Sexta, 31 de julho de 2020




Jamais troquei de lado.
Por quê? Eu não tenho lado.
Ou melhor, o meu lado sou eu
...
ANDO DEVAGAR
PORQUE JÁ TIVE PRESSA





Escreva apenas para






especial

Nesta sexta, uma cesta
de Jean-Paul Sartre!








Nasci para satisfazer a grande necessidade que eu tinha de mim mesmo


Detesto as vítimas quando elas respeitam os seus carrascos.

Um amor, uma carreira, uma revolução: outras tantas coisas que se começam sem saber como acabarão





Liberdade: uma condenação
Texto de J-P Sartre

Dostoiévski escreveu: “Se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Aí se situa o ponto de partida do existencialismo. Com efeito, tudo é permitido se Deus não existe, fica o homem por conseguinte, abandonado, já que não se encontra em si, nem fora de si, uma possibilidade a que se apegue.
Antes de mais nada, não há desculpas para ele. Se, com efeito, a existência precede a essência, não será nunca possível referir uma explicação a uma natureza humana dada e imutável; por outras palavras, não há determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade.
Se, por outro lado, Deus não existe, não encontramos diante de nós valores ou imposições que nos legitimem o comportamento. Assim, não temos nem atrás de nós, nem diante de nós, no domínio luminoso dos valores, justificações ou desculpas. Estamos sós e sem desculpas.
É o que traduzirei dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si próprio; e, no entanto, livre, porque uma vez lançado ao mundo é responsável por tudo quanto fizer.
O existencialista não crê na força da paixão. Não pensará nunca que uma bela paixão é uma torrente devastadora que conduz fatalmente o homem a certos atos e que, por conseguinte, tal paixão é uma desculpa.
Pensa, sim, que o homem é responsável por essa paixão. O existencialista não pensará também que o homem pode encontrar auxílio num sinal dado sobre a terra, e que o há de orientar; porque pensa que o homem decifra ele mesmo esse sinal como lhe aprouver.
Pensa, portanto, que o homem, sem qualquer apoio e sem qualquer auxílio, está condenado a cada instante a inventar  homem…




De formação burguesa, Sartre tornou-se um intelectual marxista



Jean-Paul Sartre (Jean-Paul Charles Aymard Sartre) nasceu em Paris, 21 de junho de 1905. Faleceu na capital francesa, em 15 de abril de 1980. Foi filósofo, escritor e crítico. Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um artista militante e apoiou causas políticas de esquerda.
Repeliu as distinções e se recusou a receber o Nobel de Literatura de 1964. Sua filosofia dizia que no caso humano (e só no caso humano) a existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" que suceda à existência.
Teve um relacionamento aberto que durou 51 anos, até a sua morte, com a filósofa e escritora Simone de Beauvoir.



Jean-Paul era filho de Jean-Baptiste Marie Eymard Sartre, oficial da marinha francesa e de Anne-Marie Sartre (Nascida Anne Marie Schweitzer). Quando seu filho nasceu, Jean-Baptiste tinha uma doença crônica adquirida em uma missão na Cochinchina. Após o nascimento de Jean-Paul, ele sofreu uma recaída e retirou-se com a família para Thiviers, sua terra natal, onde morreu em 21 de setembro de 1906. Órfão de pai, com 15 meses, vai para Meudon com sua mãe, onde passam a viver na casa de seus avós maternos. O avô de Sartre, Charles Schweitzer nasceu em uma tradicional família protestante alsaciana. Ao fim da Guerra Franco-Prussiana, Charles optou pela cidadania francesa e tornou-se professor de alemão em Mâcon onde conheceu e casou-se com Louise Guillemin.




Após o regresso de Anne-Marie, os quatro viveram em Meudon até 1911. O pequeno "Poulou", como Jean-Paul era chamado, dividia o quarto com a mãe. Em seu romance autobiográfico "As Palavras" (Les Mots) confessa que desde cedo a considerava mais como uma irmã mais velha do que como mãe. De sua infância ao fim da adolescência, Sartre vive uma vida tipicamente burguesa, cercado de mimos e proteção. Até os 10 anos foi educado em casa por seu avô e por alguns preceptores contratados. Com pouco contato com outras crianças, o menino tornou-se, em suas próprias palavras, um "cabotino" e aprendeu a usar a representação para atrair a atenção dos adultos com sua precocidade.

Em 1911, a família Sartre mudou-se para Nobres. Passa a ter acesso à biblioteca de obras clássicas francesas e alemãs pertencente ao seu avô. Após aprender a ler, Jean-Paul alterna a leitura de Victor Hugo, Flaubert, Mallarmé, Corneille, Maupassant e Goethe, com os quadrinhos e romances de aventura que sua mãe comprava semanalmente às escondidas do avô. Sartre considerava serem essas suas "verdadeiras leituras", uma vez que a leitura dos clássicos era feita por obrigação. A essas influências, junta-se o cinema, que frequentava com sua mãe e que se tornaria mais tarde um de seus maiores interesses.

Ele conta em "As Palavras" que escrevia histórias na infância também como uma forma de mostrar-se precoce. Suas primeiras histórias eram cópias de romances de aventura, em que apenas alguns nomes eram alterados, mas ainda assim faziam sucesso entre os familiares. Era incentivado pela mãe, pela avó, pelo tio (que o presenteou com uma máquina de escrever) e por uma professora, que via nele a vocação de escritor profissional. Aos poucos, o jovem Sartre passou a encontrar sua verdadeira vocação na escrita.

Apenas seu avô o desencorajava da escrita e o incentivava a seguir carreira de professor de letras. Sem enxergar nele o talento que os demais viam, mas conformado com o fato de que seu neto "tinha a bossa da literatura", incentivou Sartre a tornar-se professor por profissão e escrever apenas como segunda atividade. Assim, Sartre atribui ao avô a consolidação de sua vocação de escritor: "Perdido, aceitei, para obedecer a Karl, a carreira de escritor menor. Em suma, ele me atirou na literatura pelo cuidado que desprendeu em desviar-me dela".

Em 14 de abril de 1917 sua mãe casa-se novamente, com Joseph Mancy, que passa a ser cotutor de Sartre. Livre da dependência dos pais, Anne-Marie muda-se com Sartre para a casa de Mancy em La Rochelle. Nesta cidade litorânea, Sartre toma contato pela primeira vez com imigrantes árabes, chineses e negros. Mais tarde ele reconheceria esse período como a raiz de seu anticolonialismo e o início do abandono dos valores burgueses.

Em 1921 retorna ao Liceu Henri IV, como interno. Encontra Paul Nizan e os dois tornam-se amigos inseparáveis. De 1922 a 1924, ambos estudam no curso preparatório do Liceu Louis-le-Grand, onde se preparam para o concurso da École Normale Superieure. Nessa época despertou seu interesse pela filosofia. Sua primeira influência importante foi a obra de Henri Bergson.

Em 1924 ingressou na École Normale Supérieure na mesma turma de Nizan, Daniel Agache e Raymond Aron. Músico e ator talentoso e sempre disposto a participar de brincadeiras e eventos sociais, Sartre torna-se muito popular entre os colegas. Os alunos da escola se dividem em grupos de afinidades religiosas ("ateus" e "carolas"), e facções políticas: Socialistas, comunistas, reacionários, pacifistas. Sartre adere aos ateus e aos pacifistas e enquanto Aron e Nizan aderem aos círculos socialistas e comunistas e começam a participar da vida política francesa, Sartre mantém o individualismo e o desinteresse pela política que conservaria até o fim da Segunda Guerra. No campo filosófico, além de Bergson, passou a ler Nietzsche, Kant, Descartes e Spinoza. Já na escola começa a desenvolver as primeiras ideias de uma filosofia da liberdade leiga, da oposição entre os seres e a consciência, do absurdo e da contingência que ele viria a desenvolver posteriormente em suas grandes obras filosóficas. Seu principal interesse filosófico é o indivíduo e a psicologia.




Em 1928 presta o exame de mestrado e é reprovado. Durante o ano de preparação para a segunda tentativa, estuda com Nizan e René Maheu na Sorbonne. Conhece a namorada de Maheu, Simone de Beauvoir que mais tarde se tornaria sua companheira e colaboradora até o fim da vida. Maheu havia apelidado Simone de Beauvoir de "Castor", devido à semelhança de seu nome com Beaver (Castor em inglês) e também "porque ela trabalhava como um castor".  Sartre assume o apelido e passa a chamá-la de Castor pessoalmente e em todas as cartas que lhe escreveu. Na segunda tentativa do mestrado, Sartre passa em primeiro lugar, no mesmo ano em que Beauvoir obtém a segunda colocação.

Sartre e Beauvoir nunca formaram um casal monogâmico. Não se casaram e mantinham uma relação aberta. Sua correspondência é repleta de confidências sobre suas relações com outros parceiros. Além da relação amorosa, eles tinham uma grande afinidade intelectual. Beauvoir colaborou com a obra filosófica de Sartre, revisava seus livros e também se tornou uma das principais filósofas do movimento existencialista. Sua obra literária também inclui diversos volumes autobiográficos, que frequentemente relatam o processo criativo de Sartre e dela mesma.




Entre 1929 e 1931, Sartre presta o serviço militar e torna-se soldado meteorologista. Escreve alguns contos e começa a trabalhar em seu primeiro romance, "Factum Sur la Contingeance" (Panfleto Sobre a Contingência), que depois viria a se chamar "La Nausée" (A náusea). Embora tenha se candidatado ao cargo de auxiliar de catedrático no Japão, ele é nomeado professor de filosofia de um liceu em Havre onde permanece até 1936. Sartre ainda seria professor em Laon e Paris até 1944, quando abandonou definitivamente o magistério.




Em 1933 ele é apresentado à fenomenologia de Husserl por Raymond Aron, que havia retornado de um período como bolsista do Institut Français em Berlim. Percebendo a semelhança dessa corrente à sua própria teoria da contingência, Sartre fica fascinado e imediatamente começa a estudar a fenomenologia através de uma obra introdutória. Por sugestão de Aron, candidata-se à mesma bolsa e, aprovado, permanece em Berlim entre 1933 e 1934. Durante esta viagem, estuda a fundo a obra de Husserl e conhece também a filosofia de Martin Heidegger. Publica em 1936 o artigo La Transcendence de l'Égo ("A Transcendência do Ego"), uma crítica à teoria do Ego Husserliana que por sua vez se baseava no Cogito cartesiano. Sartre desafia o conceito de que o ego é um conteúdo da consciência e afirma que ele está fora da consciência, no mundo e a consciência se dirige a ele como a qualquer outro objeto do mundo. Este é um dos primeiros passos para livrar a consciência de conteúdos e torná-la o "Nada" que mais tarde seria um dos conceitos-chave do existencialismo. De volta à França, continua a trabalhar nas mesmas ideias e entre 1935 e 1939 escreve L'Imagination ("A Imaginação"), L'Imaginaire ("O Imaginário") e Esquisse d'une théorie des émotions ("Esboço de uma teoria das emoções"). Volta então suas pesquisas para Heidegger e começa a escrever L´Être et le néant ("O ser e o nada").




Em 1938, publica o romance La Nausée (A Náusea) e a coletânea de contos Le Mur (O muro). A Náusea apresenta, em forma de ficção, o tema da contingência e torna-se seu primeiro sucesso literário, o que contribui para o início da influência de Sartre na cultura francesa e no surgimento da moda existencialista que dominou Paris na década de 1940.




Em 1939, Sartre volta ao exército francês, servindo na Segunda Guerra Mundial como meteorologista. Em Nancy é aprisionado no ano de 1940 pelos alemães, e permanece na prisão até abril de 1941.

De volta a Paris, alia-se à Resistência Francesa, onde conhece e se torna amigo de Albert Camus (do qual já conhecia a obra e sobre quem já havia escrito um ensaio elogioso a respeito do livro O Estrangeiro). A amizade entre Sartre e Camus perdurará até 1952, quando os dois rompem a relação publicamente devido à publicação do livro de Camus O Homem Revoltado no qual Camus atacou duramente o comunismo e o stalinismo. Sartre defendia uma relação de colaboração critica com o regime da URSS e permitiu a publicação de uma crítica desastrosa ao livro de Camus em sua revista Les Temps Modernes (crítica esta que Camus respondeu de maneira extremamente dura) e que foi a gota d´água para o fim da relação de amizade. Mas até o final da vida Sartre admirará Camus, como ele mesmo expressa nas entrevistas que teve com Simone de Beauvoir em 1974 - e que ela publicou postumamente.




Em 1943 publicou seu mais famoso livro filosófico, L'Être et le Néant (O Ser e o Nada: Ensaio de Ontologia Fenomenológica), que condensa todos os conceitos importantes da primeira fase de seu sistema filosófico.

Sua participação na Resistência não é aceita por todos, e o filósofo Vladimir Jankélévitch o reprova por sua "falta de engajamento político" durante a ocupação alemã, e vê em seus posteriores combates em prol da liberdade uma tentativa de se redimir por esta atitude.




Em 1945 cria e passa a dirigir junto a Maurice Merleau-Ponty a revista Les Temps Modernes ("Tempos Modernos"), onde são tratados mensalmente os temas referentes à literatura, filosofia e política. Além das contribuições para a revista, Sartre escreve neste período algumas de suas obras literárias mais importantes. Sempre encarando a literatura como meio de expressão legítima de suas crenças filosóficas e políticas, escreve livros e peças teatrais que tratam das escolhas que os homens tomam frente às contingências às quais estão sujeitos. Entre estas obras destacam-se a peça Huis Clos (Entre quatro paredes - 1945) e a trilogia Les Chemins de la liberté (Os caminhos da Liberdade) composta pelos romances L'age de raison (A idade da razão - 1945), Le Sursis (Sursis - 1947) e Le mort dans l'âme (Com a morte na alma - 1949).

No período mais prolífico de sua carreira escreve ainda várias peças de teatro e ensaios.




Na década de 1950 assume uma postura política mais atuante, e abraça o comunismo. Torna-se ativista, e posiciona-se publicamente em defesa da libertação da Argélia do colonialismo francês. É importante frisar que Sartre, junto com Fanon, foram dois intelectuais importantes no processo de descolonização-contribuição referenciada através de textos relacionados ao tema do colonialismo e também no envolvimento manifestado no engajamento político de ambas as partes. Suas contribuições passam pelo estudo das inter-relações que se estabelecem no plano do pensamento e as interconexões que ocorrem através de inúmeras razões, entre elas a existência do colonialismo e suas interconexões.

Em dezembro de 1960, Fanon, por exemplo, inicia a sua escrita apressada do que sabidamente seria o seu livro, alterando o curso da escrita de forma a sintetizar seus acúmulos teóricos antes que seu tempo esgote (pois, foi diagnosticado com leucemia, e percebe, mediante aos estágios que a medicina se encontra nesta época, que lhe resta pouco tempo de vida). É neste contexto que será escrito em questão de meses o famoso Os Condenados da Terra. Enquanto escrevia o livro e revisava os trechos, chegou a voar para Itália a fim de encontrar Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, para encomendar a Sartre o Prefácio do seu livro.

A influência de Sartre sobre Fanon é bastante conhecida. Fanon o admirava tanto que, em ocasião do memorável encontro entre os dois, no verão de 1961 em Roma, teria dito a Claude Lanzmann: "Eu pagaria vinte mil francos para falar com Sartre da manhã à noite durante quinze dias" (DE BEAUVOIR, 2009, p. 437). É sabido que Fanon se refere constantemente a obra Reflexões Sobre a Questão Judaica, publicada por Sartre em 1943.




A aproximação do marxismo inaugura a segunda parte da carreira filosófica de Sartre em que tenta conciliar as ideias existencialistas de autodeterminação aos princípios marxistas. Por exemplo, a ideia de que as forças socioeconômicas, que estão acima do nosso controle individual, têm o poder de modelar as nossas vidas. Escreve então sua segunda obra filosófica de grande porte, La Critique de la Raison Dialectique (A Crítica da Razão Dialética - 1960), em que defende os valores humanos presentes no marxismo, e apresenta uma versão alterada do existencialismo que ele julgava resolver as contradições entre as duas escolas.




Considerado por muitos o símbolo do intelectual engajado, Sartre adaptava sempre sua ação às suas ideias, e o fazia sempre como ato político. Em 1963, Sartre escreve Les Mots (As Palavras - 1964), relato autobiográfico que seria sua despedida da literatura. Após dezenas de obras literárias, ele conclui que a literatura funcionava como um substituto para o real comprometimento com o mundo. Em 1964 a Academia Sueca lhe agracia com o Nobel de Literatura, que ele no entanto recusa, pois segundo ele "nenhum escritor pode ser transformado em instituição".

O caso se tornou um escândalo, que poderia ter sido evitado pela Academia Sueca, visto que Sartre teria descoberto antecipadamente que seu nome estava entre os indicados, e por isso enviou uma carta a Academia avisando que recusaria o prêmio caso fosse o escolhido para recebê-lo, a carta, no entanto, só chegou a mão dos Acadêmicos responsáveis pela escolha do vencedor do prêmio, dias depois de Sartre ter sido escolhido para recebê-lo.


Morreu em 15 de abril de 1980 no Hospital Broussais, em Paris. Seu funeral foi acompanhado por mais de 50 000 pessoas. Está enterrado no Cemitério de Montparnasse em Paris. No mesmo túmulo está Simone de Beauvoir.





Um homem não é outra coisa senão o que faz de si mesmo.



A lendária história de amor


"Hoje em dia, tendemos a esquecer quão glamurosos e famosos eram, tal qual estrelas do cinema", diz Monteil.


A escritora Claudine Monteil foi testemunha de uma história de amor do século passado que move a imaginação das pessoas até hoje.:
Jean-Paul e Simone.
A entrevista foi feita por Louise Hidalgo, da BBC, em 2 de março de 2019.

Fundadora de importantes movimentos feministas da França, Monteil conheceu o casal nos anos 1970, quando tinha 20 anos. Mais tarde, escreveu diversos livros sobre seus amigos.
Em entrevista ao programa Witness, da BBC, a escritora contou detalhes do cotidiano e das trocas intelectuais e afetivas deste par pouco convencional à época - além de nunca terem se casado, algo então escandaloso, eles tinham um relacionamento aberto, o que era ainda mais inesperado.

BBC - A senhora conheceu Sartre em um protesto em Paris e teve um episódio envolvendo histórias em quadrinhos. O que aconteceu?

Claudine Monteil - Foi extraordinário porque eu havia sonhado conhecer Sartre e ter uma reunião muito intelectual e séria com ele. Você sabe, coisas que você pensa quando é uma estudante de 20 anos, que vai conhecer um grande filósofo como ele.
Sartre me perguntou quais livros eu tinha comigo. Estava tão envergonhada de trazer aquelas leituras não intelectuais...Fiquei vermelha e quase chorei, mas tive que mostrar a ele.
Então, de repente, Sartre abre um enorme sorriso e diz: "Você gosta de quadrinhos? Eu também!". Começamos a falar sobre isso, o quanto gostávamos dessas histórias, e no final ele declarou: "Você é uma jovem estudante muito interessante".

BBC - Com base nessa conversa, ele se ofereceu para apresentá-la a Simone de Beauvoir, que era sua heroína. E a senhora foi encontrá-la acompanhada de uma delegação de mulheres que faziam campanha para legalizar o aborto na França.

Monteil - Fui à casa deles e éramos cerca de oito mulheres, todas pelo menos 10, 20 ou 30 anos mais velhas do que eu. Quando cheguei e sentei em frente a ela, estava esperando ouvi-la, mas ela me olhou e disse: "Qual é o seu ponto de vista e o que você sugere como uma estratégia para a campanha de legalização do aborto?"
Tive que responder logo e Hélène de Beauvoir, sua irmã, me disse depois: "Você fez a coisa certa respondendo. Caso não o fizesse, não existiria mais para ela (Simone de Beauvoir)".

BBC - Como eram Sartre e Beauvoir?

Monteil - Ao conhecer Sartre, a primeira coisa que chamava a atenção era o quanto ele era mais feio pessoalmente do que nas fotos. Ele não era um homem atraente, por assim dizer. Mas tinha a voz mais extraordinária e quente que já ouvi. Quando ele falava, te fazia sentir como se fosse a única pessoa que interessava no mundo.
Simone de Beauvoir me tratou com dignidade quando eu era jovem... Eu diria que ela era uma pessoa muito direta.
E, para mim, eles eram o melhor casal do mundo: estavam unidos pela maneira de ver o mundo e pela escrita.
"Quando a conheci, tive a sensação de ter o melhor relacionamento que poderia ter com alguém", disse-me Sartre.
Era um relacionamento completo que implicava uma igualdade total.

BBC - Ela se tornou sua amiga e a Sra a visitava uma ou duas vezes por semana. Com base nessa proximidade, a Sra diz ter percebido que era difícil para ela dividir Sartre com as muitas outras mulheres de sua vida.

Monteil - Ela aceitara o pacto segundo o qual eles compartilhavam o amor mais essencial de suas vidas, mas, ao mesmo tempo, tinham amantes.
Ela também teve amantes de que gostava muito, como o escritor americano Nelson Algren e o escritor francês Claude Lanzmann.
Mas, quando os conheci nos anos 1970, foi um choque porque Sartre tinha uma agenda de uma hora para essa mulher, uma hora para esta, e depois ele destinava refeições e noites para Simone de Beauvoir.
Esse não era meu ideal de relacionamento e pude ver que, na realidade, Simone de Beauvoir estava sofrendo.

BBC - Ele tentou te seduzir?

Monteil - Ele nunca tentou me seduzir, mas uma vez ele me convidou para almoçarmos sozinhos. Então, alguém próximo a mim recomendou que eu não fosse, porque todos pensariam que eu estaria tentando seduzi-lo.
Assim, cancelei o almoço e Sartre entendeu muito bem. E, desde então, Simone de Beauvoir sabia que eu nunca tentaria seduzir Sartre. Isso criou um laço muito especial entre nós.

BBC - O casal compartilhava a paixão pelas ideias e pela escrita, mas ela podia ser uma crítica muito difícil, certo?

Monteil - Quando Simone de Beauvoir lia um dos textos (de Sartre), era como uma professora rígida, mas ele adorava isso.
Sartre nunca publicou nada sem que Simone de Beauvoir lesse palavra por palavra. Uma vez, ele pediu que ela voltasse mais cedo dos Estados Unidos apenas para revisar um manuscrito.
Hélène de Beauvoir me contou que, certa tarde, Simone disse a Sartre: "Esse texto é muito pobre, você não pode publicá-lo". Ela rasgou os papéis. Ele estava acostumado com suas críticas, mas a essa altura estava perdendo a visão e escrever era muito difícil.
Ele retrucou: "Te odeio, castor" (como Sartre chamava-a, brincando com a semelhança entre o sobrenome dela e a palavra que remete ao animal em inglês, beaver).
Então, ela respondeu: "Sim, você me odeia hoje, mas amanhã de manhã você voltará ao seu manuscrito".
E tudo estava bem. Era amor.

BBC - Como eles eram juntos?

Monteil - Simone de Beauvoir era mais alta do que Sartre e colocava a mão no ombro dele o tempo todo, era um gesto muito terno. E ele sempre olhava para ela, embora não conseguisse enxergar muito bem no final. Às vezes, também terminavam as frases um do outro.
Sartre contou-me que, na primeira vez que falou com ela, ficou fascinado por sua beleza e inteligência.
"Sempre achei que era bonita", ele me disse, "mesmo quando a conheci... e estava usando um chapéu muito feio!"
"A coisa maravilhosa sobre Simone de Beauvoir - afirmou ele - é que ela tem a inteligência de um homem (...) e a sensibilidade de uma mulher".

BBC - Sartre morreu em 15 de abril de 1980, quando tinha 74 anos de idade. Como foi a perda para ela?

Monteil - Ele morreu logo depois que ela saiu do hospital. Isso partiu seu coração (de Beauvoir). Outra coisa que partiu o coração dela foi ter que organizar o funeral.
O governo francês ofereceu um cordão policial para acompanhar todo do trajeto do hospital ao cemitério, mas Simone de Beauvoir rejeitou tudo isso.
Ela disse: "Não, Sartre não queria reconhecimento oficial, só queria que as pessoas estivessem lá". E eu disse a ela: "Mas você não vai ter ninguém te protegendo e haverá milhares de pessoas".
E foi o que aconteceu: acho que o número oficial de comparecimento ao funeral foi de 50 mil pessoas.
Havia mais de 2 km de pessoas, ao longo de três avenidas (se dirigindo à homenagem).
Quando chegamos ao cemitério, não havia proteção ao redor do túmulo. Os jornalistas, especialmente os de televisão, começaram a me empurrar com as câmeras, buscando uma melhor imagem de Simone de Beauvoir.
Ela começou a perder a cor e depois desmaiou em casa. Ficou hospitalizada em estado de emergência por duas semanas.
Foi terrível. Chorava o tempo todo, mas o que salvou sua vida foi escrever: ela decidiu escrever a história dos últimos anos de Sartre.

Nesse mesmo livro, publicou 100 páginas de entrevistas com Sartre sobre assuntos que ele não pôde publicar. São discussões entre eles sobre a escrita, a vida e a noção de liberdade de Sartre, que são extremamente emocionantes e belas.



Se os comunistas têm razão, então eu sou o louco mais solitário em vida. Se eles estão errados, então não há esperança para o mundo.



A noite em que Jean-Paul Sartre
fumou um charuto com Che Guevara

Entre fevereiro e março de 1960, pouco mais de um ano após a revolução, o casal de filósofos franceses passou um mês em Cuba e se encantou com a juventude do novo governo




Texto de Cynara Menezes, em 6 de outubro de 2013, no https://www.socialistamorena.com.br/:


“Guevara, diretor do Banco Nacional, ao oferecer-me um excelente café em seu escritório, me disse:
– Primeiro sou médico, depois soldado, e finalmente, como o senhor vê, banqueiro.”
Entre fevereiro e março de 1960, pouco mais de um ano após a revolução que derrubou Fulgencio Batista, o casal de filósofos franceses Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir passou um mês em Cuba. O simpatizante do comunismo Sartre já havia rompido com o partido, ao qual nunca se filiou, e publicado O Fantasma de Stalin, espécie de manifesto de seu anti-stalinismo e ao mesmo tempo de seu anti-imperialismo. “Éramos muito difíceis de classificar. De esquerda, mas não comunistas”, escreveu Simone em A Força das Coisas, terceiro volume de sua autobiografia.

A estadia rendeu um livro, Furacão sobre o Açúcar, publicado no Brasil como Furacão sobre Cuba pela Editora do Autor no mesmo ano, enriquecido com depoimentos de Rubem Braga e Fernando Sabino sobre suas viagens à ilha. Uma jóia que merece reedição. Sartre estava, então, totalmente embevecido com os jovens revolucionários barbudos e cabeludos que haviam tomado o poder na ilha caribenha. Anos mais tarde, em 1971, ele e Simone romperiam com Fidel Castro diante da prisão do poeta Herberto Padilla.

No livro, o filósofo relata suas impressões de um Fidel em princípio desconfiado e mal-humorado, que vai relaxando pouco a pouco, mas que se mantém “um homem difícil de ser enquadrado” –como eles próprios. Sartre também conta como foi seu encontro com o guerrilheiro argentino à meia-noite, quando Guevara ocupava o cargo de presidente do Banco Nacional e ministro da Indústria. Quatro anos depois, Che deixaria Cuba para retornar à guerrilha, primeiro no Congo, sem sucesso, e em seguida na Bolívia, onde é capturado no dia 8 de outubro de 1967. No dia seguinte, é morto.

O que mais chama a atenção no livro é o encantamento de Sartre  com o vigor de Che e dos outros revolucionários, em plena flor da idade. Não deixa de ser melancólico, à luz de hoje, ver que aqueles jovens envelheceram e que o poder não se renovou em Cuba. Talvez seja o mesmo problema que começa a enfrentar o PT hoje… Mas, naquela agradável madrugada de 1960, os ventos que sopravam eram frescos e cheios de esperança. Por eles, Sartre deixaria de lado o cachimbo com o qual sempre é retratado para fumar um “puro” cubano com Che, “o ser humano mais completo de nossa época”.


...

Leia abaixo trechos do relato de Jean-Paul Sartre sobre a viagem e o encontro com Che Guevara que traduzi da versão em espanhol.

O maior escândalo da revolução cubana não é ter expropriado fazendas e terras, mas ter levado garotos ao poder. Havia anos que os avôs, os pais e os irmãos mais velhos esperavam que o ditador quisesse morrer: a ascensão se efetuaria por antiguidade.
Prevendo o dia distante em que o time seria substituído, os partidos corriam de quando em quando o risco de proclamar publicamente sua adesão ao parlamentarismo. Tudo ia bem até que um dia os mais novos tomaram o poder e proclamaram que permaneceriam ali.
Abaixo os velhos no poder! Não vi um só entre os dirigentes: recorrendo a ilha encontrei apenas, em postos de mando, de um a outro extremo da escala, meus filhos –se é possível dizer assim. Em todo caso, os filhos de meus contemporâneos. Os pais nem se percebem: os quinquagenários desta ilha são os mais discretos do mundo.
Loiro e magro, imberbe, com seus 29 anos, o ministro das Comunicações não é o caçula dessa revolução, mas tem a alegria séria dos adolescentes. Isso basta para que seus jovens colegas se divirtam fazendo brincadeiras sobre sua juventude, o que equivale a se surpreender com ela.
Armando Hart tem 27 anos; Guevara e Raul Castro acabaram de fazer 30. Quando não falam dos assuntos públicos são como os demais jovens quando se reúnem: provocam uns aos outros e se percebe em suas palavras que a velhice começa muito cedo –cedo demais, em minha opinião.
(…)
No que me diz respeito, me sentia mais velho entre eles do que em Paris e, apesar de sua extrema amabilidade, temia ao mesmo tempo importuná-los e trair meus contemporâneos.
Já que era necessária uma revolução, as circunstâncias designaram a juventude para fazê-la. Só a juventude tinha a cólera e a angústia suficientes para empreendê-la e a pureza necessária para concretizá-la.
(…)


CHE E FIDEL EM 1960

Em Cuba, a idade preserva seus dirigentes: sua juventude lhes permite afrontar a realidade revolucionária em sua austera dureza. Se têm que aprender, se devem ajudar-se com conhecimentos técnicos, os responsáveis não se dirigem a ninguém: dão um jeito. Ninguém saberá em que setor –geralmente é na vida privada– terão recolhido algumas migalhas de tempo abandonadas; ninguém saberá que aumentam indefinidamente a intensidade de seu esforço para reduzir indefinidamente a duração da aprendizagem.
Mas podemos adivinhar o que não nos dizem. Para citar somente um caso, o comandante Ernesto Guevara é considerado homem de grande cultura e isso se nota; não se necessita muito tempo para compreender que detrás de cada frase sua há uma reserva de ouro. Mas um abismo separa essa ampla cultura, esses conhecimentos gerais de um médico jovem que, por inclinação, por paixão, se dedicou aos estudos das ciências sociais, dos conhecimentos precisos e técnicos indispensáveis a um banqueiro estatal.
Nunca fala sobre isso, a não ser para pilheriar sobre suas mudanças de profissão; mas a intensidade de seu esforço se sente: se trai por todas as partes, menos pelo rosto tranquilo e relaxado.
Para começo de conversa, a hora de nosso encontro era insólita: meia-noite. E no entanto eu tive sorte: os jornalistas e visitantes estrangeiros são recebidos amável e longamente, mas às duas ou três da manhã.
Para chegar a seu gabinete tivemos que cruzar um vasto salão que só tinha móveis encostados nas paredes: algumas cadeiras e bancos. Em um canto havia uma mesinha com um telefone. Em todos os assentos havia soldados derrotados pelo cansaço; uns montavam guarda e outros dormiam, incomodados até no sono pela desconfortável posição.
Detrás da mesa com o telefone, vi um jovem oficial rebelde, praticamente dobrado em quatro, com os longos cabelos negros caídos sobre os ombros, seu boné cobrindo o nariz e os olhos fechados. Roncava suavemente e seus lábios seguravam fortemente a ponta de um charuto apenas começado: o último ato do adormecido havia sido acendê-lo, para se defender das tentações do sono.
Cruzando aquele salão tive, apesar de estar brilhantemente iluminado, a sensação de que havia subido num trem antes do amanhecer e penetrado num compartimento adormecido. Reconhecia os olhos avermelhados que se abriam, os corpos dobrados ou retorcidos, extenuados, o incômodo noturno. Eu ainda não estava com sono, mas através daqueles homens sentia a densidade das noites mal dormidas.
Uma porta se abriu e Simone de Beauvoir e eu entramos: a impressão desapareceu. Um oficial rebelde, coberto com uma boina, me esperava. Tinha barba e os cabelos longos como os soldados da ante-sala, mas seu rosto liso e disposto me pareceu matinal. Era Guevara.
Saíra do banho? Por que não? O certo é que começara a trabalhar cedo na véspera, almoçado e comido em seu escritório, recebido visitantes e esperava receber outros depois de mim. Escutei que a porta se fechava às minhas costas e me esqueci do cansaço e da noção da hora. Naquele escritório não entra a noite; para aqueles homens em plena vigília, ao melhor deles, dormir não parece uma necessidade natural, mas uma rotina de que praticamente se livraram.
Não sei quando descansam Guevara e seus companheiros. Suponho que depende, o rendimento decide; se cai, param. Mas de todas as maneiras, se buscam em suas vidas horas vagas, é normal que as arranquem aos latifúndios do sono.
Imaginem um trabalho contínuo, que compreende três turnos de oito horas, mas que faz 14 meses que é realizado por uma só equipe: eis o ideal que quase alcançaram aqueles jovens. Em 1960, em Cuba, as noites são brancas: ainda se distinguem dos dias; mas é só por cortesia e consideração ao visitante estrangeiro.
Mas apesar de suas extremadas considerações, não podiam fazer outra coisa que reduzir ao mínimo possível as horas imbecis que eu dedicava ao sono: ia dormir muito tarde e me acordavam muito cedo. Eu não o sentia: pelo contrário, com frequência me chateava, por tarde que fosse, ir dormir quando eles velavam, ainda que tivessem acordado cedo; por saber que me haviam precedido em várias horas. É que era impossível viver naquela ilha sem participar da tensão generalizada.
Aqueles jovens rendem à energia, tão amada por Stendhal, um culto discreto. Mas não ache que falam dela, que a convertem em teoria. Vivem a energia, a praticam, talvez a inventem; ela se comprova em seus efeitos, mas não em palavras. Sua energia se manifesta.
Para manter dia e noite a alegria limpa e clara da manhã em seu gabinete e em seu rosto, Guevara necessita de energia. Todos a necessitam para trabalhar, mas mais ainda para apagar, à medida que se apresentam, as pegadas do trabalho e as marcas do sono. Não se recusam a falar de seu nervosismo, mas não o deixam mostrar-se: levam o controle de si mesmo até parecer, ou melhor, até sentir-se tranquilos. As coisas vão tão longe que empregam essa energia, convertida em sua segunda natureza, para tiranizar seu temperamento.
Fazem o necessário, todo o necessário, mais que o necessário; até o supérfluo. Já disse que desprezavam o sono; é necessário; por outro lado, não suportariam –e eu o concebo também– que se ocorresse uma agressão fossem surpreendidos na cama. Quem não os compreenderia? Quem não compreenderia que a angústia e a cólera diante dos atentados e sabotagens os mantém despertos mais de uma noite?
Mas eles vão além: quase chegam a repetir a frase de Pascal: “é preciso não dormir”. Se diria que o sono os abandonou, que também emigrou a Miami. Eu só vejo neles a necessidade de ficarem despertos.

(…)

FIDEL, SIMONE E SARTRE



De todos esses noctâmbulos, Castro é o mais desperto; de todos esses jejuadores, é Castro quem pode comer mais e jejuar mais tempo.
Falarei de sua loucura: a sorte de Cuba. Mas, de todas as maneiras, os rebeldes são unânimes nisso: não podem pedir esforços ao povo se não são capazes de exercer sobre suas próprias necessidades uma verdadeira ditadura. Trabalhando 24 horas seguidas e mais; acumulando noites insones; mostrando-se capazes de esquecer a fome, fazem retroceder para os chefes os limites do possível. Semelhante triunfo provisional: essa imagem, presente em todas as partes, da revolução atuando sempre, alenta aos trabalhadores da ilha a liquidar definitivamente o fatalismo e a conquistar-se todos os dias, sobre o velho inferno irrisório da impossibilidade.
(…)
Levando as coisas ao limite, se poderia dizer que o rebelde obriga o agressor a escolher entre duas derrotas: ou o reembarque das tropas ou o genocídio. Qual é a pior? Ofereço à escolha. Sob o ponto de vista rebelde, dou como exemplo essas palavras de Castro:
– O bloqueio é a arma menos nobre: se aproveita da miséria de um povo para submetê-lo pela fome. Não aceitaremos isso –prosseguiu. Nos negamos a morrer nessa ilha sem levantar um dedo para nos defendermos ou para devolver os ataques…
– Que fariam vocês? –perguntei.
Sorriu tranquilamente:
– Se querem começar pelo bloqueio – respondeu –, não podemos impedi-los. Mas podemos fazer que o abandonem pela verdadeira guerra, pela agressão a mão armada –e o faremos, garanto. Mais vale morrer ferido na guerra do que de fome em casa.



O mal só pode ser vencido por outro mal.



Sartre: liberdade e compromisso

Texto de Franklin Leopoldo e Silva - Professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, autor de Bergson – Intuição e discurso filosófico (Ed. Loyola) e Descartes – A metafísica da modernidade (Ed. Moderna). Publicado na revista Cult, em 12 de março de 2010

De todas as relações que se possa estabelecer na filosofia de Sartre, talvez não se possa apontar alguma mais íntima do que aquela que se dá entre liberdade e engajamento. Essas duas noções e a relação entre elas estão na base da própria definição sartreana de existência e, nesse sentido, desempenham função nuclear na filosofia existencial. Para percebê-lo, basta lembrar como ambas podem ser vistas enquanto explicitação do dístico emblemático do existencialismo, seu verdadeiro lema: a existência precede a essência.

A recusa da concepção tradicional, segundo a qual o homem possuiria uma essência dada a priori (animal racional, por exemplo), implica a aceitação de que o ser humano primeiramente surge na sua radical espontaneidade e depois se define, se faz aquilo que vem a ser. O primado da existência significa precisamente esse ato de projetar-se, de lançar-se à frente de si mesmo, de fazer-se e de assumir-se no mundo por via da realização de alguma possibilidade. Tudo isso está contido na acepção de liberdade originária, espécie de grau zero da realidade humana entendida fundamentalmente como existência. Não se trata, como se pensava na tradição filosófica, de compreender a liberdade como uma faculdade humana, disposição ou capacidade para agir livremente. O caráter absolutamente originário da liberdade nos leva a entender que ela não é algo que o homem tenha, e sim algo que ele é. Ora, sendo antes de tudo liberdade, o homem não é propriamente nada além das possibilidades de ser. É isso que o distingue das coisas e dos animais: não poder ser concebido na sua integridade essencial antes que o processo contingente de existir o leve a assumir por si mesmo um projeto de existência que tentará realizar como um modo de ser no mundo.

Por isso, O ser e o nada, o tratado de ontologia fenomenológica que Sartre publica em 1943, elucida principalmente três noções centrais na filosofia da existência: possibilidade, projeto e contingência. Dizer que o homem é o ser dos possíveis significa pensá-lo a princípio unicamente como abertura a todas as possibilidades, já que não traz em si antecipadamente nenhuma determinação. Assumir livremente alguma dessas possibilidades significa projetar um modo de existir e projetar-se na existência, num tipo de experiência em que a realidade humana se define muito mais como futuro do que como passado ou presente. Essa projeção antecipatória de si mesmo implica que o homem vive, sobretudo, fora de si, à frente de si, vindo a ser aquilo que poderá fazer de si mesmo a partir de um projeto de existência. Ora, como o homem pode assumir qualquer possibilidade, já que não está determinado para alguma em particular, isso significa que todas são igualmente contingentes, isto é, nenhuma o atrai mais do que outra, não está necessariamente determinado a assumir alguma dentre elas.

Vê-se como a liberdade originária, tal como é concebida por Sartre, só pode realizar-se a partir da escolha radical de um projeto a ser assumido num mundo contingente. A fenomenologia da existência desenvolvida em O ser e o nada faz da liberdade um tema de ontologia e não de psicologia, porque a compreensão fundamental da realidade humana só pode acontecer em termos da elucidação de um processo, em que as condutas humanas, fenomenologicamente desvendadas, constituem-se progressivamente como elementos de revelação dessa peculiaridade: o homem não é algo dado como uma natureza, mas vem a ser aquilo que se faz no devir da existência. Assim, a filosofia da existência supõe uma atitude interrogativa que nos afasta de qualquer ideia, natural ou metafísica, que se possa colocar como pressuposto explicativo do que seja o homem.

Mas essa fenomenologia da existência só pode atingir o processo concreto de existir se a análise levar em conta as configurações efetivas de possibilidades em que se dá a escolha existencial pela qual o homem se faz projeto. Esse ajuste do projeto existencial a um dado contexto de possibilidades é definido como situação, outra das noções fundamentais que já aparece no tratado de ontologia fenomenológica. A situação é a demarcação concreta do exercício da liberdade, isto é, da escolha e do projeto. Por isso Sartre diz que a liberdade é sempre situada, e que a situação é a configuração real da abertura originária da realidade humana aos possíveis. É esse ajuste fenomenológico que faz com que a liberdade não seja uma categoria transcendental ou uma idéia reguladora, mas um exercício real de construção processual de si mesmo. É a consideração primordial do processo de existir que faz com que a liberdade, mesmo pensada como espontaneidade radical, não se exerça no vácuo, mas no denso universo de possibilidades, que não devem ser compreendidas simplesmente como princípios de ação, mas como que formando a teia complexa de tudo aquilo que devo afirmar e negar, aceitar e recusar, superar e evitar, transpor e contornar, na sucessão de atos concretos em que cada um se faz ser.

A essa variedade complexa que constitui o entorno mundano da subjetividade livre Sartre denomina facticidade. É algo que supera o sujeito porque cada um de nós, ao surgir no mundo, já encontra um mundo, isto é, um conjunto de fatos dados em que nos inserimos, mas que nos precede e nos transcende: família, sociedade, ambiente histórico, condição social etc. Desde fatores de ordem pessoal até condições gerais de ordem histórica, há todo um conjunto de fatos que constituem para cada sujeito a sua situação. Agir significa, em grande parte, reagir a tudo isso. E assim a liberdade é inseparável das condições concretas do seu exercício. Eis um ponto a propósito do qual é necessário enfatizar que o existencialismo sartreano, longe de propor uma liberdade que seria pura e simples fruição da espontaneidade da consciência, nos faz defrontar com o trabalho duro de vencer a adversidade, num enfrentamento difícil de tudo aquilo que temos de superar para realizar autenticamente um projeto livre de ser.

A noção de facticidade leva-nos ao engajamento ou ao compromisso. Diríamos que, primeiramente, não se trata tanto de assumir um compromisso quanto de reconhecer que estamos irremediavelmente comprometidos. E aqui a posição de Sartre faz eco ao que Pascal formula na sua famosa aposta: não se trata de escolher se apostamos ou não; estamos engajados e é a partir daí que se dá qualquer escolha. Como nascemos sempre num dado contexto real e concreto, já estamos, somente por isso, comprometidos com ele, isto é, com o mundo no qual temos de viver. Ainda que venha a optar pelo quietismo e pela indiferença, tais atitudes não deixam de representar a maneira pela qual respondo às solicitações do meu mundo, da minha época, da minha classe e, portanto, a forma como me comprometo com os problemas do meu tempo.

O primeiro texto em que essas questões aparecem explicitadas de modo diretamente histórico é Que é a literatura?, de 1947. Mas não é nesse livro, cujo tema é o engajamento do escritor, que tais questões surgem pela primeira vez, posto que já em O ser e o nada os problemas da relação entre liberdade e facticidade estavam presentes como indagações fundamentais. Ora, o compromisso é, por assim dizer, uma espécie de noção mediadora entre liberdade e facticidade, posto que representa de algum modo a decisão tomada a respeito de como devo lidar com os fatos. Assim, os elementos da facticidade, que pesam sobre mim com a força das determinações, não são irremediavelmente determinantes: tudo depende da conduta que cada um assume em relação a eles. Por isso Sartre insiste na contingência do mundo histórico; ninguém está predeterminado a qualquer coisa, por mais fortes que sejam os fatos que configuram uma situação. Eu sou aquilo que faço com o que fazem de mim. O contexto familiar, a condição de classe, a formação cultural, a herança histórica, tudo isso pesa sobre o indivíduo; mas esse indivíduo é sujeito de sua história e da História. Se tudo isso vier a determiná-lo, como se ele fosse passivo, é porque ele se terá feito passivo e determinado; terá sido uma escolha, porque, de tudo o que nos constitui, a única coisa que não podemos escolher é deixar de ser livres. Daí a célebre frase: o homem está condenado a ser livre. Isso significa que, por mais que procuremos mascarar a liberdade, nunca poderemos esconder de nós mesmos o movimento livre pelo qual nos disfarçamos com a máscara da determinação.

Ora, é um e o mesmo o movimento pelo qual alguém se coloca tal máscara e aquele pelo qual os outros a colocam nele. A opressão e a dominação econômico-política são os meios pelos quais os homens levam outros homens a assumirem a condição de coisa, a alienarem a própria humanidade. A partir de 1947, vai acentuando-se em Sartre a preocupação com a liberdade histórica, o que no contexto do capitalismo significa a preocupação com a alienação. Num primeiro momento, que vai até 1956, isso significou caminhar ao lado do PC francês, algo que representava muito mais uma aliança tática do que uma coincidência de pensamento. Depois da ruptura, marcada pela intervenção soviética na Hungria, seguiram-se as críticas ao Partido e ao marxismo oficial, que Sartre via como dogmático e mecanicista. Em 1960, a publicação de Questão de método esclarece, em pormenor, o que Sartre entende por esterilização doutrinal da Dialética entre os marxistas e a compatibilidade entre o existencialismo e o materialismo histórico, desde que este último seja entendido como o estabelecimento de uma relação verdadeiramente dialética entre subjetividade e história.

A partir daí, toda a vida de Sartre constituiu uma confluência entre o homem e a obra como raras vezes se pôde constatar. E isso aconteceu porque a figura do filósofo tornou-se uma espécie de encarnação do compromisso, sem que ele tivesse por isso de recuar um milímetro sequer em sua liberdade. A guerra da Argélia e o colonialismo, a condição do proletariado e a repressão, o imperialismo e a guerra do Vietnã, o racismo e a intolerância política: contra todas as desgraças que pontuaram a segunda metade do século 20, Sartre elevou a sua voz e exercitou sua escrita, na França e nos movimentos internacionais. Foi acusado de radicalismo e de inconse-qüência por aqueles que não souberam perceber que tudo isso não era senão a continuidade prática de um outro radicalismo, enunciado muito antes e ao qual nunca deixou de ser fiel: a liberdade radical e o engajamento completamente conseqüente.

Mas certamente o que está na raiz daquelas acusações é a incapacidade de perceber que, entre a liberdade existencial e a liberdade histórica, entre o projeto subjetivo e o compromisso objetivo, a continuidade se faz por via do substrato ético da filosofia de Sartre, algo que sempre esteve presente no seu pensamento e na sua ação, e que é absolutamente intrínseco ao rigorismo moral do seu existencialismo. Já na conferência de 1946, “O existencialismo é um humanismo”, esse rigorismo extremado se punha às claras por meio da insistência na relação entre a livre instituição dos valores imanentes à escolha e a responsabilidade aí inerente. O que então foi criticado como variante do subjetivismo já era a proposta de pensar a tensão entre o sujeito e a história, bem como a responsabilidade ética do agente histórico.

Essa tensão e essa responsabilidade ajudam-nos a compreender tudo aquilo que deixou perplexos os bem-pensantes, os dotados do “espírito de seriedade” e de outros atributos que constituem a má-fé, moral e intelectual. As passeatas, a distribuição de panfletos, os discursos em porta de fábrica, os jornais maoístas: a liberdade do compromisso, o compromisso da liberdade; o reconhecimento de que estamos engajados e de que é impossível não se comprometer com o seu tempo. A grande lição, que Sartre por convicção não aceitaria dar, mas que podemos extrair da sua conduta filosófica, ética e política, é que o indivíduo somente sai de sua particularidade abstrata para atingir a universalidade concreta do humano quando reconhece o lastro histórico que enraíza a subjetividade na generosidade.


A vida é o pânico num teatro sem chamas.



"Os dias mais recuados de sua infância, o dia em que dissera: "Serei livre", o dia em que dissera: "Serei grande", apareciam-lhe, ainda agora, com seu futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal e qual era agora, cansado e amadurecido.
Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham suas exigências, e ele tinha amiúde remorsos abafantes, porque o seu presente negligente e cético era o velho futuro dos dias passados.
Era a ele que eles tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre, ou se tornassem os primeiros sinais de um destino.
Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha um novo futuro; de espera em espera, de futuro em futuro, a vida dele deslizava docemente... em direção a quê?"




"Os homens. É preciso amar os homens. Os homens são admiráveis. Sinto vontade de vomitar – e de repente aqui está ela: a Náusea. Então é isso a Náusea: essa evidência ofuscante? Existo – o mundo existe -, e sei que o mundo existe. Isso é tudo. Mas tanto faz para mim. É estranho que tudo me seja tão indiferente: isso me assusta.
Gostaria tanto de me abandonar, de deixar de ter consciência de minha existência, de dormir. Mas não posso, sufoco: a existência penetra em mim por todos os lados, pelos olhos, pelo nariz, pela boca…
E subitamente, de repente, o véu se rasga: compreendi, vi. A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas já não estou submetido a ela, já não se trata de uma doença, nem de um acesso passageiro: a Náusea sou eu."





“O homem simplesmente é. Não que ele seja simplesmente o que se considera ser, mas é o que quer ser, e como se concebe depois de já existir – como quer ser depois desse salto para a existência. O homem nada mais é do que aquilo que ele faz de si mesmo”


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