NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
TEMPO
O tempo talvez seja uma vela ondulante
Que carrega em seu seio
Os sonhos
(Ou pesadelos, quem sabe?)
De toda a humanidade.
Mas também temo que seja o trem
Que me conduz
Num espaço tempo tão curvado
Que acabará por me deixar
Na pretérita estação
Onde meu avô, e suas malas, repousam.
E então eu o abraço,
E então deixo de existir!
Inserto do poema O Tempo, de minha autoria,
que segue integralmente no final deste ensaio científico.
Há mil e seiscentos anos um homem chamado Santo Agostinho emitiu um pensamento em relação ao tempo que continua sendo a definição mais honesta que a humanidade já produziu, embora, à época, possa ter sido entendida – hoje também – como um jogo de palavras, um escapismo, uma brincadeira daquele futuro Santo:
– ‘Se ninguém me pergunta, eu sei. Se preciso explicar, não sei mais.’
Mil e seiscentos anos depois, com Einstein, com relógios atômicos, com satélites medindo o tempo em precisão de bilionésimos de segundo, com os modernos e caríssimos aceleradores de partículas, a ciência descobriu uma coisa importante sobre o tempo, o sábio Santo Agostinho estava certo.
Mesmo, passados 1600 anos, mesmo depois das ações e buscas dos filósofos gregos, dos pensadores da idade média, mesmo alcançando a genialidade de um Isaac Newton 300 anos atrás, de um Albert Einstein 100 anos atrás, e alcançando os gênios da mecânica quântica do século passado, mesmo sendo uma das coisas, das vivências que nós seres humanos experimentamos no dia a dia durante toda a vida, o tempo continua sendo uma das poucas coisas do universo que não conseguimos definir.
Sabe-se o ‘como’, mas o ‘por que’, não!
Sabemos como medir o tempo. Sabemos como ele se distorce. Sabemos por que ele tem uma direção, estatisticamente. Mas não sabemos o que ele é. Ainda não. Algum dia saberemos? Creio que a dúvida de Santo Agostinho permanecerá eternamente. Acho que o tempo, assim como a gravidade, a energia, partículas como o elétron, etc., são como as Matrioskas, tradicionais bonecas russas feitas de madeira e de tamanhos decrescentes: a maior é oca e abriga as menores. A gente retira uma e dentro desta tem outra e assim por diante...
O tempo é a coisa mais íntima do universo. É, talvez, o único fenômeno físico que cada um de nós, seres humanos, experimenta a cada fração de tempo de nossas vidas. Neste justo momento em que o caro amigo/amiga lê este meu pequeno ensaio, mesmo que pare, reflita, pense, use artifícios filosóficos para entender com clareza o que é EXATAMENTE essa coisa (tempo) que está passando, a resposta teima em não vir, só devaneios, tentativas vãs, ou talvez, se você for um místico, use a religião, Deus, como válvula de escape.
Para os místicos indus, por exemplo, a ideia do tempo linear não existe. Ou existe, mas de outra maneira muito diferente: o tempo é cíclico, e se repete incessantemente. O que está acontecendo agora, já aconteceu antes. O que ainda virá, já aconteceu também no passado. Mas essa ideia não é exclusiva dos indianos: para os alquimistas medievais da Europa, o Ouroboros, a serpente que morde a própria cauda, é símbolo da eternidade. Essa serpente quebra a linearidade do tempo fechando-se sobre si própria. O círculo representa o eterno retorno, a renovação constante, o renascimento redentor. Essa imagem também nos leva a pensar no kalachakra, na roda do tempo da qual falam budistas e hindus.
O tempo em que ‘o tempo’ deixou de ser uma evidência óbvia e tornou-se um fato científico, matemático, foi no ano de 1687, quando o inglês Isaac Newton, com seu livro Principia Mathematica – o mais importante da história da ciência – estabeleceu com precisão científica singular a definição daquilo que, para a época, era exatamente ‘o tempo’, e com isso dar senso às três leis do Movimento e a da Gravitação Universal, ou seja:
1) O tempo absoluto, por si e por sua própria natureza, flui uniformemente, sem relação com qualquer coisa externa;
2) O tempo existe independente de observadores ou eventos físicos;
3) O tempo (assim como o espaço) é um recipiente absoluto, onde os eventos ocorrem de maneira linear e previsível.
Traduzindo, o tempo, de acordo com as Leis de Newton, possuía um tique-taque universal padrão (tempo absoluto) que valia tanto para um nativo da minha Taquari, quanto para um plantador de batatas na Irlanda, ou um ser marciano, ou um ET viajando pelas galáxias...
Importante, na realidade, Newton não media o tempo REAL, e sim uma APROXIMAÇÃO, mas, aproximação quase perfeita,
E isso funcionou (repito, perfeitamente) durante quase 220 anos até que o alemão Albert Einstein, um bedel do escritório de patentes de Berna, na Suíça, com apenas 26 anos, provocasse um verdadeiro terremoto na comunidade científica mundial com a sua extraordinária Teoria da Relatividade, mudando tudo, relativizando o tempo.
Se o bedel alemão não tivesse aparecido e mudado tudo, o mundo atual seria muito diferente? Afirmo eu, não! Com Newton e suas leis, o homem chegou à lua, a aviação moderna funciona perfeitamente, os trens em Londres mantêm seus rígidos horários, etc.
Na vida prática, não mudaria muito, exceto os supermodernos satélites de posicionamento geoestacionário que orbitam a terra a 35 mil km e são instrumentos fundamentais nas comunicações, internet, meteorologia, GPS, etc. Como as velocidades desses satélites, para manter a sincronia com a velocidade angular da terra, são muito altas, a questão do tempo será fortemente influenciada, gerando diferenças de muitos quilômetros aqui na terra, se não forem usados mecanismos de compensação.
Mas, ouso afirmar que, mesmo sem Einstein e seu tempo relativo, os cientistas notariam a diferença e, mesmo não sabendo o motivo/explicação, encontrariam mecanismos de compensação.
Conforme dito adrede, em 1905, tudo mudou.
Nesse ano foi publicada a Teoria da Relatividade Restrita, que versa sobre a eletrodinâmica dos corpos em movimento, estabelecendo que a velocidade da luz é constante e que o tempo e o espaço são RELATIVOS. Aqui a gravidade não foi incluída (será em 1915, quando da Teoria da Relatividade Geral).
Einstein sacou sua teoria a partir da comparação que fez entre a teoria de Newton e das equações sobre eletromagnetismo de Maxwell. Matematicamente, quando testadas em laboratórios, funcionam perfeitamente, mas quando combinadas havia uma incompatibilidade. Entendeu então que o problema estava na questão do tempo, pois ambas usavam o tempo absoluto!
Então derivou suas duas premissas geniais:
1) O Princípio da Relatividade ou da Equivalência: As leis da física são as
mesmas em todos os sistemas de referência inerciais. Isso significa que não existe um referencial inercial privilegiado ou absoluto; qualquer observador movendo-se com velocidade constante (sem aceleração) observará as mesmas leis da física;
2) O Princípio da Constância da Velocidade da Luz: A velocidade propagação da luz no vácuo – 300 mil km/s – tem o mesmo valor para todos os referenciais inerciais, independentemente da velocidade da fonte emissora ou da velocidade do observador.
Em palavras simples, podemos afirmar que essa teoria diz que "Espaço e tempo, na verdade, são faces da mesma moeda. E o jeito que o tempo passa para você pode ser diferente do jeito que ele passa para mim."
O tempo (e também o espaço) precisa se ajustar para compensar, esticando e encolhendo-se, dependendo do observador. O relógio de quem se move anda mais devagar.
Pode parecer absurdo para quem, sentadinho, tomando um bom chimarrão ou lendo um romance da Agatha Christie, mas creia, a teoria é provada em milhares de testes com uso de relógios atômicos com precisão de bilionésimos de segundos, um segundo de tempo vale um segundo, mas se levantar e caminhar numa direção qualquer, o seu um segundo passará uma fração bilionésima de tempo menor.
Repetindo: o relógio de quem se move anda mais devagar. UAU!
Opino que Einstein não era um ser "normal".
Nunca acreditei em naves alienígenas e seres de outros planetas; mas se alguém me afirmar que o gênio alemão era um ET, acredito sem reservas!
Ele sacou a relatividade do tempo e do espaço quando era um mero bedel no Escritório Federal de Propriedade Intelectual em Berna, na Suíça, sem os equipamentos e recursos que um centro de pesquisa de uma universidade poderia fornecer.
O inglês Stephen Hawking, aquele da cadeira de rodas supertecnológica, recentemente falecido, admirava profundamente Albert Einstein, considerando a relatividade geral um pilar inabalável da física, com equações tão indestrutíveis quanto o universo.
Palavras utilizadas por Hawking em seu livro ‘Uma Nova História do Tempo’, página 54 que sintetiza sua admiração:
(...) O uso que Einstein fez da equivalência entre massa inercial e massa gravitacional para derivar seu princípio da equivalência – e, em última instância, toda a relatividade geral – equivale a uma marcha incansável do raciocínio lógico que não tem paralelo na história do pensamento humano.’
Vou finalizar, já está extenso demais e é um assunto árido, mas tento escrever de uma maneira que eu consiga entender, como minha capacidade cognitiva é a média da população, creio que a maioria dos meus leitores vão entender - ao menos o básico.
O tempo, que na época de Newton era "absoluto", hoje, a partir de Einstein e de todos os experimentos/testes feitos por relógios atômicos e aceleradores de partículas, é alterado/relativizado tanto pela gravidade quanto pela aceleração/velocidade.
Na presença de matéria, o espaço-tempo quadridimensional é distorcido fazendo com que as trajetórias de corpos no espaço tridimensional se curvem de maneira que, como explicada erroneamente por Newton, pareçam que são atraídos pela "gravidade". Na realidade esses corpos seguem a famosa "geodésica".
No nosso plano/mundo a geodésica funcional a mil: um avião que sai reto de Nova Iorque até Madri gastará 6.865 km, mas se ele considerar a questão da geodésica (caminho mais curto no espaço curvo), ele gastará 6.676 km (quase 200 menos) rumando ao longo de um grande círculo, rumando inicialmente a nordeste, depois virando gradualmente para o sudeste.
Podemos testar isso com uma linha num mapa/globo. Vai funcionar, e fica mais fácil de entendermos.
Se algo não ficou claro, mande nos comentários que retorno.
* * *
Amigas, amigos: curtam o poema O Tempo por mim escrito há uns 10 anos. É a prova de que curto este tipo de tema, tanto que o ‘poetizei’. KKK!
O Tempo
Nada me intriga tanto
Como o tempo;
Nada me importa tão pouco
Como o tempo.
(Antinomia pura!)
Se ninguém me pergunta
Sobre ele,
Eu sei tudo;
Mas se alguém
– Um desavisado –
Porventura me questiona,
Calo-me...,posto que nada sei!
Newton, o Isaac, dizia ser
Uma linha reta, distinta do espaço e
Infinita em ambas direções;
Então veio o Einstein, o Albert, e alterou:
- É relativo (relativo?) e consorciado com o espaço.
(Espaço e Tempo, uni-vos!)
O tempo talvez seja uma vela ondulante
Que carrega em seu seio
Os sonhos
(Ou pesadelos, quem sabe?)
De toda a humanidade.
Mas também temo que seja o trem
Que me conduz
Num espaço tempo tão curvado
Que acabará por me deixar
Na pretérita estação
Onde meu avô, e suas malas, repousam.
E então eu o abraço,
E então deixo de existir!

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