HISTÓRIA GAÚCHA - por ZURBA FAGUNDES
A História do Rio Grande como nunca te contaram.
Duvido que saibas que foi assim que "surgimos"!
NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
Revolução Farroupilha
ou
Guerra Civil dos Farrapos
Amigos, amigas, neste domingo próximo lá se vão 191 anos do gatilho da longa guerra intestina que varreu o Sul do Brasil entre 1835 e 1845, aquela que por pouco não provocou uma quebra da nossa invicta unidade nacional.
Mas, antes, falemos um pouco da nossa situação à época:
No início da guerra, nosso estado ainda era imberbe em termos de autonomia, pois há meros 27 anos tínhamos adquirido o status de Capitania Autônoma com a divisão da antiga ‘Comandância’ em quatro vilas autônomas: Porto Alegre, Rio Grande, Rio Pardo e Santo Antônio da Patrulha.
Conforme nos relata Riograndino Costa e Silva, em seu livro ‘Notas À Margem Da História do Rio Grande do Sul’, em 1835 tínhamos exatos 14 municípios (vilas); os quatro acima citados mais: Alegrete, São Borja, Cruz Alta, Caçapava, Cachoeira, Piratini, Triunfo, Pelotas e Jaguarão e São José do Norte.
Quanto à população, os números não são muito confiáveis, pois, para um número estimado em 180 mil (segundo Moacyr Flores, em ‘Guerra Civil dos Farrapos’) fala-se em 10 mil mortes ao final da guerra, o que não é razoável. O número que eu sempre tive, é de 200 mil habitantes e de 10 mil mortos, se tanto, o que considero razoável.
Os maiores municípios eram Porto Alegre, Pelotas, Rio Pardo e Rio Grande. O estado era essencialmente agrário: havia, por volta de 1835, em torno de 560 estâncias, as chamadas sesmarias, normalmente cedidas em terras devolutas a militares não mais ativos, como prêmio aos serviços prestados ao império, e enormes: em torno de uma légua de largura por três de comprimento. Mas, também havia indústrias, tais como: beneficiamento de couro; destilarias de aguardente; serrarias; fábricas de chapéus, sabão, velas de sebo; teares para produzir ponchos, cobertores, cintas, mantas, etc.
A nossa Porto Alegre, a capital de todos os gaúchos, era um centrinho com o palácio do governo, a igreja matriz no alto da colina, a Santa Casa de Misericórdia, mais alguns prédios e casas comerciais na rua da Praia, o teatro São Pedro iniciando sua construção. No subúrbio, chácaras que abasteciam a população com figo, marmelos, cítricos, uvas, pêssegos, mandioca, e até grãos de café. O trigo, um dos primeiros cultivos dos açorianos, estava já em decadência.
Os colonos alemães recém-chegados na região da colônia de São Leopoldo, 1824, abasteciam a capital, via o Sinos, sete horas em média em uma viagem com seus lerdos barcos.
A nossa Taquari, que ainda esperaria 14 anos para tornar-se uma vila independente, seguia sua faina diária com seus tranquilos 4 mil moradores, metade brancos, metade escravos, aproximadamente.
Uma questão que envolve historiadores é se o que houve foi uma revolução ou uma guerra?
Pra mim, é simples: primeiro houve uma revolução, mas quando os revoltosos formalmente proclamaram a província como um estado republicano, o que se seguiu então foi uma clássica guerra civil.
O que a motivou, qual o gatilho da guerra?
Eram, como diziam os nossos professores de história, os problemas dos impostos do sal e do charque aqui produzido – principalmente na região de Pelotas? Ou a decisão do presidente Fernandes Braga de criar um imposto sobre a propriedade rural, de dez mil réis anual sobre cada légua quadrada de campo?
Penso que não, podem ser até motivos laterais fortes, mas nunca o central. Prova disso é que, quando da instalação da República Rio-Grandense, uma das primeiras medidas econômicas adotadas pelos farroupilhas foi taxar o charque em 400 réis a arroba.
O que havia de novo no Brasil marcado pelo recente 7 de abril de 1831 era uma forte divisão entre restauradores (os caramurus, portugueses saudosistas do Brasil colônia) e os liberais, estes divididos entre moderados (aqui no nosso estado representados pelo Bento Gonçalves, moderado-monarquista, e pelo então tenente Manuel Luís Osório, moderado-republicano) e os liberais farroupilhas, mais exaltados, mais apaixonados, mais jacobinos, aqui chefiados por Marciano Pereira Ribeiro.
(O termo farroupilha nada tem a ver com vestimentas rotas dos soldados rebeldes. Existia, era corrente há tempos. Por volta de 1830, já havia três jornais liberais no Rio de Janeiro que o usavam, como, por exemplo, "A Trombeta Dos Farroupilhas".)
No livro ‘A Guerra Dos Farrapos’, de Fernando L. Osório, de 1894, o autor (filho do general Manuel Luís Osório) lista o manifesto exarado por Bento Gonçalves, em 25 de setembro de 1835, que, ao menos a mim, fica claro que a intenção original não era separatista nem republicana, e sim mitigar a grande insatisfação com ‘as arbitrariedades do governo da província, centradas no presidente Braga e seu irmão juiz Pedro Chaves’, ou seja, questões políticas, ideológicas; como diria Erich Maria Remarque um século depois, ‘nada de novo no front’.
Os objetivos eram: sustentar em sua pureza os princípios políticos que conduziram a Nação ao sempre memorável Sete de Abril, considerado o da regeneração e total independência do Brasil; restaurar o império da lei, afastando do Rio Grande do Sul a administração inepta e facciosa, mas sustentando o trono do jovem monarca e a integridade do Império.
Feita essa necessária introdução vamos à cronologia da guerra. Optamos por listar alguns eventos, os mais importantes, ano a ano, por uma questão de racionalidade, facilitador ao preclaro leitor.
20.09.1835 – Tomada de Porto Alegre e deposição do presidente Antônio Braga, que foi substituído pelo vice-presidente Marciano Pereira Ribeiro; Braga embarca em um navio canhoneiro e foge para a segurança do município de Rio Grande;
23.10.1835 – O governador defenestrado Braga parte para a corte para conversações com a regência; o padre Diogo Antônio Feijó decide nomear José de Araújo Ribeiro, novo presidente da província, primo do Bento, numa tentativa de apaziguar revoltosos;
15.01.1836 – O nomeado Araújo Ribeiro assume a presidência, gerando indignação dos deputados provinciais que lhe negam posse e chamam o primeiro vice-presidente Américo Cabral de Melo para governar;
05.02.1836 – Jogo duplo; a Assembleia envia uma comissão a Araújo Ribeiro para combinar sua posse, ao mesmo tempo em que remete à regência uma representação contra o presidente Ribeiro, que cansado das indecisões e dissimulações, dissolve a Assembleia;
16.02.1836 – Assembleia dá posse ao vice-presidente Antônio Cabral de Melo, e Bento Gonçalves reúne 1.800 homens partindo, ao Sul, à luta;
15.06.1836 – Os imperiais retomam Porto Alegre das mãos dos farroupilhas;
11.09.1836 – O general Antônio de Souza Neto, após a vitória obtida na Batalha do Seival (um arroio onde hoje é o município de Candiota), proclama a República Rio-Grandense, livre e independente, com a capital em Piratini;
04.10.1836 – Derrota dos farroupilhas, liderados por Bento Gonçalves, na batalha da ilha Fanfa, no rio Jacuí, Triunfo. Tropa republicana rende-se, Bento Gonçalves é preso;
05.01.1837 – A Regência exonera José de Araújo Ribeiro do cargo de presidente da província e nomeia para substituí-lo o brigadeiro Antero José de Brito que acumula o cargo de comandante militar da região; esse novo presidente rompe com Bento Manuel Ribeiro, demitindo-o. Pouco após, Bento prende Antero Brito no passo do Itapevi, Alegrete, e ‘vira-casaca’ para o lado farrapo;
10.09.1837 – Preso em forte na Bahia, Bento Gonçalves consegue fugir depois de subornar o comandante, nadando até um saveiro que o esperava;
16.12.1837 – De volta ao Rio Grande, Bento Gonçalves toma posse como presidente da República Rio-Grandense. É o auge do movimento. Praticamente toda a ex-província está em posse dos farrapos;
30.04.1838 – Rio Pardo, a ex-tranqueira invicta, é tomada pelas tropas conjuntas de Antônio de Souza Neto e Bento Manuel Ribeiro. Os imperiais têm 71 homens mortos e 130 prisioneiros; do ponto de vista estratégico, foi uma vitória muito importante, pois Rio Pardo era uma fronteira do domínio imperial, um apoio para a conquista do interior, e tinha o dobro da população de Porto Alegre;
15.05.1838 – Bento Gonçalves, segundo a maioria dos historiadores, comete novamente o erro de sitiar Porto Alegre, agora pela 3ª vez, sem ter artilharia e barcos artilhados, deixando, por exemplo, o porto do Rio Grande franqueado aos imperiais que por ali recebem mais e mais reforços para equilibrar o jogo da guerra;
01.09.1838 – Nesta data, o italiano Giuseppe Garibaldi, que havia conhecido Bento Gonçalves na prisão no Rio de Janeiro, e dele recebido ‘carta de corso’, é nomeado capitão-tenente comandante da marinha farroupilha;
09.01.1839 – Por decisão do presidente Bento Gonçalves, a capital é mudada de Piratini para Caçapava, ponto mais central nas operações militares;
14.04.1839 – Francisco Pedro de Abreu, o famoso ‘Moringue’, ataca com 150 combatentes o estaleiro republicano na estância do Brejo, de Ana Gonçalves, irmã de Bento, em Camaquã, cercando Garibaldi e mais 15 defensores. Moringue, ferido, retirou-se com seu exército sem destruir os lanchões que estavam sendo construídos;
06.06.1839 – Feito épico! Nessa data, os lanchões Seival e Rio Pardo iniciaram viagem desde o rio Capivari, por carroções puxados a bois e protegidos pela cavalaria de David Canabarro, até o rio Tramandaí, onde foram lançados às águas atlânticas. John Griggs levou o Seival, e Garibaldi, o Rio Pardo. Em Araranguá, Santa Catarina, o Rio Pardo naufragou, matando metade de sua tripulação. Garibaldi e seus marinheiros salvos foram resgatados pelo Seival e seguiram todos em direção à Laguna;
24.07.1839 – Fundada a efêmera República Juliana, com capital em Laguna, por iniciativa de Canabarro e Garibaldi, extinta em 15 de novembro após violento ataque de tropas do Império. É nessa Laguna que Garibaldi encontra a jovem Ana Maria de Jesus Ribeiro, depois, Anita Garibaldi, com quem se casaria e se tornaria sua parceira nas lutas aqui na América, e depois na Itália onde ela morre ainda muito jovem;
21.03.1840 – O brigadeiro Bonifácio Isás Calderón, seguiu pela campanha e invadiu e tomou a capital Caçapava, que havia sido abandonada pouco antes pelos republicanos;
03.05.1840 – Combate de Taquari, mortífero em que ambos os exércitos consideraram-se vencedores. De um lado, o general Bento Gonçalves, do outro, o marechal Manuel Jorge Rodrigues. O marechal Manuel Jorge parece ter tido uma oportunidade e ter fracassado, pois o presidente Saturnino pediu à Regência sua substituição, pois ‘nada resolvia e marchava ao acaso’ (palavras do presidente);
16.07.1840 – Bento Gonçalves, tardiamente valida a importância do controle da barra, em São José do Norte. Aproveitando um temporal violento, ele e Garibaldi tomam a cidade, saqueando-a para depois abandoná-la devido à reação dos Imperiais. Bento foi aconselhado a incendiar a vila, mas, respeitando os moradores inocentes, não o fez;
03.01.1841 – Bento Manoel Ribeiro, o ‘vira-casaca’, abandona os republicanos mais uma vez. Onze dias após, José Mariano de Matos passa a presidência da República a Bento Gonçalves;
17.05.1842 – Estoura a Revolução Liberal em São Paulo, aliviando um pouco a pressão sobre os farrapos;
09.11.1842 – Luís Alves de Lima e Silva, o futuro Duque de Caxias, assume a presidência e o comando das armas e impõe um novo peso aos imperiais. A soma do Exército Imperial mais a Guarda Nacional chegou a estupendos 22 mil soldados, enquanto o exército farroupilha mal chegava a mil combatentes. Naturalmente, Bento Manuel Ribeiro volta ao seio dos legalistas, a convite de Caxias;
01.12.1842 – A República Rio-Grandense abre sua Assembleia Legislativa e constituinte. Deputados da Assembleia, em Alegrete, entram em rota de colisão com o idiossincrático Bento Gonçalves, já considerado por seus inimigos dentro da República como um ditador. De uma maneira ou de outra, mesmo com brigas e ódios internos, esses mil soldados republicanos, lutando mais de 30 combates, mantiveram a chama acesa do republicanismo até a consolidação da paz em fevereiro de 1845;
26.05.1843 – Última vitória dos farrapos; as forças conjuntas de Bento Gonçalves e de Antônio Netto, aproveitando-se de um descuido dos imperiais, atacam em Poncho Verde (hoje, Dom Pedrito) forças imperiais sob o comando de Bento Manuel Ribeiro, destroçando-as – para uns historiadores. Para outros, o resultado ficou indefinido;
27.02.1844 – Esta data marca o clímax das inimizades entre os Republicanos, quando Bento Gonçalves e seu primo Onofre Pires resolvem suas desavenças num duelo no qual Onofre é morto. Onofre havia difamado a honra do Bento entre os oficiais, chamando-o, inclusive, de ladrão. Bento, sabedor por terceiros, pediu confirmação por carta. Onofre confirmou tudo, restou o mortal duelo;
12.10.1844 – Caxias instrui o seu ajudante tenente-coronel Manuel Luís Osório a iniciar contatos diretos com os republicanos no sentido da pacificação, excluindo das tratativas o caudilho oriental Fructuoso Rivera. Nessa data, Osório, em contato direto, expõe ao major Antônio Vicente da Fontoura, então ministro da República Rio-Grandense, os pensamentos e propostas do chefe Caxias, pedindo-o, igualmente, que esquecesse as tergiversações de Rivera;
14.11.1844 – Terrível derrota de Porongos, questão dos Lanceiros Negros. O desastre do exército republicano em Porongos deveu-se, segundo Caxias em Ordem do Dia nº 170, ‘(...) a um descuido de Canabarro que não supunha o inimigo tão perto’, ou, como afirmam muitos historiadores críticos da história oficial ‘(...) a um arranjo entre Caxias e Canabarro para resolver a questão dos Lanceiros Negros’. O fato é que, dos alegados 1.000 homens do exército de Canabarro (segundo Caxias, mas esse número é seguramente exagerado), estranhamente morrem 100 lanceiros negros e são aprisionados 333 homens, todos brancos! Esse evento é uma nódoa na história dessa guerra que ainda não foi suficientemente explicada;
29.12.1844 – Aqui termina (em termos práticos) a cruenta guerra, com o tenente-coronel Demétrio Ribeiro, outro vira-casaca, atacando um arremedo de exército republicano na divisa com o território Oriental, matando, aprisionando e dispersando seus estiolados membros. Os trabalhos de pacificação iam adiantados. Caxias e os chefes republicanos haviam acordado o envio do major Antônio Vicente da Fontoura como ministro plenipotenciário junto à Corte Imperial, com o objetivo de ajustar os detalhes da paz. A nota que Fontoura levava, assinada por José Gomes Jardim, David Canabarro e João Antônio da Silva, o Netto, foi assinada em 13 de novembro, no acampamento de Porongos, justo um dia antes do terrível ataque do Pedro Moringue. Esse episódio é citado por Fontoura em suas reminiscências – aos detalhes. Estranho, não?
25.02.1845 – Fontoura, o plenipotenciário da Paz, tendo chegado há poucos dias da corte, no Rio de Janeiro, reúne-se com governo e exército, em Ponche Verde, e apresenta aos seus pares as propostas/concessões adrede negociadas.
São doze itens que claramente transformam uma derrota militar numa vitória política, sendo as duas mais importantes:
a) a indicação pelos ex-republicanos do presidente da Província;
b) o pagamento de toda a dívida pública da ex-república por responsabilidade do império. Os itens principais foram cumpridos, mas nem todos.
O item 4º - ‘São livres e como tais reconhecidos, todos os cativos que serviram à revolução’ não foi cumprido: em 26 de agosto, segundo o Jornal do Comércio chegam ao Rio de Janeiro 77 ‘libertos’ que foram levados como escravos para as fazendas imperiais;
28.02.1845 – Aceitas as propostas nos diversos sítios republicanos, a PAZ é celebrada!
Ao ato solene, em Ponche Verde, assistiram quase todos os líderes republicanos, menos Bento Gonçalves e o presidente José Gomes de Vasconcelos Jardim, por doentes.
Falam no ato o ministro Manoel Lucas de Oliveira, representando o presidente, e David Canabarro, chefe do Exército Republicano.

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