NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
Napoleão Bonaparte
- 205 anos de sua morte -
Um homem sem convicções, sem costumes, sem tradições, sem nome, nem mesmo francês, pelos mais estranhos caprichos do acaso, como parece, levanta-se sobre as classes dominantes da França, e, sem ligar pessoalmente a nenhuma delas, avança até uma posição preeminente.
LEON TOLSTÓI
Napoleão, o corso, é um dos personagens da história que mais curto, que mais coisas sobre ele já li, já ouvi, já vi (cinema, peças de teatro), etc.
Não consigo gravar número do meu celular nem mesmo do cpf, conta bancária, data de aniversários de esposa , filhos, nada. Mas, brinco: o Napoleão Bonaparte nasceu em 15 de agosto de 1769, o J.F. Kennedy nasceu em 29 de maio de 1917, o ...
Não me orgulho disso, mas fazer o quê?
A meu favor, recentemente vi algures na internet que alguém havia perguntado ao Albert Einstein sobre uma informação básica, bem simples, da Tabela Periódica e ele não soube responder. "Mas, professor, como o senhor que é uma das mentes mais fértil que existe não sabe isso?". Resposta do pai da Teoria da Relatividade: "Mas esta informação eu a acho em qualquer livro!". Fiquei aliviado, parece que sou normal!
Resolvi escrever algumas palavras sobre esse grande personagem da história mundial, alertado por um aviso via whatsApp de que o programa ‘5 a 7’ da rádio Mais Brasil apresentaria no dia 12 um especial com o professor Marçal de Menezes, da nossa PUC, sobre os 205 anos de sua morte em 5 de maio de 1821. Claro que assisti o programa – integralmente –, muito bom, e com o ótimo historiador e professor Marçal.
Napoleão é ainda, talvez, o personagem de maior destaque na história da humanidade de todos os tempos, pelos eventos a ele associados e por sua forte personalidade.
Desde sua morte na ilha de Santa Helena (ilha inglesa no meio do oceano Atlântico), em 1821, já foram publicados mais livros do que os dias transcorridos desde sua morte até hoje, fala-se de 60 a 300 mil livros.
Em termos de cinema, também ninguém o bate, pois os números estimam até 200 produções desde o épico mudo de 1927 "Napoleão", sendo que o último foi uma grande sucesso de bilheteria – também titulado "Napoleão", dirigido por Ridley Scott e estrelado por Joaquin Phoenix.
Óperas e peças de teatro baseadas em sua vida são contadas às centenas. Além dos livros biográficos, também temos produções literárias como, por exemplo, a maior de todas, ‘Guerra e Paz’, obra do russo Liev Tolstói, 1.200 páginas, romance histórico baseado na invasão napoleônica à Rússia em 1812.
Em termos musicais, Napoleão continua ‘pop’, mas também ‘clássico’, pois inspirou o russo Tchaikovsky a compor a magnífica ‘1812 overture’, a única música do universo clássico que utiliza além dos violinos, flautas, oboés, pianos, violoncelos, etc, tiros de canhão!
Quem curte marchinhas de carnaval ou quem nasceu no correr da década de 1960 deve lembrar do megassucesso cujo refrão dizia:
Napoleão era o tal na briga,
Escondia a mão e coçava a barriga.
Oba, oba,oba,
Napoleão também tinha a mão boba!’.
Mesmo com o aparecimento depois da sua morte de outros grandes personagens como, exemplos, O.V. Bismark; Mussolini, Hitler, Roosevelt, Stalin, J.F. Kennedy, Napoleão continua, ao menos na opinião deste escrevinhador, sendo ‘REI’.
No livro "As 100 Maiores Personalidades Da História", do americano Michael H. Hart, editado em 1992, o general e imperador francês posiciona-se como 34º. Acho que sua importância é maior, pois, só a venda da Louisiana aos Estados Unidos, em 1803, onde hoje estão os estados: Louisiana, Iowa, Missouri, Arkansas, Nebraska, Dakota do Sul, parte de Oklahoma, Kansas, Dakota do Norte, Montana, Wyoming, Colorado e Minnesota, permitiu que os americanos, como uma nação enorme, tivessem a possibilidade de chegar ao Pacífico e de se tornar, com seus 50 estados, a maior nação do mundo. Sem os Estados Unidos ‘grande e poderoso’, eu afirmo que a história da 2ª Guerra Mundial teria certamente um final completamente diferente; e o mundo que habitamos, idem.
(Nem vou discutir a questão da mudança da geopolítica da Europa a partir da derrubada do Sacro Império Romano-Germano em 1806; da reorganização do mapa europeu em 1815 (após a derrota definitiva de Napoleão) com o Congresso de Viena; das sementes da instabilidade lançadas às monarquias, mesmo que vencedoras, e que acabaram com a criação da Alemanha em 1866, a partir da Prússia; das mudanças na geografia aqui na nossa América espanhola, com a criação de estados independentes, a partir da tomada da Espanha, em 1808, por Napoleão que entregou o trono espanhol a seu irmão José; e até mesmo com a mudança de status do nosso Brasil com a vinda da família real portuguesa também em 1808, fugindo dos exércitos napoleônicos, quando passamos, de uma simples e atrasada colônia, a ‘Reino Unidos a Portugal e Algarves’, logo após,já em 1815; e por fim na universalização do Código Napoleônico, ou Código Civil Francês.)
Nasce uma águia europei
Napoleão nasceu em 15 de agosto de 1769, em Ajaccio, capital da Córsega, uma ilha situada no Mediterrâneo, ilha esta que por muitos anos foi governada por Gênova, uma cidade estado da Itália, mas que a vendeu à França por volta de 1768, um anos antes do nascimento de Napoleão, mas que na verdade foi uma anexação feita a partir do Tratado de Versalhes, o que era comum à época, questão do mais forte se impor, pois a ilha estava a apenas 80 km do litoral italiano e quase 200 do sul da França.
Foi o segundo filho do casal italiano Carlo Maria Buonaparte e Letizia Ramolino, dos filhos do casal, oito chegaram à idade adulta.
Não eram pobres, pois seu pai era advogado formado em Pisa e conselheiro municipal (espécie de vereador), ou seja, era uma figura de destaque na elite local e representava a ilha junto ao governo francês. Seu pai morreu relativamente jovem, 38 anos, quando Napoleão tinha 16 anos, o que criou dificuldades para sua família.
Como Conselheiro, Carlo tinha o privilégio de colocar seus filhos em escolas gratuítas na França.
Com 10 anos, o jovem córsego foi aceito na Escola Militar de Brienne, no norte da França. Não foi fácil para o garoto, franzino, discriminado por não pertencer à alta aristocracia, não falar bem o francês, etc. Mas era ótimo em matemática e estudava muito, por isso conseguiu o acesso, aos 15 anos, à importante Escola Militar Real de Paris, fundada por Luís XV. Logo, com 16 anos foi promovido a segundo-tenente, especializado em artilharia. Para ajudar sua mãe, enviava grande parte do seu soldo à mãe,
Era um jovem militar inquieto. Estando em licença, envolveu-se em questões de revoltosos na sua ilha natal, e ‘esqueceu-se’ que era membro do exército francês tornando-se tenente da Guarda Nacional corsa, recusou-se a retornar à França, e foi declarado oficialmente desertor. Seu irmão, chamou-lhe à razão e o fez retornar a Paris e apresentar-se a seu regimento. Era 1792, e a Paris fervilha com a revolução que levaria o rei à guilhotina.
Em janeiro de 1793, a Córsega Natal mergulha numa guerra civil em oposição à França revolucionária. Com apenas 23 anos, ele e sua mãe, leais à França, decidem partir levando todos seus irmãos.
Aí então, a sorte e oportunidade lhe bafeja, é quando....
E a águia alça voo
Agosto de 1793. A roda da revolução, iniciada em julho de 1789, atinge um ponto sem retorno: Luís XVI é guilhotinado. As grandes monarquias europeias temem o espraiamento do movimento revolucionário: Inglaterra, Espanha, Holanda, Áustria e Prússia coalizam-se para reagir a essa Nova Ordem. Os ingleses mandam parte de sua armada atacar a cidade-porto de Toulon, que é tomada. Mesmo desorganizadas, os republicanos enviam suas tropas para a reação, a retomada. Mas, mal treinados, com equipamentos deficientes, o entusiasmo dos revolucionários fracassa em expulsar os ingleses.
O agora capitão, 24 anos, Napoleão Bonaparte, está voltando de suas férias, e resolve fazer uma escala (sorte, oportunidade) em Toulon para ver um amigo dos tempos de escola militar. Então, fica sabendo que o oficial da artilharia está gravemente ferido e recebe convite/intimação do comandante para ele organizar a artilharia. A águia decola num voo venturoso sem similar até hoje na história militar. Ele estuda a situação, organiza os recursos, instrui os soldados, reposiciona os canhões e, num prazo recorde, acaba expulsando os ingleses, numa vitória singular. De capitão passa a major, de major a general-de-brigada, tudo isso em meros quatro meses, e com apenas 24 anos.
Claro que houve percalços, dificuldades, até mesmo escapou da guilhotina por pouco, mas a soma de ambição mais determinação mais oportunismo cínico, mais uma absoluta falta de piedade por vidas humanas fez ele chegar ao nível que chegou.
Mas ele, Napoleão, é Herói Nacional e pronto. Nada de comissões revisionistas. Ele é produto de uma época de vicissitudes, contextos e martírios bem diferentes dos dias de hoje. Disse o genial Charles Chaplin sobre este tema: ‘O mundo não é composto de heróis e vilões, mas sim de homens e mulheres, com todas as paixões que Deus lhes deu. O Ignorante condena, o sábio se compadece.’
Vou dar agora uma acelerada em sua biografia, pois do contrário vai ficar mais extensa do que as 1.200 páginas do épico ‘Guerra e Paz’:
1795, 5 de outubro: Napoleão defende a Convenção contra um levante popular nas ruas de Paris. Esse é um dos aspectos que marcam seu desprezo pelas vidas humanas, pois para debelar um justo protesto contra a tirania da Convenção, ele posiciona canhões nas ruas de Paris e metralha impiedosamente milhares de cidadãos parisienses, deixando centenas de mortes;
1796, 9 de março: casa-se com Josefina de Beauharnais, viúva de um aristocrata guilhotinado na revolução, e amante de um membro do Diretório de nome Paul Barras, que, num acerto de conveniências, entrega sua amante (cara) ao jovem general que, em troca, tem sua carreira promovida tornando-se logo após Comandante do Exército da Itália. Os historiadores afirmam que foi um casamento por interesses, mas – parece – que Bonaparte amou muito sua Josefina;
1797, 17 de outubro: vitorioso na Itália, conclui o Tratado de Campo Formio;
1798/1799: campanhas no Egito, um fracasso que ele, habilmente, mistifica;
1799, 9 de novembro, ou ’18 Brumário’: derruba o Diretório e estabelece o Consulado;
1800/1801: em sequência torna-se primeiro cônsul, vence o Exército austríaco em Marengo, e conclui a Concordata com a Igreja Católica;
1802, 15 de agosto: em seu aniversário de 33 anos, é designado primeiro-cônsul vitalício;
1804, maio: proclamado Imperador da França;
1805: assume o título de rei da Itália, logo depois lidera exércitos franceses contra a 3ª Coalizão e consegue vitória decisiva em Austerlitz;
1806, 14 de outubro: vence os prussianos em Jena e Auerstedt;
1807, 14 de junho: vence os russos em Friedland, em 7 de julho: negocia o Tratado de Tilsit com o Czar Alexandre I;
1809, dezembro: divorcia-se de Josefina, afinal o amor não era tão forte assim (na verdade, ele precisava de um herdeiro, mas Josefina não conseguia engravidar, como já havia tido dois filhos outras mulheres, o problema não era ele, ergo...);
1810, abril: casa-se com a arquiduquesa da Áustria, Maria Luísa;
1812, 22 de junho: comete o maior erro da sua carreira ao invadir a Rússia; 7 de setembro, Batalha de Borodino; 14 de setembro: entra em Moscou, capital completamente vazia; outubro: ninguém vem se render, inicia o inverno, retirada de Moscou;
1813, 19 de outubro: é vencido em Leipzig pelos exércitos combinados da Rússia, Prússia, e Áustria;
1814, 6 de abril, abdica ao trono francês;
1815, 26 de fevereiro: depois de exilado pelos vitoriosos na ilha de Elba, escapa e retorna à França; 18 de junho: sofre derrota decisiva em Waterloo; 22 de junho: abandona novamente os poderes imperiais e é novamente exilado, agora na distante e isolada ilha de Santa Helena;
1821, 5 de maio, morre em seu exílio de Santa Helena. Muitos historiadores dizem que por envenenamento por arsênico, mas isso é uma possibilidade que considero pouco razoável. Na verdade, Napoleão tinha recorrentes problemas estomacais, pois em muitos de seus retratos pintados ele aparecia sempre com a mão direita na cintura sobre o estômago. Seus restos mortais estão hoje, desde 1861, guardados no Dôme des Invalides, uma imponente igreja com cúpula dourada no Museu do Exército, em Paris, França.
That’s All, Folks!
- Os Últimos Cem Dias de Napoleão - Filme Completo

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