Sexta, 17 de julho de 2026

 

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Alfredo Octávio: o maior jornalista do Brasil

Livro Alfredo Octávio

NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo





JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025







- A Revolução Francesa  

e o "icônico" 14  de julho - 


Foi o melhor dos tempos e o pior dos tempos

A frase acima, antinomia pura, do escritor inglês Charles Dickens, a meu ver, sintetiza bem as brutais contradições da Revolução Francesa (que nesta última terça, 14 de julho, completou exatos 237 anos), de um idealismo do estado com justiça social, dos discursos acalorados sobre a dignidade humana, para a vil prática da opressão, da injustiça, dos assassinatos, das vendetas, da Vendeia, do sangue das frias guilhotinas decepando cabeças de inimigos a correr por entre as pedras das ruas de Paris.

"Buscando liberdade política e igualdade entre todos os homens, esses ideólogos da França revolucionária acabaram por erigir a mais perfeita escola para as nossas modernas ditaduras."



(Interessante o quanto "essa data" – 14 de julho – importa em nosso estado. São ruas, avenidas, praças, clubes sociais, clubes de futebol, como o 14 de Julho de Livramento, fundado lá atrás em 1902, o extinto 14 de julho de Passo Fundo, enfim, um oceano de 14 de julho.

Só tardiamente foi que descobri que não era uma homenagem à icônica data francesa, a data que simboliza a queda da Bastilha, a "bastilha do absolutismo francês. Era sim algo bem provinciano, nosso, daqui mesmo: a data em que o Júlio de Castilhos promulgou a sua "democrática" Constituição Republicana de 1891, feita todinha por sua mente e mão destra. Talvez, a escolha dessa data, especificamente, não tenha sido randômica, e, sim, intencional por parte do Júlio de Castilhos, vá se saber!
O fato é que os prosélitos republicanos usaram a data para homenagear à República e ao líder maior desse evento aqui em nosso Estado, o Dr. Júlio de Castilhos.
Eu respeito – sempre – a história e seus construtores, mas o pai do republicanismo em nosso estado foi um ditador cruel, responsável por mais de 10 mil mortos na Revolução Federalista de 1893. Isso é FATO!, ergo, apropriação indébita!)


O dia era 13 de julho de 1789...

O comandante da prisão-fortaleza da Bastilha, Bernard de Launay, do alto dos 25 metros de seus muros, via fumaça em pontos diversos da cidade e a agitada e frenética movimentação da multidão faminta e revoltada.
Já fazia algum tempo, desde 05 de maio, que a Assembleia dos Estados Gerais reunia-se para resolver a grave crise financeira do país, mas que logo se libertou das amarras reais e passou a trabalhar na formulação de uma Constituição.=
No dia seguinte, 14 de julho, Launay, indeciso, nervoso, toma algumas decisões não muito hábeis. Com poucos soldados à disposição, autoriza disparos de mosquetes contra a multidão que havia invadido o pátio interno da fortificação. Muitas mortes enfurecem ainda mais a turba. Então, Launay toma outra decisão que o faz perder a cabeça, literalmente: rende a fortaleza com a promessa de salvo-conduto. Sua cabeça, decepada, passeia pelas ruas de Paris na ponta de uma lança, acompanhada pela turba em delírio.=
Interessante que este episódio, símbolo e marco da Revolução Francesa, em si, deu em nada, pois não havia ali mais prisioneiros. Até mesmo o ‘sádico’ Marquês de Sade, o ilustre libertino prisioneiro, havia sido transferido para outro local dez dias antes!
Neste 14 de julho, à noite, no Palácio de Versalhes, uns 25 quilômetros de Paris, Luís XVI retira-se cedinho para seu leito real. É acordado por um nervoso auxiliar, o duque de Liancourt, que lhe comunica, "majestade, hoje houve sérios distúrbios em Paris". "É uma revolta?", questiona entre bocejos um sonolento e surpreso rei. "Não, majestade, trata-se de uma REVOLUÇÃO!"


Luís XVI,


O rei francês da dinastia Bourbon, nascido em 1754, assume o reino em 10 de maio de 1774, com – apenas – 20 anos.
15 anos após, a roda da revolução que impactará para sempre a França, a Europa e o Mundo e que lhe cortará o pescoço, inicia seu giro inexorável. =
Seu reino está absolutamente endividado e em crise permanente, muito em função das péssimas administrações de seus antepassados dinásticos, desde seu bisavô Luís XIV, o Rei-Sol, símbolo maior do absolutismo europeu, cujo maior prazer era promover dispendiosas guerras.-
Além dessas gestões perdulárias, ainda houve dois outros graves geradores de gastos para um cofre já vazio: 1) a guerra contra a Inglaterra na Colônia Americana, de 1754 a 1763; 2) e a Revolução Americana, de 1776 a 1783, na qual a França apoiou as 13 Colônias com dinheiro, soldados e armamentos.
Mas, a bem da verdade, Luís XVI conseguia ser ainda mais inábil que seus antecessores na administração da nação mais populosa da Europa à sua época – 25 milhões de súditos. As dificuldades econômicas da França e as graves injustiças sociais avolumavam-se mais e mais.
A corda extremamente tensionada estoura por volta de 1787.
Então, seus ministros das Finanças tentam achar solução para resolver a grave crise. Uma delas era obter algum dinheiro taxando as propriedades dos nobres. Em oposição, o Parlamento (composto de nobres escolhidos pelo rei, e de função meramente em conformidade ao poder real) disse que somente os Estados Gerais podiam votar/autorizar tais tributos.=
Os Estados Gerais era algo medieval que havia se reunido pela última vez, 175 anos atrás, em 1614. Em realidade, ninguém mesmo sabia como a coisa iria funcionar.=
Sabia-se que era formado pelos três estados: o clero, a nobreza e os plebeus.=
O Rei e a nobreza acreditavam que dominariam o resultado da votação. Mas, não funcionou assim. Mesmo lentamente, a roda da revolução inicia o seu firme andar.

Os Estados Gerais foi então convocado pelo próprio rei para iniciar trabalhos em 1789:
- 05 de maio, reúnem-se em assembleia em Versalhes;
- 17 de junho, os delegados do Terceiro Estado rebelam-se e adotam o título de Assembleia Nacional;
- 1º de julho é assinado, pelos rebeldes delegados do Terceiro Estado, o Juramento da Sala do Jogo da Péla;
- 14 de julho, população ataca a prisão-fortaleza da Bastilha;
- 26 de agosto, a Assembleia Nacional aprova a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão;
- 5 de outubro, seis mil mulheres marcham de Paris a Versalhes e trazem "a tiracolo" a família real e a Assembleia Nacional para Paris;

1790:

São formados os clubes Cordeliers, Girondinos e Jacobinos. Os girondinos, à direita da mesa da Assembleia; e os Jacobinos, à esquerda;

1791:

- 20 de junho, família real tenta fugir para a Áustria;
- 17 de julho, massacre do Campo de Marte, em Paris;
- Em setembro, promulgada a Constituição com separação de poderes, direitos civis completos, o voto, mesmo que censitário, dava direito a voto à maioria dos homens adultos;
- Setembro, Prússia e Áustria decidem intervir na França;
- Outubro, eleições trazem agora uma maioria de esquerda;

1792:

- 20 de abril, Luís XVI, pressionado pelos girondinos, declara guerra à Áustria e Prússia; tem início a Guerra da Primeira Coalizão;
- 10 de agosto, a população ataca o Palácio das Tulherias; Luís XVI é aprisionado;
- 20 de setembro, reunião da Convenção Nacional; Exército francês vence os prussianos na Batalha de Valmy;
- 22 de setembro, Convenção Nacional declara a República francesa;

1793:

- 21 de janeiro, Luís XVI é guilhotinado;

- Fevereiro e março, França anexa Mônaco e declara guerra à Inglaterra, Holanda e Espanha;
- Março, revolta na Vendeia;
- 10 de março, Convenção cria o famigerado Tribunal Revolucionário;
- 2 de junho, deputados girondinos são expulsos da Convenção e presos;
- 24 de junho, A Convenção Nacional aprova uma Constituição nacional, Ano I, Sufrágio universal, não censitário, Ser Supremo;
- 13 de julho, Jean-Paul Marat é assassinado;
- 5 de setembro, tentativa de golpe dos hebertistas é malograda;
- 17 de setembro, aprovada a Lei dos Suspeitos; tem início o regime do Terror, sob o comando do Comitê de Salvação Pública;
- 31 de outubro, líderes Girondinos são guilhotinados;

1794:

- 8 de junho, Robespierre dirige o Festival do Ser Supremo;
- 5 de abril, Danton e seus partidários, presos e julgados, são mortos na guilhotina;
- 28 de julho, Robespierre, preso e sentenciado, morre na guilhotina. Acaba a Convenção, acaba o período do Terror;

1795:

Agosto, nova Constituição, ano III, retorno do voto censitário, igualdade só para direitos civis, instalação do Diretório;
 
1796:

Conspiração dos iguais, panfletista Gracchus Babeuf é preso e guilhotinado;

1799:

- 9 de novembro, Golpe do 18 Brumário, fim da revolução e início da era Napoleão Bonaparte. Napoleão executa um golpe de Estado e toma o poder da França, instalando o Consulado, de três cônsules, no qual era o líder inconteste.

Por fim, entre ganhos e perdas, não dá para se negar que a Revolução Francesa foi, é, e continuará sendo ad aeternum um marco na história da civilização humana.

Houve erros, sim, obviamente!

Os Danton, Robespierre, Jean Paul Marat, Conde de Mirabeau, Jacques Brissot, Camille Desmoulins, Louis Saint-Just, são apenas seres humanos, que, por obra do destino, envolveram-se no contexto de um grande evento prenhe de humanidade.
E, como já disse o grande Charles Chaplin, ‘O Mundo não é composto de heróis e vilões, mas de homens e mulheres, com todas as paixões que Deus lhes deu. O ignorante condena, o sábio se compadece’.

Viva a Revolução Francesa!


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