto do Novo México, para uma enorme assistência de técnicos e convidados. Ninguém estava preparado para tamanha devastação.


Além do gigantesco cogumelo, algumas outras consequências foram só muito tempo após divulgadas: ‘a quase 800 metros de distância, coelhos explodiram, a mais de um quilômetro, a temperatura chegou a 400 graus C, pessoas locais que estava a mais de 15 quilômetros do local da detonação sofreram cegueira temporária.

O sucesso e satisfação foi total

Já no mês seguinte, Groves e Oppenheimer apoiaram o lançamento das duas bombas restantes sobre o Japão.

Vou descrever, do livro adrede citado, alguns eventos do lançamento da bomba sobre Hiroshima:


(...) Na pista A, Paul Tibbets deu a partida no Enola Gay às 2h45. Três minutos depois, Charles Sweeney decolava o Great Artiste da pista B; e três minutos mais tarde, George Marquart seguia-os no Necessary Evil.

(...) As três aeronaves voariam com intervalos de 16 quilômetros entre si até o primeiro ponto de encontro.

(...) Parsons desceu até o compartimento despressurizado de bombas do Enola Gay e começou a inserir as cargas de cordite na bomba, seguindo detalhada lista de verificação...

(...) A bordo dos dois outros aviões, membros da equipe científica fechavam os olhos e tentavam dormir um pouco, reservando energias para a parte final da missão.

(...) Duas horas mais tarde, o avião de observação avançada de Claude Eatherly, o Straight Flush, acionou um breve alerta antiaéreo por toda Hiroshima enquanto fazia o reconhecimento do tempo. (...) o alerta foi cancelado com uma sirena de ‘tudo limpo’. As defesas da cidade logo voltaram ao estado de prontidão habitual.

(...) Por volta das 7h30, o Straight Flush enviou uma mensagem com código: ‘C-1’, o que se traduzia como ‘tempo claro, alvo primário’. Naquele momento, os três aviões cruzavam do oceano para o território principal do Japão, enquanto subiam até sua altitude de bombardeio de nove quilômetros...

(...) A três minutos da ponte Aioi, o capitão Marquart ordenou que a tripulação pusesse os óculos...

(...) De acordo com o plano, o avião de Marquart inclinou-se para um lado e ficou duas milhas atrás do Enola Gay e do Great Artiste. Na cauda, o professor Bernard Waldman se preparava para apertar o disparador de sua câmera de alta velocidade, projetada para captar os primeiros quinze segundos da detonação em velocidade ultralenta...

(...) A bomba deveria cair livre até uma altitude de pouco menos de 579 metros antes de detonar...

(...) Ninguém havia tentado voar para longe de uma explosão nuclear antes, mas o risco, sem precedentes, era o preço a escancarar as portas de uma fronteira nuclear; os aviões e suas tripulações eram prescindíveis...

(...) Sob as regras antigas, a formação teria se deslocado 5,5 milhas quando a bomba detonasse lá embaixo...

(...) A bordo do Necessary Evil, a primeira pista que o navegador Russel Gackensback teve de que seu mundo ia mudar para sempre veio depois de o Enola Gay emitir por rádio um sinal estridente aos seus companheiros. Trinta segundos depois, precisamente às 8h15min15seg, o sinal cessou e quatro objetos caíram simultaneamente – um do Enola Gay e três do Great Artiste.

(...) A bomba explodia quase doze milhas atrás de Sweeney e Alvarez, no Great Artiste; mas para Sweeney, sem os óculos, parecia que milhares de sóis iluminavam de branco o céu acima deles.

(...) Waldman havia apontado a filmadora de alta velocidade do Necessary Evil na direção do que ficaria conhecido pelas gerações futuras como a Cúpula da Paz de Hiroshima.

(...) No assento do navegador, Russel Gackensbach apontou sua Agfa 620 pela janela e bateu duas fotos da coluna de fumaça ascendente quase um minutos após a detonação quando o Necessary Evil estava a quase doze milhas do Ground Zero. Seu filme também registrou milhares de pontos brancos trêmulos, resultado aparente de partículas exóticas deslocando-se a uma fração considerável da velocidade da luz, como se fossem raios cósmicos – mas, desta vez, elas emanavam do chão e não do céu.

( ...) Marquart e os outros membros da tripulação começaram a sentir um gosto parecido ao de chumbo na boca. No Comando do Enola Gay, Paul Tibbets também havia notado um gosto estranho. Enquanto o clarão avançava, ele ouviu e sentiu um estalido na mandíbula, e ao mesmo tempo veio o gosto desagradável, ‘como o de um vazamento de chumbo’. Pedaços quânticos da bomba tinham entrado em suas obturações e atravessado a carne.

(...) ‘Olhando para baixo, a milhares de pés sobre Hiroshima, tudo o que poderia pensar era: meu Deus, o que fizemos? Palavras contadas pelo copiloto de Tibbets anos mais tarde.

(...) Na cabine do Great Artiste, Charles Sweeney tinha uma vista menos privilegiada. Depois de sair da onda de choque e voar em círculo para voltas, Hiroshima estava a oeste, a estibordo. Ele olhou para baixo e viu uma mancha marrom e suja na terra, fervendo sobre a cidade. Dela havia emergido uma coluna de fumaça vertical que continha todas as cores imagináveis, além de cores que ele nunca havia imaginado. Ele circulou mais uma vez, para que os cientistas pudessem filmar a nuvem, mas grande parte do equipamento de filmagem e do filme dentro dele havia sido danificada. Estavam a quase meia hora e duzentas milhas de distância de Hiroshima quando os artilheiros da cauda perderam o cogumelo atômico de vista.

A pergunta que não cala nunca, havia outra ou outras opções aos americanos para acabar com a guerra?

A tomada das ilhas no pacífico: Marianas, Iwo Jima, Okinawa, etc. foram custosas ao extremo em termos de vidas humanas para ambos os lados.

Os japoneses lutavam até o último recurso, e quando nada restava cometiam suicídio.

A opção dos aliados (Estados Unidos e Inglaterra – Operação Downfall) invadirem por terra, mar e ar o Japão apresentava algarismos terríveis em termos previsões de mortes de soldados e civis: entre os aliados, até um milhão; entre os japoneses, vários milhões.

Bombas incendiárias sobre Tóquio, com suas casas de madeira e temperaturas dos incêndios passando dos 400 graus centígrados, seriam equivalentes, se não pior, que as bombas atômicas.

Além do morticínio, havia dois outros aspectos a favor do uso das bombas:

1) deixar bem claro ao russos e ao mundo que ‘nós temos armas atômicas’;

2) não permitir que os soviéticos tomassem o Japão, que era uma possibilidade iminente (início da guerra fria e da geopolítica). 


That’s All, Folks!


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