Sexta, 21 de agosto de 2026


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Alfredo Octávio: o maior jornalista do Brasil

Livro Alfredo Octávio

NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo





JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025






A  ODISSEIA





(...)  o início do rio inesgotável da literatura ocidental, onde cada destino 

individual reflete o destino de todos os homens.

 

 Visão do gênio argentino Jorge   Luis   Borges
(1899-1986) sobre os dois livros de Homero.



Meus caros,


Está rolando nos cinemas da nossa capital (não sei se já está no interior) o filme A Odisseia, do competente diretor britânico Christopher Nolan, um filme de longa metragem, quase três horas, que versa sobre Odisseu, o rei de Ítaca, em sua épica volta da Guerra de Troia para o seu lar e braços da sua amada Penélope.

Esta superprodução de 250 milhões de dólares, opinião deste escrevinhador, certamente vai se tornar um clássico do cinema, assim como Doutor Jivago, Lawrence da Arábia, A Ponte do Rio Kwai (todos do diretor inglês David Lean), O Poderoso Chefão, Os Canhões de Navarone (que assisti pela enésima vez, agora no Netflix, beleza, beleza pura!). Estes tipos de filmes não pertencem a uma ou duas gerações, eles são, exagerando, eternos.

Voltando ao A Odisseia, quem viu o filme opina que é uma beleza de arte cinematográfica, que as três horas de projeção são tão levinhas quanto uma pluma ao vento. Eu, aqui em Taquari, com a sala mais próxima em Lajeado, ainda não o assisti, mas não deixarei de fazê-lo

Mas é bom termos presente que um filme muito raramente representa  in totum a obra literária do autor. No caso presente, o diretor Nolan fez sua obra baseado, mas com muita liberdade criativa, no livro do Homero ou, como diz o professor e sociólogo Leandro Karnal em uma análise do livro no YouTube, ‘o Nolan fez um filme sabor Homero’.  

 

Sobre o livro



A obra literária é creditada ao grego Homero que, se realmente houve um Homero, estima-se que deva ter vivido em torno de 850 a.C. Foi um poeta épico da Grécia Antiga, ao qual, tradicionalmente, mas não certamente, atribui-se a autoria dos poemas épicos Ilíada e Odisseia, ambos linkados ao evento da mítica ou vera – não se sabe – Guerra de Troia.

A mim, é complicado entender como alguém que viveu em torno de 400 anos após o evento ‘Troia’, cego, possa descrever os atos, principalmente, no caso, o livro Ilíada – que descreve a guerra, ou melhor, parte dela, e do famoso ‘Cavalo de Troia’. Provavelmente seja um caso semelhante à Bíblia Cristã, escrita a várias mãos

 

(Eu acabo de reler um grosso volume com a história da Grécia, desde lá do começo na Ilha de Creta com a civilização minóica e, mesmo que escavações do século XIX feitas pelo pesquisador e arqueólogo alemão amador Schliemann tenham encontrado, na costa da Turquia, algo que pode ser Troia, não há certeza histórica/científica da existência dessa cidadela, muito menos da Guerra em si.)


 

O livro, independente de quem o tenha escrito, ou mesmo que tenha sido uma obra coletiva, é uma das obras literárias mais antigas que sobreviveram e continua popular entre o público moderno. Nolan e seu filme são provas disto!

A Odisseia é dividida em 24 livros juntados em um volume com em torno de 400 páginas, tudo escrito em versos e descreve a epopeia cometida pelo mítico Odisseu (ou Ulisses, na forma latina), o rei de Ítaca, em sua longa (10 anos) viagem de volta ao seu reinado, aos braços da esposa Penélope e aos abraços do filho Telêmaco, isso após a sua participação de dez anos na Guerra de Troia.

E nessa viagem de volta acontece de tudo, desde deuses, seres mitológicos, monstros marinhos, violências, mortes de seus amigos tripulantes que o acompanham, etc., etc.

 

O livro inteiro, como dito acima, em forma de poesia épica, tem em torno de 400 páginas, ums semana de leitura, tranquilamente. Eu nunca li esta edição completa. O que li, pego na biblioteca da minha Taquari, foi uma edição reduzida para estudantes, mas que não me animou a seguir adiante, ler o texto inteiro.

Pesquisando, existe uma edição comentada, da editora Companhia das Letras, de 2023, traduzida por Frederico Lourenço, e que custa em torno de 100 reais. Dá para se comprar, usado, por bem menos.  

 

Não vou resenhar o livro, pois não o li por inteiro. Portanto, busquei na web uma resenha de boa qualidade e que serve para dar uma boa visão da obra do escritor (ou 'escritores') grego.

Os grandes críticos literários afirmam A Odisseia como a ‘matriz de toda a narrativa ocidental sobre a jornada e a identidade humana’.

 

 

Resenha do crítico Leonardo Campos,
extraída do blog Plano Crítico, de 2017:


 

Mesmo diante de uma origem tão distante, a obra Odisseia, continuação da Ilíada, ambas atribuídas ao grego Homero, chegou ao contexto contemporâneo com bastante vitalidade. Graças ao seu diálogo com outras modalidades artísticas, os 24 cantos que ‘narram’ o retorno de Odisseu após a Guerra de Troia garantiram a permanência da obra no bojo do cânone literário ocidental, sendo uma das histórias mais condensadas e adaptadas para outros suportes, tais como o cinema e a televisão.

O título da trajetória épica tornou-se conceito de longa viagem, um percurso amplo, às vezes árduo e complexo. No livro Gêneros literários, a pesquisadora Ângela Soares traça uma definição bastante simples e esclarecedora sobre a obra, apontando-a como uma narrativa longa, heroica e grandiosa, de interesse nacional e social, que apresenta uma atmosfera maravilhosa em torno de acontecimentos históricos passados ao reunir mitos, heróis e deuses.

A saga é uma alegoria para os nossos desafios ao longo da vida. Dentre os seus temas gerais podemos apontar o código moral sobre cuidar das pessoas, ser hospitaleiro e dividir o que recebe com as pessoas. A chegada do herói na obra é um arquétipo para toda a humanidade, o retorno ao conforto e a serenidade do lar, tendo ainda um conflito filosófico entre o livre arbítrio e o destino.

Elaborada ao longo de séculos de tradição oral, A Odisseia teve a sua forma fixada por escrito após ter sido transmitida O ‘enredo’ é basicamente o seguinte: Odisseu parte para a guerra e após vencer os troianos, desafia Poseidon, deus dos mares. Segundo o herói, os deuses não são nada e a vitória na guerra era para ter sido atribuída apenas ao astuto ato heroico humano. Furioso, Poseidon amaldiçoa Odisseu, colocando diversos percalços em seu caminho de volta para casa.

No trajeto, Odisseu evolui, indo de posturas amadoras e imaturas, tais como o episódio com o Ciclope, até o combate com os pretendentes da sua esposa, Penélope, que pressionada a abdicar do casamento e ceder o trono do rei de Ítaca, tece uma colcha durante o dia, desfazendo-a durante a noite. A colcha, bastante representativa, simboliza a ocupação do espaço de Odisseu. Assim que estivesse pronta, ela cederia o trono a um dos pretendentes. Desfazer o trabalho no silêncio da noite era uma alternativa para retardar o cumprimento da promessa.

A viagem de Odisseu, originalmente deveria ser durante alguns dias, mas levou muitos anos, haja vista os desafios do mar impiedoso de Poseidon. Durante os 24 cantos, o herói passa por um painel de acontecimentos que o fazem se transformar enquanto homem. Sobreviveu ao Ciclope, venceu a feiticeira Circe, sobreviveu ao canto das sereias e aos encantos da deusa Calipso, desceu ao inferno do Hades, relacionou-se com reinos e retornou cansado, mas muito sábio, ao seu lar, fixando-se novamente em seu espaço após uma das batalhas sangrentas mais avassaladoras da história da literatura.

No que tange aos aspectos estruturais, formais, A Odisseia é, primorosamente, bem construída. Composta em hexâmetro dactílico, o épico se inicia no meio de uma grande batalha e faz bastante uso de flashbacks. Apesar de várias narrativas entrecruzadas dentro da história, há três dois eixos principais: a situação de Telêmaco e Penélope em Ítaca e o retorno de Odisseu ao lar.

Como destaque, há o percurso bem estruturado dos cantos XII ao XIX, momento em que Odisseu narra os acontecimentos épicos da sua trajetória, tendo o flashback no canto XIX, analisado academicamente no elucidativo ensaio A Cicatriz de Ulisses, de Auerbach, um ponto forte. Neste trecho, há a necessidade de preencher a narrativa com o máximo de detalhes, diferente de livros como a Bíblia Sagrada, por exemplo, que deixa lacunas e espaços para a obscuridade narrativa. Neste trecho, percebemos um elo bastante forte com as ideias sobre o narrador, propostas pelo filósofo Walter Benjamin: as experiências do herói são oferecidas como um legado a ser transmitido aos ouvintes.

Popularizado graças ao seu apelo filosófico, o canto das sereias é uma das partes mais importantes do poema. O episódio segue o da descida ao Hades. Odisseu retorna do lugar mais cheio de conhecimento. Havia conversado com sua mãe e com Tirésias, em suma, passeado por um território que pode ser pensado como a terra do canto e do encanto, o que a tradição vai identificar como campo da palavra poética. As medidas tomadas pelo herói quando o navio se aproxima da ilha das sereias nos aproximam, alegoricamente, da dialética do esclarecimento, pensamento proposto pela Escola de Frankfurt. Escrito em 1947, este texto apresenta os fundamentos da teoria crítica das Ciências Sociais.

Os intelectuais dessa linha de pensamento criticavam o racionalismo enquanto ideologia da humanidade, tendo ainda uma feroz crítica ao sistema que produz e controla a sociedade numa tendência que mescla Marx, Weber e Freud. Em linhas gerais, criticavam a ‘matematização’ do conhecimento. Sendo assim, segundo as ideias propostas pelo texto supracitado, Odisseu abdica do encantamento das sereias, mas não deixa de ter o prazer (gozo interrompido) de escutar o canto dito como perigoso. Ele sabiamente reconhece o encanto, mas não cede ao encantamento, em suma, uma passagem alegórica sobre o conhecimento como algo perigoso, uma poderosa arma para um homem comum. À guisa de curiosidade, em O silêncio das sereias, Franz Kafka ironiza a passagem, com as sereias retribuindo a astúcia e a inteligência do herói com indiferença, já que elas optam por não cantar para ele.

De certa forma, a Odisseia é uma obra de imenso valor didático, pois os filósofos socráticos consideravam Homero como educador de toda a Grécia. Uma das suas principais funções é o ensinamento: a exortação ao trabalho, preceitos sobre agricultura, navegação e a vida moral, além de calendários, orientações sobre o clima, o tempo etc.

De acordo com os especialistas da seara dos estudos literários, Odisseu foi o homem mais completo da história da literatura. A sua saga deve ser pensada como uma alegoria para os nossos desafios ao longo da vida. Astuto e obstinado, Odisseu era um mestre da negociação e atuava como um diplomata. Ele representa um homem que teve o seu destino traçado pelos deuses, mas que diferente de muitos homens da sua época, ele mesmo guiou o roteiro pelo qual foi direcionado.

De personalidade forte, era moderado, diferente de personagens arquetípicos como Aquiles, um molde de valentia e passionalidade, entretanto, efêmero no desenvolvimento da narrativa. Apesar de cometer alguns erros pela vontade heroica de ser lembrado na posteridade, Odisseu evolui ao longo da sua trajetória, uma história repleta de reflexões sobre o pensamento grego, bem como sobre a formação da cultura ocidental.

Ao ganhar projeção ao longo dos séculos, a Odisseia abriu caminho para a tradição épica. Como apontam os estudiosos da cultura grega, Virgílio, Dante, Milton e James Joyce talvez não tivessem sido os mesmos sem a existência do referencial homérico.  A narrativa reflete a estrutura do romance romântico, o que também ajudou na sua permanência no imaginário cultural.

Se olharmos em direção ao horizonte cultural e social do Ocidente, veremos diversas manifestações da Odisseia: Ajax no supermercado (produto de limpeza), Aquiles na medicina (parte do corpo), Percy Jackson (pastiche literário), Cold Mountain (épico cinematográfico em que a esposa aguarda ansiosamente o retorno do marido após uma devastadora guerra), Indiana Jones (outro épico cinematográfico sobre um herói astuto), Ulysses (clássico da literatura moderna de James Joyce), etc. Um poema eternizado por sua força épica e pela sua capacidade de transitar pelos mais variados meandros narrativos utilizados pela humanidade ao longo de sua existência.

 

E aí, amigo leitor, vais enfrentar?

 

  

  

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