NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
Você sabia? – II
Acuar (recuar)
Verbos que têm origem no latim vulgar ‘acculare’, significando, sem rodeios, pressionar um animal ou uma pessoa pelo cullus.
Acuado, o animal protege o ânus, pois, afinal, como diz o velho e sempre em uso ditado popular, ‘quem tem ** tem medo’.
No sentido conotativo, passou a servir como o ato de pressionar alguém.
Que tal?
Testemunha, testemunhar
O adjetivo e substantivo "testemunha" e também o verbo "testemunhar", tem uma origem que nos remete às priscas eras da Roma Antiga.
O termo vem do Latim ‘testis’, que se relaciona diretamente com parte dos órgãos genitais masculinos, os testículos. Quem, num tribunal, prestasse um juramento, não o fazia como hoje, com a mão direita sobre uma bíblia, mas sim sobre as genitais, os testículos.
Certamente alguém já deve estar perguntando, e as mulheres, como fariam? Resposta fácil: as mulheres não se envolviam em tribunais, ficavam restritas à vida familiar, e mesmo em seus domus, elas tinham um local específico, uma espécie de gineceu grego. Esposa, filhas e filhos estavam todos submetidos ao patria potestas.
Fandango
Esta palavra, normalmente usada como substantivo, eu certamente vou pegar vocês, meus caros leitores e leitoras, desprevenidos, ou, como diz o ditado popular, ‘com as calças nas mãos’.
Pra mim, desde sempre, esta palavra é 100% gauchesca, regionalismo puro, que não existe no Brasil acima do Mampituba, muito menos no mundo.
Mas não! É, ora vejam, universal!
Em inglês, fandango significa, entre outros sentidos, uma dança espanhola animada para duas pessoas, com castanholas e violão, mas também pode ser usado informalmente para descrever um grande alvoroço, confusão ou algo ridículo (como ‘hustle’ ou ‘fuss’), dependendo do contexto.
Sou doente, apaixonado, maluco pela música ‘A Whiter Shade of Pale’ do grupo inglês Procol Harum, de 1967, que inicia com a épica frase ‘We skipped the light fandango’. A letra não faz sentido, parece que os autores estavam no pico de uma pesada fase etílica, ou coisa pior. Mesmo numa época de Yesterday, esta obra pop teimava em, anos após anos, permanecer, pelos críticos europeus, como a ‘música do século’.
Mais recentemente, Freddie Mercury (Queen) compôs letra e música da lindíssima Bohemian Rhapsody, na qual também aparece "este termo gauchesco", "Will you do the fandango?"
Pesquisando um pouco mais, descobri que há gravadoras de discos com este nome nos Estados Unidos, rádio no Japão, Casas de shows na Europa, etc., ou seja, é uma palavra universal.
Mas não me conformo, a mim continua sendo uma palavra gauchesca raiz – pronto!
Obrigado
A interjeição "obrigado" vem de uma expressão de agradecimento do falante por algo feito por alguém em seu benefício (do falante).
Normalmente essa expressão era longa tipo, "eu sinto-me obrigado pelo ato (feito) gentil que acabaste de me fazer..." Com o tempo, foi sendo reduzida até chegar aos tempos atuais na forma de "obrigado ou, muitas vezes, muito obrigado’", Se o falante for do gênero feminino, fica ‘obrigada’.
Também possui a forma plural ‘obrigados, obrigadas’.
To pretend, pretend
Como verbo, sujeito ou adjetivo ‘pretend’ é praticamente usado na língua inglesa com a ideia de fingir, fingidor, fingimento (vide o clássico grupo musical inglês ‘The Pretenders’, ‘Os fingidores). Se você, leitor amigo, entrar no tradutor do Google e digitar ‘pretend’ vai dar como resposta (só) fingir.
Mas, eu adoro história e sei dos episódios da Guerra Civil inglesa de 1648 e das suas derivações como, por exemplo, os eventos de 1688, e o caso do ‘Prince James, the Pretender’
(Esse príncipe, filho do rei deposto Jaime II – da Inglaterra, e que foi um ‘eterno’ pretendente aos tronos inglês e escocês – mas não levou.)
W. Shakespeare também utilizava esse termo no sentido de ‘reivindicar’, ‘pretender’, ‘ter a intenção de’. E este é o sentido original da palavra, pois ele vem do latim ‘praetendere’ significando ‘estender à frente’, ‘apresentar como pretexto’, ‘alegar’.
O sentido original corrompeu-se com o tempo, o que é perfeitamente normal, mas não o elimina. Hoje, concordo que esse sentido moderno de ‘fingimento’ pegou e o ‘pretender, no sentido de querer, pretender’ virou uma peça de museu!
Formidável
Há alguns anos, em um colóquio literário e cultural com os meus colegas do Centro Literário de São Leopoldo, entramos num debate sobre corrupção de palavras.
No contexto das conversas eu citei o caso do adjetivo ‘formidável’, e explicando que, neste caso, o sentido da palavra teve um giro de 180 graus, ou seja, ficou totalmente o oposto do sentido original.
Quem ler ‘Os Trabalhadores do Mar’, do Francês Victor Hugo, na tradução do nosso Machado de Assis de 1866, quando Machado só tinha 27 anos, vai se deparar com a descrição de um monstro marinho de formas terríveis, medonhas, formidáveis.
O sentido original da palavra , vindo do latim formidabilis, era o já citado e mais ainda ‘aterrador’, ‘assustador’, ‘pavoroso’, algo que inspirava medo ou terror.
Vamos deixar bem claro, quando eu li este livro eu era um moleque e não sabia desse sentido, pois curtia muito rádio – a velha Guaíba – e me habituara às falas poéticas do saudoso Ruy Carlos Ostermann referindo a determinado jogo de futebol e aos jogadores, como "... aquele formidável meio-campista do Inter jogou como se estivesse tocando uma sonata de Schubert ao piano, que classe!"
Viado
Li há uns 10 anos, certamente na internet, mas não lembro de detalhes, que a palavra ‘viado’ (hoje politicamente incorreta, mas que entre a turma LGTB eles assim se tratam sem problema algum) entrou no léxico da língua italiana com o sentido de homens (garotos) que fazem programa nas ruas de Roma e outras grandes cidades da Itália com outros homens. Isto se deveu ao fato de haver muitos brasileiros fazendo o ‘trottoir’ nas ruas e esquinas de lá.
(A bem da verdade, procurei a AI do Google e não encontrei nada sobre esse tema. Mas, afirmo, vi e li – não houve ficção –, havendo inclusive o detalhe de que filólogos reúnem-se de tempos em tempos pra fazer inclusões/atualizações no dicionário.)
Acredito que este termo vem da palavra transviado, muito em voga há uns bons anos (remember, ‘Juventude Transviada’, com o icônico James Dean, de 1955).
Mas, também reconheço, muitos creditam ao animal veado, o Bambi da Disney, frequentemente descrito como um animalzinho tímido, esquivo, de movimentos ágeis e coreográficos, características estas, pejorativas, associadas a uma suposta e preconceituosa ‘afeminação’.
Alguém acha, honestamente, que algum torcedor do São Paulo dá um átomo de bola quando as torcidas adversárias os apodam, em cânticos, de ‘bambi, bambi, bambi’?, ou mesmo quando nossos dois times gaúchos vão jogar em Florianópolis e os torcedores locais entoam ‘gaúcho, viado, gaúcho, viado...’























