O Caso Daudt (seu assassinato) foi, é, e ainda continuará sendo um dos mais polêmicos da crônica política, policial, criminal e judicial do nosso estado.
E as razões da sua importância nos remetem a dois personagens centrais:
1) Ao carismático José Antônio Daudt, um jornalista polêmico, brigão, daqueles histriônicos de dar socos em mesas quando exposto aos flashes de fotógrafos ou às câmeras das nossas TVs, também um político atuante na nossa Assembleia Legislativa ;
2) E ao também deputado e médico Antônio Dexheimer, ex-marido da senhora Vera Mincarone, por muitos apontada ‘pivô do crime’.
(A meu ver, a comoção e indignação causada pelo assassinato do Daudt só teve paralelo, por aqui, com a morte do famoso Pinguinho que fazia par com o Walter Broda no programa da rádio Farroupilha "A Banca do Sapateiro", pelo boato de que teria sofrido um ataque cardíado, dado como morto e, por engano – Catalepsia –, enterrado vivo no Cemitério da Santa Casa, isso lá pela década de 1960. Mesmo, se somente boataria, criou um rebuliço danado!)
Os principais atores deste imbróglio insolúvel de já longos 38 anos foram: Daudt, a vítima; Dexheimer, o acusado; Paulo Olímpio de Souza, Procurador de Justiça do Estado; Vera Mincarone, ex-esposa do acusado e também acusadora; Décio Erpen, desembargador relator do processo; Osvaldo Lia Pires, advogado defensor do acusado; Amadeu Weinmann, advogado assistente da acusação; Eduardo Pinto Carvalho, chefe de polícia; Wilson Muller, delegado do departamento de investigações; Ben Hur Marchiori, delegado de homicídio e que indiciou o acusado.
Podemos incluir neste rol mais um mar de jornalistas e políticos locais, com interesses localizados, pró, contra, e que davam "tiros pra tudo quanto era lado".
Pequena bio,
Daudt, nascido em Porto Alegre em 8 de março de 1940, era filho do casal germano/açoriano Oscar Daudt Filho e Regina Lopes Daudt.
Foi criado em Rio Pardo, onde seus pais tinham uma fazenda, e onde fez os primeiros estudos e vivenciou seus anos de infância e início da adolescência. Gostava tanto de Rio Pardo, que se considerava, orgulhosamente, rio-pardense.
De uma família de classe média alta de rígidos padrões morais e educacionais, estudou nos melhores colégios da região. Chegou a fazer dois anos de jornalismo na faculdade de Santo Ângelo, mas parou por aí, pois, já com somente 20 anos, entrara no jornalismo – seu grande vício e senda segura. Nesta época, como sabemos, bastava ter afinidade, gosto, jeito para ser jornalista, não existia a exigência do diploma (que depois passou a ser exigido, e hoje não mais, voltamos ao passado!).
Trabalhou até a sua morte, em 1988, aos 48 anos, em diversas emissoras e jornais, destacando-se: Rádio Difusora, Rádio Gaúcha, TV Difusora (Porto Visão), e TV Gaúcha (hoje, RBS).
Na opinião deste escrevinhador, Daudt teve duas posições na imprensa que o catapultaram à posição de "fenômeno inconteste da comunicação gaúcha": primeiramente, no Portovisão da então TV Difusora (Hoje Band RS); depois o criador do sucesso nas tardes da rádio Gaúcha, líder de audiência, com Gaúcha Repórter.
Da sua vida particular, pouco se sabe , pois era discreto. Nunca casou-se e, justo no ano da sua morte, ele assume ser pai de um jovem com 23 anos, fato que causou estranheza entre amigos, pois, mesmo não assumido, havia uma forte dúvida em relação à sua sexualidade.
Palavra suas: (...) aos 48 anos, repito, sou aquilo pelo que muitas mulheres são condenadas quando se referem a uma mãe solteira: sou pai solteiro (...) nunca tive coragem de assumi-lo ao longo do tempo...
Em 1986, realizado em sua profissão, uma unanimidade regional em termos de jornalismo, Daudt decide aceitar o convite (feito por diversas vezes pelo governador Pedro Simon), assinar ficha no PMDB, e concorrer a deputado estadual.
Foi eleito com a bela votação de 21.429 votos para a legislatura 1987-1991. Em dois anos de mandato, conseguiu, entre outros, aprovar lei de sua lavra proibindo o uso de CFC (clorofluorcarbono).
A tragédia, o julgamento,
Morreu em 4 de junho de 1988, aos 48 anos, assassinado com dois tiros de espingarda calibre 12, após breve agonia no Hospital de Pronto Socorro, quando chegava ao portão de sua residência na rua Quintino Bocaiúva, bairro Moinhos de Vento.
Os pedaços de chumbo perfuraram-lhe coração, pulmão, pernas e braços.
O principal suspeito do crime foi o médico e também deputado estadual Antônio Dexheimer, colega de bancada do PMDB, de moto próprio ou a mando/encomenda a um sicário profissional.
Comentava-se à época na imprensa gaúcha que Daudt teria um caso com a mulher do médico. Vera, funcionária da Assembleia Legislativa, trabalhava no gabinete do ex-marido.
Novamente opino: estranho que Dexheimer, colega do Daudt, sabedor (todos sabiam) da sua muito provável homossexualidade, decidisse matar ou mandar matar seu colega. Não havia traição, o casal estava separado, estranho, muito estranho.
O caso foi julgado em 20 de agosto de 1990 pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul e o réu absolvido por falta de provas.
Naturalmente, não foi um julgamento comum, foi um espetáculo midiático, padrão julgamento do jogador de futebol e ator norte-americano O.J.Simpson, acusado de matar sua ex-esposa e acompanhante, em 1994, em Los Angeles, julgado e, igual ao Dexheimer, absolvido.
O julgamento foi o mais longo do judiciário do Rio Grande do Sul até então, e o primeiro a ser transmitido ao vivo pelo rádio e pela televisão.
O relator do processo, desembargador Décio Erpen, votou pela condenação, mas foi vencido pela maioria.
Foram 14 votos pela absolvição e 7 pela condenação.
Sem nenhum condenado, o crime, passados 20 anos, prescreveu em 2008.
Como prova do alto relevo desse triste episódio e do impacto criado no seio da nossa sociedade, há três livros escritos que versam sobre o assunto, e mais outro na fornalha para ser lançado talvez já em 2027:
1) A verdade no Caso Daudt, do delegado Eduardo Pinto de Carvalho, que era o chefe da polícia na época do assassinato. Relata os bastidores da investigação do assassinato, sustentando a tese policial da época, apontando o deputado Antônio Dexheimer como o principal suspeito do crime;
2) A morte à procura de um autor, do promotor Daltro de Aguiar Chaves. Nesta obra, o desconhecido e as razões do assassinato são temas em cujo encalço o autor, primeiro promotor do processo, foi incansável;
3) 800 noites de junho, David Coimbra. Este livro, do jornalista da RBS e da Zero Hora, que não teve convívio laboral com o Daudt, conta a história a partir da versão de Dexheimer.
Se o leitor tiver interesse em ler livros sobre o episódio Daudt, aconselho a esperar um pouco (previsão, 2027), e comprar o que está sendo pesquisado e escrito pelo ótimo Celito De Grandi, um craque nesta área, pois já produziu obras do nível do ‘Caso Kliemann’, que versa sobre a morte da esposa do deputado estadual Euclydes Kliemann, Margit Kliemann, mãe de três meninas, em junho de 1962, quando o casal completava 18 anos de matrimônio.
Neste caso havia um histórico de violência e traições.
Margit apresentava sinais brutais de espancamento. O deputado Euclydes Kliemann foi apontado como o principal suspeito devido a um álibi frágil, mas o verdadeiro assassino nunca foi descoberto pela polícia (e a história se repete!).
Só para constar, Kliemann, dois anos depois, quando sendo entrevistado nas dependências da rádio Santa Cruz, de Santa Cruz do Sul, sua terra natal, foi morto por um adversário político, a bala, tiro dado ao vivo.
Agora finalizo,
Nesse episódio todo – triste, penoso, Daudt era um ótimo jornalista, um deputado iniciando uma carreira que certamente seria vitoriosa – é muito difícil termos uma opinião, um veredito.
Se ele tentou escamotear sua homossexualidade com a "declaração" da existência e assunção de um filho com 23 anos, isto só mostra o quão triste éramos como sociedade há meros 40 anos.
Se assumisse sua condição sexual, perderia credibilidade no jornalismo (seu trabalho, ganha-pão) e não se elegeria deputado.
Hoje, graças a Deus, nós e a sociedade mudamos a ponto de termos um governador "assumido" eleito e reeleito.
Quem, à época, tinha uma posição firme na defesa da inocência do Dexheimer era o conhecido jornalista, novelista, escritor Sérgio Jockyman (1930-2011), sempre no estilo "gauche na vida" (Renato Ribeiro assume a Caldas Júnior, dia seguinte Jockymann demite-se, "não trabalho para oligarcas latifundiários").
Jockyman tinha um jornal próprio, e sempre produzia matérias investigativas muito interessantes e polêmicas. Para ele, houve uma clara conspiração da "polícia secreta" da Brigada Militar, que tinha no Daudt mais que um desafeto, um inimigo mortal. Eu, agora, não mais recordo dos motivos da briga dele com a Brigada, mas houve, sim!
Jockyman postou em seu jornal, ‘cartas anônimas’ (que ele afirmava saber de quem vinham!) mandando que parasse com as "aleivosas matérias acusativas", do contrário...
Outro fato singular deste episódio todo é o envolvimento (passivo ou ativo) do governador da época, Pedro Simon, que era amigo de ambos, mas, parece, "cria com fé na inocência do Dexheimar", que ele conhecia bem. Não podemos nos esquecer que a vida profissional do governador iniciou como advogado criminalista, e dos bons! Vide abaixo o que retiro do IA do Google:
"(...) Pedro Simon, que era governador do Estado na época do crime, negou que tenha interferido nas investigações para proteger o amigo de partido. Pelo contrário, em entrevistas concedidas anos depois sobre os bastidores políticos do episódio, Simon afirmou apenas que defendeu que a polícia tivesse tempo para investigar o caso a fundo, embora tenha admitido, nos 20 anos do caso, em 2008, que ajudou nos bastidores políticos envolvendo seu colega.”
É o que temos,
Aceitamos contestações!