NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
Irmandade de Taquari
- 220 anos -
Uma Irmandade é, poeticamente, o coração da comunidade
batendo forte em forma de doação, oração e caridade.
Caros amigas e amigos leitores desta cesta semanal de cultura em geral, literatura, história, ciência, etc., peço vênia para falar de um assunto um pouco fora do escopo, fala de religião e, especificamente, sobre um dos braços seculares de suporte da nossa religião Católica Apostólica Romana, as Irmandades.
O mote, gatilho, para eu falar neste (importante) tema é que, alguns dias atrás, recebi uma mensagem via whatsApp do meu querido amigo advogado Gabriel Dória, membro ativo da nossa Irmandade São José local, alertando-me sobre os 220 anos da fundação dessa entidade, lá no distante 3 de setembro de 1806, e questionando-me se, na condição de historiador local e de um apaixonado por tudo que se relaciona ao nosso pequeno orbe, tinha alguns dados, fotos, documentos ou algo mais que fizesse nexo com essa importante data.
Respondi-lhe que não e que muito provavelmente ninguém tenha.
O que mais próximo chegou em termos de informações está registrado no livro "A Paróquia de S. José de Taquari', editado quando do bicentenário da colonização açoriana do Rio Grande do Sul, da lavra do monsenhor Dr. João Maria Balém, uma preciosidade em termos de pesquisa e registro em papel da história da nossa paróquia, e – lato sensu – da nossa Taquari, desde sua fundação como povoado em 1764, aliás, deixemos bem claro, o sexto povoado do nosso estado, e a 20ª vila (município) em 1849.
Talvez se venha encontrar algo nos arquivos da Igreja Matriz de Porto Alegre, mas acho isso altamente improvável, pois, na página 53 do livro do monsenhor Balem, este padre descreve um pequeno histórico sobre o vigário Bartolomeu Lopes de Azevedo e sua atuação na direção da paróquia, isso entre 1805 e 1807 (portanto abrangendo a fundação da Irmandade em 1806) e nada fala sobre essa fundação, pois certamente nada havia nos arquivos pesquisados pelo competente Monsenhor Balen. Ergo, não percam tempo...
Interessante que sobre a fundação da Irmandade, nada há, mas sobre outro evento – uma diretriz, ordem (façam!) de 1799 (meros seis anos antes da fundação da Irmandade) registrada no terceiro livro de assentamentos de batizados da igreja – que em tese não era o meio adequado para isso – emanada do governador coronel Sebastião Xavier da Veiga Cabral Câmara, dirigida à maior autoridade da freguesia, o sargento-mor dragão da fortificação local José de Castro de Moraes, mandando-o, com a ajuda do pároco, persuadir os paroquianos a se cotizarem para a ‘fatura da igreja’, na proporção das suas forças (possibilidades). No livro estão relacionados os nomes dos fregueses da igreja e o respectivo valor. O total arrecadado, que foi suficiente para terminar a obra, foi de 167$240. Esses 167 mil e 240 réis correspondem hoje a aproximadamente uns 30 mil reais ou pouco mais (Google)
Mas, dobrem os sinos!, temos algo maravilhoso em termos de preservação de informação e história, a Ata da formação da Irmandade em cadernos com 20 x 30 cm desde o três de setembro de 1806!
O meu querido e saudoso amigo, o professor Balduíno Goerck, um dos membros mais antigos e ativos da Irmandade, havia iniciado a transcrição dos dados para registro e edição futura de um livro sobre a entidade.
Muito falamos sobre esse seu projeto.
Este livro/ata está guardado na Igreja, lamentavelmente sem os devidos cuidados necessários, pois é um documento que, pelo seu valor intrínseco, não pertence somente à Igreja, é (ou deveria) ser público, da sociedade e deveria estar preservado em uma redoma de vidro com todos os cuidados que as técnicas de preservação de tais documentos exigem.
Uma das informações que ele tinha me passado (eu vi no papel, pois ele já havia feito a transcrição desta parte) é sobre a eleição dos conselheiros (vereadores) em 1849, quando da elevação de Taquari ao status de vila.
Nessa época, não havia nem um arremedo de ‘tribunal eleitoral’; a única autoridade que havia em povoados ou freguesias era a Igreja (e o padre).
A comunidade orbitava (e temia) à Igreja.
A partir do decreto do presidente da província (eram assim chamados durante o Segundo Reinado os atuais estados) elevando a freguesia de Taquari ao status de Vila, o padre Antônio João de Carvalho – 1843/1865 – delegou esse importante trabalho aos membros da Irmandade.
Não eram muitos os aptos a votar, pois a população total era 4.964 habitantes, sendo que, descontados os escravos, sobravam 2.343 pessoas; separando-se mulheres e crianças, sobrariam, quando muito, umas 800 pessoas com direito a voto. Qualquer um poderia ser votado, havendo inúmeros nomes com somente um voto, o seu!
Irmandades
Esta associação fecunda, quase que umbilical, da igreja católica com as irmandades cristãs, não é uma singularidade da minha Taquari, do nosso Estado e do Brasil, como um todo, mas sim uma regra geral da Igreja Católica desde Portugal e Espanha.
Sabe-se (este é um dos episódios mais tristes da história da igreja católica) da forte prevalência do catolicismo nestes dois países insulares da Europa, e do espraiamento desse comportamento aqui na América do Sul e Central.
Em Portugal e na Espanha, a cisão do protestantismo de Lutero e Calvino não vingou.
Os reis/rainhas desses dois países (a Espanha, particularmente, a partir da união entre Castela e Aragão) eram fanaticamente católicos, vide o padre Torquemada, confessor da rainha Isabel I, e o seu ‘trabalho de inquisidor-mor’ que torturava, matava, exilava qualquer hereges ou mesmo mínimos desvios da exegese cristã.
Falando no Brasil, mais especificamente no caso da formação do nosso estado, não havia a menor possibilidade dos nossos ancestrais açorianos serem alocados sem o devido ‘pasto espiritual’.
Podia até mesmo faltar o pasto material (comida), mas as rezas, preces, cantos, os dobrares de joelhos nos duros bancos de paus, sem chance!
Antes da República, tudo era registrado nos livros de tombamentos das nossas igrejas: nascimentos, casamentos, mortes, eleições, reclamos, tudo!
Os óbolos dos padres (côngruas) eram pagos pelos reis, a igreja era uma extensão do estado.
Vejam abaixo o que monsenhor João Maria Balém e o padre Balduíno Rambo registram no livro ‘Enciclopédia Rio-grandense’, 2º volume, de 1968, sob o capítulo ‘A Igreja Católica no Rio Grande do Sul até 1912’:
(...) Existiam as Irmandades do Orago da Igreja, a do Divino Espírito Santo, com festas tradicionais trazidas das ilhas dos Açores, a de São Miguel e Almas, que promovia a devoção às almas e se encarregavam dos enterramentos, havia a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário formada normalmente de pretos com suas usanças e cerimônias especiais.
(...) As poucas freguesias que então existiam no Rio Grande do Sul eram agrupadas, inicialmente, em comarcas, eclesiásticas, cujos vigários da vara tinham faculdades especiais, que lhes eram delegadas pelo Poder Episcopal da Jurisdição a fim de resolverem assuntos diversos, especialmente os matrimoniais.
(...) Nos primeiros tempos as povoações todas cresciam compactas e observantes de sua religião, com o máximo fervor. Destacando-se neste sentido as diversas associações religiosas, denominadas Irmandade, em todas as igrejas matrizes, cujas construções normalmente elas promoveram, e dedicaram-se principalmente ao sustento do culto. Era aspiração de todos fazerem parte dessas associações religiosas, cumprindo com piedade e grande observância, os Estatutos sempre aprovados pela autoridade de Rei e dos Bispos.
(...) As únicas festividades que então se realizavam (afora os bailes) eram as solenidades religiosas, celebradas em toda a pompa e brilho, acompanhadas de orquestrinas, nas quais a população em peso tomava parte. Basta lembrar as solenes missas cantadas, com seus oradores sacros, e as pomposas novenas do Espírito Santo com suas Ave-Marias e ladainhas, que reuniam a elite da cidade ou da vila, com seus melhores atavios. Não havia naquele tempo hereges de espécie alguma, talvez algum recalcitrante, porém este se abstinha de manifestar-se para não ser denunciado ao Santo Ofício, como traidor à sua fé e ao seu rei.
Vou finalizar fazendo um comentário de um assunto que me deixou particularmente muito triste.
Alguns amigos meus e de minha esposa pediram-me que eu fosse a uma reunião entre frequentadores e simpatizantes da nossa Igreja Matriz de Taquari, igreja, aliás, muito antiga, de construção por etapas iniciada lá no distante ano de 1768 – portanto, com 258 anos.
Nesta, o provedor da Irmandade, o Sr. Thiago Teixeira, expôs claramente a situação difícil do prédio e da necessidade imperiosa de uma espécie de 'tombamento' – Tombamento Municipal – instrumento pelo qual poderíamos conseguir verbas para a necessária e urgente reforma, via lei estadual ou federal tipo a LIC – Lei de Incentivo à cultura, que usa do incentivo fiscal.
A grande maioria dos participantes, a partir dos sólidos argumentos apresentados pelo Sr. Thiago, estava (eu incluso) amplamente a favor do tombamento,
Mas havia uma professora, amiga nossa, que ‘desesperada’ argumentava totalmente contra, afirmando que, com o tombamento, a comunidade entrega a gestão da Igreja às autoridades políticas, e citou, extremamente preocupada, o exemplo da França atual, e os (des)caminhos que as coisas estão tomando por aqui em terras brasilis.
Foi voto vencido.
Na semana seguinte fui pesquisar na web, pois, se o argumento não era sólido, no mínimo preocupava, se não, vejamos o que localizei numa rápida vista:
(...) Um dos principais líderes muçulmanos da França, Dalil Boubakeur, que disse que igrejas católicas abandonadas poderiam ser utilizadas para suprir a carência de espaços de culto islâmico na França...
(...) criou-se uma petição na semana passada, chamada de 'Não toque na minha igreja'. A iniciativa é apoiada por representantes da direita francesa, entre eles, o ex-presidente Nicolas Sarkozy.
(...) Devido à forte repercussão de sua declaração, em entrevista concedida à rádio Europe 1, Boubakeur se retratou no dia seguinte e garantiu que não há atualmente nenhum projeto de transformação de igrejas católicas em locais de culto islâmico. Mesmo com o pedido de desculpas do líder muçulmano, mais de 25 mil assinaturas foram recolhidas na petição da revista ‘para salvar as igrejas’, diz o autor da iniciativa, o escritor francês e cronista da Valleurs Actuelles, Denis Tillinac.
No mínimo, falando barato, é brabo!
That’ All, Folks!


