Sexta, 17 de abril de 2026

 

NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo






JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26.





CASA-GRANDE E SENZALA

Gilberto Freyre




Se depender de mim, nunca ficarei plenamente maduro nem nas ideias nem no estilo, mas sempre verde, incompleto, experimental.

Frase de Gilberto Freyre que de certa forma marca sua identidade como um homem que busca ad aeternum sua completude.




Sempre tive desejo de ler esse livro por saber de seu valor intrínseco e também por curiosidade intelectual.

Igual ao Ulysses, de James Joyce, é uma obra muito falada, mas pouco lida.

A razão, ao menos a meu ver, é muito simples, ambas são muito áridas, extensas, e nós, brasileiros do século XXI, ainda temos muito de Macunaíma, ai que preguiça!


Há coisa de uns dez anos, encontrei um original da primeira edição, 1933, muito usado e em condições não muito boas, em um sebo em São Leopoldo. Assustou-me o preço, em torno de 300 reais. Deveria tê-lo comprado, pois livros raros passaram a ser ativos de muito valor.

Há pouco, consegui comprar uma reedição de 1992 do MEC/FNDE, usado, simples, em boas condições, barato, mas sem o charme da edição original.


 Gilberto Freyre, nascido em Recife no distante 1900 (e lá falecido em 1987) de uma família de classe média alta que pode lhe fornecer uma educação de primeiro mundo, inclusive em universidades norte-americanas e europeias, é um arquétipo descendente das tradicionais famílias patriarcais pernambucanas, e, num sentido lato, nordestinas.

Pra mim, Gilberto Freyre foi aquele que melhor interpretou o Brasil e os brasileiros na sua história, sociologia, psicologia, antropologia.

Ele foi tudo, ou quase: jornalista, sociólogo, antropólogo, político, ensaísta, historiador, poeta, escritor, pintor, polemista, um buscador eterno do saber.

Dele, disse o escritor Monteiro Lobato:


O Brasil do futuro não vai ser o que os velhos historiadores disserem e os de hoje repetem. Vai ser o que Gilberto Freyre disser. Freyre é um dos gênios de paleta mais rica e iluminante que estas terras antárticas ainda produziram.


Nesse tema, quem talvez mais dele se aproximou em termos de pesquisa e produção literária foi Sérgio Buarque de Holanda, 1902 –1982 (pai do cantor, compositor e escritor Chico Buarque), com sua magnífica obra, Raízes do Brasil.

Mas, reafirmo: foi indubitavelmente em seu tempo o intelectual brasileiro de maior expressão tanto aqui em terras brasilis quanto na Europa e Estados Unidos.


Bem, feita a introdução, falemos então da obra em si.


Casa-Grande e Senzala é um livro em forma de ensaio, lançado em dezembro de 1933, e que teve várias reedições.

Este meu é a 34ª edição, 1992. Além de português, houve impressões em várias outras línguas, quase sempre com acréscimos explicativos derivados do intenso debate que sua publicação provocou,tanto por aqui quanto na Europa, Estados Unidos e alhures.

O subtítulo da edição primeira já diz muito sobre a obra, ‘Formação da família Brasileira Sob o Regime Patriarcal’.

Com quase 500 páginas, é estruturado em cinco grandes capítulos (além de inúmeras outras páginas com bibliografia, iconografia, registros onomásticos) sendo:


1) Características gerais da colonização portuguesa no Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida;

2) O indígena na formação da família brasileira;

3) O colonizador português: antecedentes e predisposições;

4) O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro;

5) O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro, continuação.

Vou dar umas pinceladas sobre alguns aspectos do livro que me despertaram maiores curiosidades.

No início, Freyre dá uma resumida na questão da formação da identidade brasileira, destacando vieses antagônicos entre:

a)    a cultura europeia e a indígena;

b)    a europeia e a africana;

c)    a africana e a indígena;

d)    a economia agrária e a pastoril;

e)    a agrária e a mineira;

f)     o católico e o herege;

g)    o jesuíta e o fazendeiro;

h)   o bandeirante e o senhor de engenho;

i)     o grande proprietário e o pária;

j)      o paulista e o emboaba;

k)    o pernambucano e o mascate.

Mas (e esse ‘mas’ é do Freyre), predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral, o mais profundo, o SENHOR e o ESCRAVO.

A Casa-Grande era o símbolo maior da sociedade patriarcal brasileira, era o domínio total e absoluto do SENHOR, senhor da família, senhor dos agregados, senhor da política, senhor da moral, senhor da justiça, senhor dos corpos das indígenas e das africanas, um Czar dos trópicos.

E, a partir de 1831, com a implantação da Guarda Nacional, ainda mais poder, pois, Senhor Coronel!

Há críticos, muitos, que curtem destacar os ‘desvios’ do ensaísta relacionados a aspectos sexuais e raciais.

Alguns criticam o uso de uma linguagem imprópria, talvez até mesmo ‘chula’ para um ensaio tão apurado (exemplo, o uso do substantivo coito: coito homem-mulher, homem-homem, homem-animal).

Há citações que hoje seriam proibitivas. Dois exemplos da lavra do historiador Oliveira Viana:

(...) em Minas Gerais observam-se hoje nos negros delicadeza de traços e relativa beleza, ao contrário das cataduras simiescas abundantes na região ocidental da baixada fluminense (...) em meados do século XIX, Burton encontrou em Minas Gerais uma cidade de cinco mil habitantes com duas famílias apenas com puro sangue europeu. No litoral, observou o inglês, fora possível aos colonos casar suas filhas com europeus. Mas nas capitanias do interior o mulatismo tornara-se um mal necessário...

Mesmo sendo produto de um meio à sua época, início do século XX, bastante racista, ele, a mim ao menos, abandona a falácia do racismo científico e trata a miscigenação índio-negro-europeu em uma perspectiva nova.

A questão sexual na formação da nossa identidade, ele não tergiversa nem passa paninho quente. O homossexualismo entre os indígenas e africanos, ele afirma, era muito forte, destacando que os pajés nas tribos eram elementos claramente afeminados. Pode ser, mas também pode ser um ‘escapismo’ do Freyre’.  Eu li uma entrevista dele nas páginas amarelas da revista Veja, já quase ao final da sua vida, na qual declara, sem pudor, ter tido experiências homossexuais na juventude.

A ainda ativa historiadora Maria Lúcia Pallares Burke (bem firme em seus 80 anos), em sua biografia Gilberto Freyre: um vitoriano dos trópicos, declara que:

(...) as condições de vida dos jovens de Oxford eram favoráveis ao desenvolvimento de relacionamentos profundos e às vezes homoeróticos. Era como se na vida oxfordiana houvesse um forte impulso para intensas amizades de rapazes com algum componente homossexual, possivelmente transitório, próprio das antigas amizades gregas...

Finalizando, Fernando Henrique Cardoso, que antes de político foi um grande sociólogo, foi econômico quando disse que ‘todos nós brasileiros temos um pezinho na África’. Não, caro presidente, temos um pé na África e outro nas tabas dos nossos indígenas.

Outra crítica que andei lendo, mas que não considero justa, é que o ensaio do eminente sociólogo só vai até São Paulo, deixando o nosso Sul praticamente à margem.

Do Sul, ele só cita as nossas (que nem mesmo nossas eram, posto que espanholas) reduções jesuíticas.

O problema é que o Sul só passa a existir em termos de Brasil lá por volta de 1737, com a fundação do forte e povoado do Rio Grande.


That's All, Folks! 


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