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NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
David Canabarro
Epitáfio: ‘Aqui jaz o general de duas eras. Espada brava da República Rio-Grandense, liderou com audácia o sonho da liberdade farrapa. Homem de seu tempo, carregou o peso das armas e o fardo da paz. Entre a glória dos campos de batalha e as sombras da história, combateu pelo solo gaúcho e selou a reconciliação de sua pátria. A terra que defendeu guarda o seu descanso; a história que viveu julga o seu legado.’
Retirado da web
Amigos,
Dias atrás, recebi do colega historiador João D’ávila, aqui mesmo de Taquari, a imagem via whatsApp de uma foto do general David Canabarro que ele havia recebido do um seu conhecido de Santo Amaro/General Câmara, o historiador Gisnei.
Disse-me o João, que era a ‘única' foto existente do herói farroupilha’ e que pertencia à coleção de um mineiro que a havia comprado em um leilão, etc.
Eu nunca havia visto uma foto do general, só a famosa pintura dele feita por volta de 1865, dois anos antes de sua morte, pelo pintor italiano Bernardo Grasselli, a óleo sobre tela, retratando-o de meio corpo, vestindo o clássico uniforme oficial, ornado com dragonas e medalhas, além de sua espada.
Esse quadro, até então o único retrato do nosso herói farroupilha, hoje faz parte do acervo do Museu Júlio de Castilho – em Porto Alegre.
Surpreso e curioso, cheguei mesmo a dar uma ‘checada’ na IA do Google que confirmou a informação: ‘não há nos arquivos públicos fotos do general David Canabarro, só há uma pintura de seu meio corpo....’
Mas podia haver fotos, sim!
Em nosso estado, a partir de 1850, já tinha aportado a francesa daguerreotipia, Então, ao Canabarro, 54 anos e abonado estancieiro, bastaria só querer ser fotografado.
A foto em si é de muito má qualidade, pouco definida, mas o IA faz milagres. Mandei-a para a Joyce, minha filha, que usando um aplicativo moderno coloriu e lhe deu suaves movimentos.
Ficaram lindas como poderemos ver abaixo.
Com isso, às vésperas dos 191 anos da grande gesta gaúcha, ‘revivemos’ um dos seus grandes líderes, o taquariense/açoriano David Canabarro – nosso sempre herói farroupilha.
Uma pequena bio,
O grande general farroupilha nasceu, filho de pais descendentes de ilhéus açorianos, em 22 de agosto de 1796, aqui na nossa Taquari, a uns 6 quilômetros da sede da antiga freguesia, na localidade de Pinheiros.
A casa na estância natal existia até há pouco tempo.
(Li, no róseo Correio do Povo, há uns 40 anos, que a casa, abandonada, descuidada, servia até como criatório de porcos. É nesta casa que a jovem senhora Anita Garibaldi, entre os dias 29 de abril e 03 de maio de 1840, grávida de quatro meses do seu primeiro filho, o Menotti, acompanhando o general Garibaldi, seu marido, albergou-se durante os intensos dias da Batalha de Taquari, um importante evento da gesta farroupilha. Quem a cuidou foi uma antiga escrava e ex-ama de leite do general taquariense)
Seus avós paternos, naturais da Ilha Terceira dos Açores, eram José Martins Faleiros e Jacinta Rosa. Um filho deste casal, José Martins Coelho, casa-se com uma moça nascida em Triunfo, Mariana Inácia de Jesus, filha de Manuel Teodósio Ferreira e Perpétua de Jesus. Este casal José e Mariana muda-se então para uma estância em Taquari onde nosso herói nasce e vive até seus 15 anos.
David inicia sua longa e vitoriosa vida militar na campanha Cisplatina de 1811/1812, substituindo o irmão mais velho, Silvério, que era mais necessário nas lides campeiras da estância da família.
Inicia de reles soldado, com então 15 anos, e atinge ápice da carreira como general.
Lutou nessa guerra, depois lutou contra Artigas de 1816 a 1820, mais tarde, já como tenente, luta nas forças do futuro Presidente da República Farroupilha, Bento Gonçalves da Silva, na guerra de 1825 a 1828, à que culminou com a independência do Uruguai.
Com pouco mais de 30 anos, volta, temporariamente, à vida civil. Mas agora ao lado do tio Antônio Ferreira Canabarro, numa estância em Santana do Livramento.
É este tio o responsável pela assunção do nome Canabarro: o tio morre, David assume a tia, a estância, e o sobrenome.
Com a Revolução Farroupilha, ele volta ao palco bélico como tenente.
Como todos sabemos, atinge aí o generalato e o comando geral de todas as forças da nossa frágil, mas determinada República.
Feita a paz de Poncho Verde, sina guerreira, vai agora guerrear nas campanhas contra Rosas e Aguirre, sendo seu canto de cisne a guerra do Paraguai.
Acaba ‘general honorário do Exército Brasileiro’.
Morre o nosso herói, miseravelmente caluniado pelo episódio de Porongos, na estância de São Gregório, a 12 de abril de 1867, portanto, teve uma longa vida, 71 anos incompletos.
Interessante que seus restos mortais foram transladados para a capital do nosso Estado, em um cortejo acompanhado por cavalarianos liderados por um jovem Paixão Côrtes, meros 20 anos, lá em setembro de 1947.
Na ocasião, Paixão Côrtes e outros sete estudantes do Colégio Júlio de Castilhos formaram o ‘Grupo dos Oito’ (ou Piquete dos Oito), servindo como guarda de honra a cavalo para escoltar a urna com os restos do general farrapo pelas ruas de Porto Alegre.
Esse histórico cortejo fúnebre, realizado no dia 5 de setembro de 1947, coincidiu com o acendimento da primeira Chama Crioula dois dias depois, tornando-se o marco inicial e o grande embrião do Movimento Tradicionalista Gaúcho, o MTG.
Mas, injunções políticas, seus restos em 2008 tornam a casa primeira, em Livramento, local onde havia morrido.
Hoje, repousam em uma espécie de ‘mausoléu’ construída no quintal de sua histórica residência conhecida como ‘Casa David Canabarro’.
Infelizmente o local, que deveria ser histórico, está mal cuidado, mal sinalizado, e com muito lixo acumulado em volta. Algo triste para a cidade e para o país.
As calúnias apontadas em direção ao grande general, referem-se, fundamentalmente, ao ‘incidente de Porongos’, nódoa que mancha a história da gloriosa revolução e, principalmente, a biografia do general farroupilha.
A respeito da sua morte, assim a noticiou um jornal do Rio de Janeiro:
Tendo sido um notável caudilho da revolução por que passou esta província, na qual adquiriu a reputação de bravo e habilidoso para a guerra, desceu ao túmulo acompanhado de graves acusações que a história um dia decifrará se foram merecidas ou injustas.
Eu prefiro o manter no panteão sagrado dos heróis nacionais.
Seguindo as palavras do genial Charles Chaplin, (...) o mundo não é composto de heróis e vilões, mas de homens e mulheres, com todas as suas paixões que Deus lhes deu. O ignorante condena, o sábio se compadece.
Portanto, vou preferir sempre lembrar: do herói de duas Províncias, a nossa e a de Santa Catarina (onde, também, foi presidente da efêmera República Juliana); do homem que lutou pela sua Pátria até quase sua velhice; do comandante que ao receber oferta de emissários platinos de apoio militar na guerra farroupilha responde, ‘diga a seu chefe que assinaremos a paz com o Império com o sangue do primeiro invasor estrangeiro que atravessar a fronteira; pois, antes de tudo, somos brasileiros!’
Se pecados teve (e quem, mortal, não os tem!?) a morte e a eternidade já por certo os redimiram.
Por fim, um acréscimo etimológico: foi o David que cunhou a famosa frase (ao menos era no meu tempo de guri!) ‘boi de botas’, com a qual elogiava o bravo corpo dos lanceiros negros do seu exército que, quando da invasão por terra à vila de Laguna, teve que marchar na íngreme subida da serra por brenhas inóspitas e pantanosas.
That’s All, Folks!

