NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
Abaixo algumas curiosidades relacionadas à nossa amada língua portuguesa, a última flor do Lácio, inculta e bela.
Espero que curtam!
Você sabia? – I
Adeus,
É uma saudação curta, derivada de uma saudação em forma de locução bem longa.
Quando, em tempos de antanho, tempos em que as pessoas eram muito mais formais e religiosas, alguém, por exemplo, um viajante aqui da minha Taquari que precisava fazer uma viagem até São Leopoldo para entregar uma carga de mercadoria na colônia alemã, em uma viagem longa, penosa, perigosa, pois tinha que atravessar largos campos e alagados, varar rios, precaver-se de animais perigosos, evitar ladrões, etc., depois de tudo pronto, reuniam-se viajante, familiares e amigos para a formal despedida em forma de reza.
Então, oravam:
A Deus, nessa penosa viagem, peço, misericordiosamente, sua bênção, para que eu possa ir e voltar em segurança, e que minha família fique protegida, e que blá, blá, blá ...
Com o tempo a longa saudação/pedido foi se reduzindo, reduzindo até chegar em ‘a Deus’, e finalmente, ‘adeus’.
Interessante é a sinonímia com o inglês americano ‘goodbye’, que reza mais ou menos a mesma lógica: é uma redução/contração da expressão ‘God be with you ...’
E adeus tem plural, adeuses;
Risco de vida,
Expressão idiomática também de tempos imemoriais, ainda muito em uso, apesar das ‘frescuras’ das redações de alguns órgãos de imprensa que teimam corrigi-la para ‘risco de morte’, algo absolutamente desnecessário.
Na realidade, a expressão é uma redução de ‘risco de perder a vida’. Expressões idiomáticas são pérolas das línguas nacionais de qualquer país. Em geral, uma locução de duas ou três palavras expressa com clareza uma ideia geral sobre assuntos diversos.
Deixem de frescura, ‘risco de vida’ – sempre!;
Não vale a pena,
Esta é uma expressão idiomática, uma das mais usadas no nosso cotidiano, tem a mim duas possíveis origens, mas reconheço que a mais forte é da lavra do competente professor Deonísio da Silva.
A minha: nos tempos de Machado de Assim, era comum quando havia algum desentendimento entre duas pessoas famosas, que uma delas tomasse de sua pena e escrevesse um artigo que seria publicado num jornal agravando o opositor. E o agravado tinha duas estradas à sua frente, uma, pegar sua pena e escrever um desagravo, ou – diplomaticamente – dizer aos amigos, ‘não vale a pena!’, ou seja, este agravo não tem a importância de fazer-me o trabalho de pegar minha pena e o pote de tinta para responder essa agressão vil.
A do douto professor: ‘não vale a pena’ tem o sentido de ‘não vale a dor, não vale o sofrimento’, havendo neste caso um claro sentido de sofrimento, dor, dor física. Ou seja, deixa que o opróbrio desmanche-se em si mesmo!
Pois não,
Interessante, uma expressão negativa, mas que tem sempre valor afirmativo. Esta locução nominal, muito usada no dia a dia, também vem de tempos pretéritos nos quais as pessoas eram muito mais formais do que o são hoje em dia. A uma solicitação do tipo:
– João, o amigo poderia me emprestar dois botões metálicos para camisa social, pois irei a um evento esta noite lá no Clube Caixeiral?
– Pois não poderia, meu amigo, – de jeito algum declinar de v. gentil solicitação.
Outra forma:
– Olha lá, João, posso te pedir um favor?
– Ora, diz lá então.
– Preciso comprar um automóvel, mas não tenho dinheiro que chegue. Estás disposto a emprestar-me o que me falta?
– Empresto, pois não havia de emprestar?
Gringo,
Originalmente, esta palavra funcionava como um insulto que todos nós, americanos do sul, aplicávamos aos ‘arrogantes’ americanos do norte.
Com o tempo caiu em desuso.
Hoje, principalmente aqui em nosso estado, este apodo serve para marcar os descendentes dos imigrantes italianos. Há duas explicações para a sua origem: uma da lavra do escritor Charles Berlitz, que acho menos provável, mas mais bonita, e outra, defendida pelo nosso linguista Deonísio da Silva, especialista em origens das palavras.
Vamos a cada uma:
a) Charles Berlitz atribui a origem a uma canção muito popular entre as tropas americanas que invadiram o México na guerra contra os mexicanos entre 1846 e 1848 (nessa guerra, obviamente vencida pelos americanos, eles anexaram quase metade do território mexicano – atual Califórnia, Novo México, Utah, Nevada, Arizona, etc. – tudo isto em troca de 15 milhões de dólares e o reconhecimento da fronteira pelo Rio Grande). O nome da canção era ‘Green Grow the Lilacs’. Civis e soldados mexicanos ouviam os soldados americanos cantando enquanto marchavam e reduziram o que ouviam a ‘gringo’, tornando a palavra um insulto recorrente;
b) Segundo o professor Deonísio da Silva, o registro mais antigo do termo está em um dicionário espanhol do século XVIII, que o define como ‘apelido dado a estrangeiros que falam castelhano com forte sotaque’. Como a expressão ‘falar grego’, significando uma língua ou dialeto difícil de entender, já existia na Espanha, acredita-se que a palavra teria se originado como corruptela de griego (‘grego’ em espanhol). È possível que ‘griego’ anasalado tenha se transformado em ‘griengo’ e, depois, em ‘gringo’.
O curioso é que a palavra se espalhou por todos os países da América Latina e cada um criou uma lenda diferente para explicar sua origem.
A explicação do escritor americano é mais bonita, romântica, mas certamente, até mesmo pela data dos anos 1700, a explicação do nosso brasileiro tem selo de veracidade;
Coitado,
Esse advérbio, também muito usado como sujeito, até pouco tempo atrás era associado à palavra ‘coito’ (coitado, submetido a coito). Era voz corrente até que, de repente, etimologistas assustados com a corrupção da origem da palavra, vêm colocar ordem (e paz) nas coisas. Não é nada disso!
Coitado deriva do particípio passado do verbo (arcaico) coitar, significando atormentar, desgraçar, infligir sofrimento, etc. Vem do latim vulgar ‘coctare’ e é parente distante do verbo ‘coagir’. Este verbo, coitar, caiu em desuso, mas, tadinho, deixou seu estigma;

