Sexta, 7 de maio de 2026

 


NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo






JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26.





A CULPA É DO CABRAL?

Oh! Pedro Álvares Cabral,

Que descobrias o pão 

À fome de Portugal!

  Inserto do poema ‘Os Emigrantes’ do poeta português Jaime Cortesão.




Neste recente dia 22 de abril, completam-se exatos (exatos?) 526 anos da descoberta do Brasil pelo português Pedro Álvares Gouveia, depois Cabral. Interessante que a data que marca o início da existência da nossa hoje nação brasileira, sua descoberta oficial, não é feriado nacional, nem nunca o foi. Eu, que não sou daqueles adeptos dos modismos tipo, ‘... o Brasil não foi descoberto, e sim tomado pelos portugueses dos povos originais (os indígenas) que por aqui viviam há mais de 15 mil anos, que já era uma enorme nação com mais de seis milhões de almas absolutamente livres e em desenvolvimento, que...’, acho que deveríamos, sim, marcar esta data como um dia de festa nacional, feriado! Se problemas há por aqui, a culpa não é do Cabral, e sim nossa, exclusiva, e festejar é preciso!

(Como parâmetro, os Estados Unidos da América festejam o 12 de outubro – 1494 – como uma data especialíssima, o Columbus Day, data da sua descoberta por Cristóvão Colombo, um aventureiro navegador italiano a serviço dos reis espanhóis.)

Eu tenho comigo desde o seu lançamento, em 1999, o livro ‘Nau Capitânia – Pedro Álvares Cabral, como e com quem começamos’, da editora Record, pesquisado e escrito pelo nosso (gaúcho) Walter Galvani, sem um átomo de dúvida, um dos mais belos livros biográficos que já li, um texto absolutamente maravilhoso de um historiador que, circunstâncias da vida, nunca como intelectual, escritor/historiador ultrapassou as fronteira do Mampituba. Neste momento, li-o pela terceira vez, e mais vezes o farei.

A minha proposta neste presente ensaio é debater um tema que não me deixa satisfeito, a versão de que o Brasil não foi descoberto e sim que Cabral veio em 1500 oficializar a tomada das terras já ‘conhecidas’ para a corte portuguesa.

No livro do Galvani, ele não cita claramente sua visão, mas deixa entender que Cabral veio tomar as terras adrede descobertas. Respeito a opinião do escritor, mas discordo!  

Sobre este assunto, já externei minha opinião com argumentos que penso sólidos, várias vezes. Repetirei alguns abaixo e, mais abaixo ainda, colocarei os argumentos do monsenhor André Sampaio, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, especializado em História brasileira e portuguesa, muito ponderados, que achei na web.

Não há nada, absolutamente nada nos arquivos da Torre do Tombo, existente desde o século IX em Portugal, que prove que Portugal já sabia da existência de terras ao oeste da costa africana, ou seja o nosso Brasil. O que se diz é que havia ‘indícios’, mas indícios, pra mim,são iguais às profecias de Nostradamus: depois do fato ocorrido, pega-se as previsões enigmáticas e constrói-se o que se quer! Fala-se dos escritos do navegador Duarte Pacheco, divulgados por volta de 1505, que ‘sugerem’ que teria explorado a costa brasileira em 1498 a mando do rei D, Manuel I, que isso, que aquilo outro...

Eu resumo os meus argumentos dizendo o seguinte: só um rei doidivanas mandaria a maior frota que Portugal já havia constituído (13 navios, mais de 1500 homens entre marinheiros, oficiais, religiosos, para tomar Calicute, na costa da Índia, e ali montar uma feitoria para comercialização das especiarias, numa viagem arriscada e complexa) desviar do seu rumo para ‘tomar o Brasil’. Isso é loucura, o risco era muito grande (dos 13 navios, só 5 retornaram com o Cabral: um voltou a Portugal para comunicar ao rei da alvíssara, e o resto o mar ‘comeu’).

Para mim, é o mesmo que a Nasa preparar um frota de naves para descer em Marte, mas antes alunissar para estabelecer uma base na Lua, não faz senso, é loucura total!

 

Abaixo o ótimo texto pesquisa do Monsenhor André:

“  Antes de 22 de abril de 1500, o Brasil era um vasto território desconhecido pelos europeus. Os autores que defendem que outros europeus chegaram antes de Cabral, desconsideram, por exemplo, os grandes erros na determinação das longitudes, pelos espanhóis, deturpando os mapas.

Todas as versões sobre possíveis descobrimentos por europeus, antes de Cabral, já foram exaustivamente estudadas e descartadas há quase cem anos.

Essa bibliografia é conhecida no meio acadêmico, como os trabalhos de Duarte Leite, Clemente Brandenburger, Teixeira Mota e outros.

Desde então, não surgiu qualquer fato novo relevante sobre o assunto, apenas recorrentes mal entendidos.

Os autores que defendem, por exemplo, que os navegadores Vicente Pinzón, Diego de Lepe ou Duarte Pacheco chegaram antes de Cabral, citam, em geral, fontes secundárias.

Algumas citações mais parecem similares com aqueles que defendem que ETs já colonizaram a Terra.

Raramente citam os renomados autores portugueses, que se debruçaram profundamente em fontes primárias para refutar tais hipóteses.

Grande parte desse trabalho foi publicada na monumental História da Colonização Portuguesa do Brasil (três volumes, 1921 e 1924).

O historiador alemão Clemente Brandenburger, por exemplo, demonstrou impaciência com autores que defendiam o descobrimento por Pinzón, em seu artigo publicado na revista do IHGB (vol. 175, 1941), mas suas conclusões, em contrário, não são citadas, nem mesmo para explicar porque não concordam com elas.

Colombo havia chegado ao Novo Mundo, há mais de sete anos, e é possível que os tupiniquins da Bahia já tivessem ouvido falar dos europeus, suas armas e embarcações, pois existia algum comércio entre os índios.

Existiam também os peabirus, milhares de quilômetros de caminhos que interligavam várias partes da América do Sul, indicando a existência de comunicação entre os povos nativos.

Tudo indica que as referências às ilhas no Oceano Atlântico, chamadas de Brasil, antes do século 15, eram os Açores.

O nome, nesse caso, teria provavelmente relação com a brasa vulcânica das ilhas.

No início do século 16, uma das ilhas dos Açores foi mesmo registrada com o nome Brasil.

A ideia de que Cabral sabia ou suspeitava da existência do Brasil é uma bobagem.

Os europeus acreditavam que existiam ilhas por essa área, mas pensavam que eram aquelas da costa da Ásia, indicadas em mapas da época. Por exemplo, o Planisfério de Jerônimo Marini, de 1511, confunde o Brasil com a Austrália.

A expedição de Cabral, com 13 embarcações, era claramente comercial e buscava o lucro para seus financiadores. As expedições exploradoras não contavam com mais de três embarcações.

Cabral chegou ao Brasil por acaso, devido a uma manobra planejada (intencionalmente distante da costa da África), pelo mau tempo e pela corrente do Golfo da Guiné. Qualquer coisa deixada flutuar no Golfo da Guiné tem altas chances de dar na costa do Nordeste. Os ventos do Atlântico Sul também ajudam.

A expedição de Pedro Álvares Cabral deixou o Tejo, em 9 de março de 1500, com 10 naus e três caravelas.

Em 21 de abril, avistaram sinais de terra.

Em 22 de abril, a frota de Pedro Álvares Gouveia (Cabral) avistou um monte. Cabral batizou-o de Monte Pascoal e a terra de Terra de Vera Cruz. Conheça os Nomes do Brasil

A expedição de Cabral, com dez naus, três caravelas e cerca de 1.500 homens, chegou ao litoral da Bahia, No dia seguinte, a expedição aportou no litoral do sul da Bahia, em algum ponto dos atuais municípios de Porto Seguro e Santa Cruz de Cabrália.

Em 26 de abril, o frei Henrique Soares de Coimbra celebrou a Primeira Missa no território descoberto, que foi chamado de ‘Terra de Vera Cruz’.

Um relato sobre a terra encontrada é enviado ao Rei de Portugal, a Carta de Pero Vaz de Caminha. Essa Carta, que não era um documento público, é uma prova da acidentalidade do Descobrimento do Brasil. Caminha deixa claro o desconhecimento dessas terras, sem qualquer indício de camuflagem de intenções. Só em 1501, D. Manuel comunicou oficialmente o Descobrimento aos reis da Espanha.

Ao seguir para a Índia, Cabral deixou dois degredados em Porto Seguro, os primeiros moradores europeus no Brasil e que receberam a missão de aprender a língua dos índios.

Esses dois degredados eram parte dos 20 homens condenados à morte pela justiça portuguesa, que viajavam na expedição de Cabral para serem deixados em degredo. Dom Manuel, em carta de 1505, informou que um dos degredados deixados no Brasil retornou posteriormente a Portugal, sabendo a língua dos indígenas, e que ‘nos informou de tudo’".


Que tal, pessoal, ainda há dúvidas?

 

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