Sexta, 12 de dezembro de 2025

 

NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo





JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26.




- José Custódio de Sá e Faria –
Fundador de Taquari e sexto governador da
Capitania do Continente do R. G. de São Pedro


Caros amigos leitores desta cesta cultural e histórica semanal, grande parte dos municípios, ou a maioria, tem um fundador.

Alguns poucos anos atrás, a nossa coirmã Lajeado, a partir de um responsável trabalho de pesquisa histórica cometido pelo meu colega professor Alfredo Schierholt, aponta para a oficialização do nome do taquariense Antônio Fialho Vargas, como o fundador, em março de 1855, deste belo município do Vale do Taquari




E nós, taquarienses, ‘Habemus’ fundador?
Sem dúvida, temos sim, é o coronel José Custódio de Sá Faria. Inclusive eu o aponto na página 22 da minha monografia São José de Tebiquary. Ali no livro, como há um contexto, não há muita necessidade de explicações. Mas aqui, neste espaço, eu o farei, ou tentarei fazer.
Explico e justifico.
O nosso estado só passa a existir, como uma unidade administrativa da colônia brasileira, em 19 de fevereiro de 1737, quando da fundação do Forte/Presídio de Rio Grande, e, em consequência, do povoado do Rio Grande, o primeiro povoado do nosso estado.
O fundador foi o brigadeiro José da Silva Pais, que acabou sendo o nosso primeiro governante, ou comandante militar, pois iniciamos nossa existência  como uma simples Comandância Militar, status mantido até 1761, quando então nos tornamos uma Capitania.
Em 1763 (um ano antes da fundação do povoado de Taquari, o sexto povoado do nosso estado) quem governava a nossa então capitania já há algum tempo era o coronel Inácio Elói Madeira.
E, nesse ano, ocorreu a inditosa invasão do sul do Brasil quando o governador de Buenos Ayres dom Pedro de Ceballos, liderando numerosa tropa, invade e toma a fortificação de São Pedro, em 18 de abril de 1763 – a porta de entrada da capitania de São Pedro do Rio Grande.
(Um dos grandes prejuízos que essa inditosa invasão provocou ao nosso estado foi a vandalização cometida pelos soldados arruaceiros espanhóis dos documentos/registros guardados nos arquivos da Câmara de Vereadores da cidade de Rio Grande, à época, sede/capital da nossa então Capitania. Todos esses registros históricos, que não possuíam duplicidades nos arquivos da sede do vice-reinado no Rio de Janeiro, foram, tragicamente,  perdidos!)
E é a partir dessa tragédia que os eventos conspiram para a formação do  povoado de Taquari, ou melhor, Tebiquary.
O governador coronel Inácio, junto com seus soldados e parte da população local, foge dos espanhóis e vem para Viamão – em cuja câmara se instala a nova sede provincial.
Como esse coronel governador não gozava mais das simpatias do vice-rei conde da Cunha, ele é substituído pelo coronel Custódio, à quem caberá organizar as defesas da capitania.
Custódio está no Rio de Janeiro.


Detalhe do Relatório de José Custódio de Sá e Faria, referente à expedição ao Iguatemy, em 1774. Original pertencente à Mapoteca do Itamaraty-RJ. Fonte: BUENO, Beatriz. Do borrão às aguadas. Anais do Museu Paulista, v. 2, 2009. 

Ele então embarca e consegue chegar a Viamão, onde, em 16 de junho, toma posse como governador provincial.
Uma das suas primeiras decisões é organizar a defesa da nossa terra.
Então ele decide fundar duas fortificações, e uma delas é num passo do rio Tebiquary.
Junto aos soldados, ele manda vir os 60 casais açorianos. Isso ocorre por volta de aproximadamente meados do mês de julho de 1764.
Essa fortificação, em terra batida e com vinte canhões, foi executada a partir de um mapa detalhado e colorido (esta relíquia histórica está sob a guarda do Arquivo do Exército – Rio de Janeiro).
O local exato da fortificação ainda não é conhecido, mas com esse mapa, vontade política, e um grupo determinado de especialistas, creio ser possível determiná-lo.
Portanto, sem dúvida, Taquari é fundada por ordem do coronel José Custódio de Sá Faria.
Com isso, aproveito e provoco nossos historiadores locais para que criemos algo que marque, destaque esse eminente nome. Uma rua, um ginásio, uma praça com seu nome vai bem, mas o melhor mesmo é que nossos edis oficializem o nome desse coronel Custódio como FUNDADOR de Taquari.
Une petite bio,
Nascido em Portugal, em local não precisado, por volta de 1723, e falecido em Buenos Ayres, Argentina, em 08 de janeiro de 1792, esse importante e decisivo personagem da fundação de Taquari e, mais ainda, de todo o território que hoje abrange o Sul do Brasil, a Argentina e o Uruguai, foi quase tudo em sua laboriosa vida: engenheiro militar, cartógrafo, arquiteto, geógrafo e administrador colonial.
Foi, como acima descrito, um laborioso governante da nossa capitania quando da invasão dos castelhanos de Ceballos.
Com aproximadamente 22 anos, formou-se na Academia Militar das Fortificações de Portugal em 1745; partiu de Lisboa para o Brasil em 1751 como integrante da comissão de demarcadores do Tratado de Madri – que havia sido lavrado um ano antes, em 1750
Essa comissão, designada pelo Vice-Rei do Brasil, Gomes Freire de Andrade, teria a importante tarefa de assentar os limites ultramarinos das possessões dos reinos de Portugal e Espanha.
Executados os trabalhos no Sul, ele volta ao Rio de Janeiro em 1759, substituindo o próprio Gomes como governador da Capitania.
Quando veio, era somente um sargento-mor, mas dez anos após, em 1760, devido aos seus trabalhos magnificamente executados (entre outros feitos cartográficos, preparou os dois mapas que ornariam a ‘História Topográfica e Bélica da Nova Colônia do Sacramento’, somente publicada em 1900), teve confirmada a patente de tenente-coronel, dada provisoriamente por Gomes em 1756, pelas autoridades da Corte.
José Custódio comandava um regimento de infantaria na capitania do Rio de Janeiro quando nova e grave crise eclode no sempre turbulento Sul: tropas castelhanas, lideradas pelo governador de Buenos Ayres Dom Pedro de Ceballos, invadem e tomam a fortificação de São Pedro, a porta de entrada da capitania.


Representação do Rio Grande de São Pedro em 1763, por Sá e Faria.


Custódio é então nomeado governador-militar assumindo, na câmara de Viamão, em 16 de junho de 1764, o pesado encargo de limitar o avanço desses inditosos castelhanos.
(Eis a razão pela qual Taquari somente foi fundada, estima-se, em julho de 1764. Antes era impossível, pois o homem que decidiu fundar a tranqueira às margens do Rio Tebiquary, só assumiu seu cargo de governador, como já dito e amplamente documentado, em 16 de junho de 1764.)
Mas, em política as coisas nunca são simples, um pesado opróbrio desaba sobre sua cabeça.
Em 18 de maio de 1767, ele tentou reconquistar a fortificação e Vila de Rio Grande em, é o que parece, desacordo às ordens emanadas pela corte na Metrópole.
Esse homem, valoroso homem, foi apeado do governo, preso e substituído pelo brigadeiro José Marcelino de Figueiredo, isso em 1769.
Somente escapou de ser enviado a Lisboa, para ser  julgado, visto ter sido defendido pelo vice-rei, conde da Cunha, cujas ordens secretas Custódio apenas as executara.
Além de militar conspícuo e um cidadão de elevado espírito patriótico, era também possuidor de vasta erudição como comprovam seus trabalhos legados à história.
Entre 1772 e 1775, já brigadeiro, atuou em São Paulo e em Mato Grosso. Em 1776, com a iminência de uma nova ação espanhola no sul do continente, mais uma vez sob os auspícios do determinado Dom Pedro de Ceballos, seu velho conhecido, o velho militar torna à ilha de Desterro e ao continente de Santa Catarina, cobiçados agora do general espanhol.
Os portugueses acabam derrotados, cabendo ao brigadeiro assinar a rendição das suas tropas. Submetido ao ódio do Marquês de Pombal, que o ameaça publicamente de execução, deserda do seu posto, tendo seus bens (todos) confiscados e vendidos em hasta pública.
Mesmo sendo depois absolvido em Conselho de Guerra, viveu o resto da sua vida em terras espanholas, mais precisamente em Buenos Aires, onde em pouco tempo torna-se o arquiteto e urbanista mais importante da região.
Sobre ele, escreve Ceballos, seu antigo inimigo e que o acolheu na desgraça: “não há nas duas nações que haja visto e reconhecido como ele, nem tenha seu conhecimento dos confins de ambos os domínios neste continente.”
Está enterrado, o fundador de Taquari, no Convento de Santo Domingo, em Buenos Ayres.
Tenho um amigo argentino, o eng, Falconi, de Buenos Ayres, que, a pedido meu, visitou o cemitério e me retornou: ‘... posso entrar em contato com o pessoal encarregado das visitas na igreja para tentar conseguir informações adicionais, Na verdade vejo várias paredes onde seria possível colocar-se uma placa comemorativa do José Custódio. Nunca estive nessa rua, mas gostei do lugar que está muito arrumado, estilo colonial...’
Post scriptum,
Este meu texto acima foi escrito originalmente há uns sete anos, e tinha como objetivo incentivar, dar subsídios, para que as autoridades municipais da minha Taquari honrassem a biografia do José Custódio de Sá e Faria como fundador de Taquari.
Houve êxito.
Por Lei Municipal da lavra da Câmara de Vereadores, sancionada pelo prefeito municipal, José Custódio de Sá e Faria é oficialmente "Fundador de Taquari".
Como prova da sua elevada importância e valor, os pesquisadores e historiadores Luisa Durán Rocca e Ramón Gutiérrez escreveram e editaram o livro/documento – lindíssimo – JOSÉ CUSTÓDIO DE SÁ E FARIA – Um engenheiro na América além das fronteiras, editado pela UFRGS, em 2020, e no qual, pra minha honra, tenho uma pequena contribuição.

21 comentários:

  1. Grande cesta! só uma dúvida, São Borja foi povoada pelos jesuítas em 1682 de forma permanente.

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    1. Sim, sem dúvida, mas não caracteriza o que classicamente os historiadores chamam de 'povoado' . Era uma redução Jesuítica, um núcleo habitacional de indígenas falantes do guarani, e de jesuítas falantes de espanhol e também guarani. Mas a história não é igual a matemática em que 2 + 2 sempre será 4. Pode que haja uma revisão e alteremos a ordem, colocando São Borja como 1º povoado do nosso Continente da Província do Rio Grande.
      Obs: também alguns apontam São Miguel ainda anterior a São Borja, mas, voltemos, 'redução/missão' é diferente de 'povoado'.

      No sistema administrativo português a ordem era: marco; feitoria, arraial; povoado, freguesia; vila, município.

      Abraços

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  2. Muito bom artigo. Sabe do que mais sinto falta, sr. JP? De uma "História Geral do RS". Os historiadores normalmente fazem bons trabalhos a respeito de episódios do RS, mas não parece haver algum que condense toda a nossa história de forma satisfatória. Ou estou desinformado?

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  3. Caro Prévidi, muito legal a tua editoração, parabéns ao amigo!

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  4. Incansável João Paulo da Fontoura. Taquari deixa de ser órfã. Que belo trabalho de historiador. Ser teu amigo me honra. Parabéns, imagino no futuro ver o teu nome numa rua, numa praça, numa escola.

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    1. Sim, concordo plenamente. Na minha opinião, o melhor livro de história do Rio Grande do Sul é da lavra do Riograndino da Costa e Silva, editado em 1970, - por aí, muito bem pesquisado, profundo, ótimo. Ele aponta, e cita nominalmente - se não me engano - 41 nomes diferente que nosso Rio do Sul já teve.

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  5. Foi-se uma das únicas alegrias que os "patriotas" ainda desfrutavam, que vida cruel snif, snif...

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  6. Na hemodialise, lendo esse belo texto. Parabéns, professor.

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  7. SBT "Lulou" e fez um dos teatros mais patéticos da impren$$$a dos últimos tempos. Que vergonha virou esse país!

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    1. Sem dúvida. O canal vai ser mais do mesmo, com parca audiência e mamando em verbas estatais.

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    2. Mas o falecido Silvio Santos sempre bajulou os presidentes que estivessem de plantão no Palácio do Planalto.
      Nos tempos da ditadura, ele tinha um pequeno boletim: "A Semana do Presidente". Sempre bajulando o poder.
      As herdeiras de Silvio Santos, no caso as suas filhas, não estão fazendo nada diferente...

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    3. Os militares inicialmente não queriam conceder um canal de TV a um artista, e Sílvio Santos teve que convencê-los do contrário propondo algumas compensações. Uma das contrapartidas foi a tal "Semana do Presidente". Ora, convenhamos, aquilo nem de longe se comparava à sabujice que hoje impera nesse vergonhoso consórcio midiático.

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  8. O SBT e a turna do SS ajoelhou e sentou na graxa para a quadrilha na sexta-feira com a nauguração da TV News do grupo.

    Bem antes disso, a linha editorial do principal noticioso da empresa já havia sucumbido, descia a ladeira do bom jornalismo e se transformara em sabujice explícita.

    Viúva e filhas do Sílvio eram só sorrisos, afagos e afetos ao Barba, à Janja et caterva.

    Pobre, país!!!!!

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  9. SBT News, cuja estrela é o apagado refugo Globo/Record Celso Freitas, imaginem, será audiência traço, é certo.

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    1. Junte o grupelho de jornalistas canhoteiros e está feita a caricatura de canal de notícias. Não parecem estar preocupados com audiência, e sim com as verbas de governo.

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  10. Uma bela História, onde se verifica o valor moral que predominava na época.
    Um herói derrotado, enxovalhado por seus pares e superiores por ter sido derrotado, é enaltecido pelo Comandante adversário que soube reconhecer seus méritos.
    Nossa História tem inúmeros episódios que mereceriam melhor estudos e dariam roteiros para excelentes filmes culturais. Infelizmente o foco de nossa cultura é voltado para a desconstrução do nosso passado.

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  11. O finado Pai sempre falava que SS participava de sessões de tortura.Eles sentava e ficavam observando os milicos torturaram os prisioneiros.

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    1. Desrespeitou a memória do SS e do próprio pai num comentário.

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