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NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
- Charles De Gaulle -
Ele, um grande Homem? Ora, ele é arrogante, egoísta, pensa que é o centro do universo... Ele... Sim, ele é um grande Homem!
Winston Churchill, referindo-se a De Gaulle
Nunca, a França é minha!
Corria o ano de 1900...
Em uma fazenda, na próspera região nordeste da França, vários meninos brincavam de organizar exércitos. Um dos garotos destacava-se do grupo – era muito mais alto do que seus companheiros e, embora mesmo à primeira vista ficasse evidente que era também o mais jovem de todos; os outros meninos o seguiam na marcha pelo campo, aceitando tranquilamente a sua liderança. Chegados ao local escolhido para ser o ‘campo de batalha’, os garotos pararam.
Então o menino alto, cujo nome era Charles-André-Joseph-Marie de Gaulle, pôs-se a explicar as regras do jogo. Em poucas palavras, definiu quem seria quem e as posições que cada ‘exército’ deveria ocupar. Jean, da fazenda vizinha, faria o papel de rei da Inglaterra e comandaria as tropas acantonadas junto ao grande álamo. Xavier, como o imperador da Áustria, deveria estacionar a ‘cavalaria austríaca’ junto à cerca que se via ao longe. E ele próprio seria o rei da França. Xavier protestou: você é sempre a França..., desta vez eu quero ser a França, já estou cansado de ser a Áustria!
Charles permaneceu em silêncio por um instante, encarando, sério, o irmão mais velho e falou: ‘... Nunca, a França é minha!
A descrição acima, retirada da introdução do livro ‘Grandes Líderes, De Gaulle’, da Editora Nova Cultural, editado em 1987, nos mostra que a determinação daquele que, adulto, vem a ser a maior figura política francesa do século XX, é adrede ao adulto, vem quase que de berço!
(Eu notei, e marquei na biografia que escrevi, a semelhança entre o grande líder francês e o presidente Costa e Silva. O nosso, quando jovem, também curtia brincar de soldado e de fazer guerra, sempre na posição de ‘chefe’.)
Uma pequena bio,
De Gaulle nasceu em 22 de novembro de 1890 em Lille, na França,
3º dos 5 filhos do casal Henri de Gaulle e J. Maillet, em uma família tradicional, devota, religiosa, de classe média. Seus avós paternos, assim como seu pai, eram historiadores e profundamente apaixonados pela história da França. Já aos 5 anos, o menino Charles lia sobre a história francesa e, no início de sua adolescência, entrou em contato com os clássicos livros e textos dos grandes filósofos, como Kant, Goethe, Nietzsche e outros.
Estudou na Academia Militar de Saint-Cyr, formando-se, com destaque, em 1912. Logo em seguida engajou-se ao 33º Regimento de Infantaria do Exército francês.
Foi como capitão deste 33º Regimento que, aos 24 anos, em agosto de 1914, ele entra na 1ª Guerra Mundial. Em março de 1916, De Gaulle é feito prisioneiro pelos alemães durante a famosa e terrível Batalha de Verdun, na qual em 10 meses, morrem mais de 300 mil soldados entre franceses e alemães. Podemos dizer que ‘teve a sorte de ser aprisionado’, pois com a mortandade nas trincheiras desta guerra, ele muito provavelmente teria sido morto
Em 1921, casa-se com a jovem Yvonne Ventroux, tendo o casal três filhos.
Aqui damos uma pausa na história de vida do grande líder francês para falarmos do contexto da década de 1930, com a ascensão de Hitler e do nazismo na Alemanha, a grande derrotada da 1ª Guerra Mundial, e da passividade da França e da Inglaterra em relação aos avanços belicosos, revanchistas, sedentos de ‘poder e lebensraum’ por parte da maior nação da Europa, mesmo em crise.
Em 31 de janeiro de 1931, Adolf Hitler e seu partido assumem o poder na Alemanha, com um desenho político muito claro, pois estava quase tudo escrito no livro ‘Mein Kampf’, escrito e lançado por Hitler em 1926, e tornado a bíblia nazista.
A Alemanha vivia desde o fim da guerra sob o império das punições e reparações do Tratado de Versalhes, de 1919, que fazia com que a nação vivesse em permanente caos político, agravado pela queda da bolsa de Nova Iorque de 1929, produzindo um ambiente propício para o aparecimento de salvadores da pátria, no caso Hitler, seus asseclas, e o partido Nazista.
Hitler desvencilha-se da Constituição e assume como ditador com poderes e apoio totais.
Começa então a dispensar os limites do Tratado: a) para de pagar as indenizações; b) retira-se da Liga das Nações; c) retoma o serviço militar obrigatório; d) inicia organizar e armar seus exércitos.
Passos militares,
• 1936: remilitarização da Renânia, uma área perto da fronteira francesa e na qual o tratado proibia o estacionamento de tropas alemãs. Franceses, ingleses, Liga das Nações, protestaram e só;
• 1938: anexação da Áustria, protestos, não pode, é um absurdo, mas só;
• 1938: crise dos Sudetos, Hitler exigiu o controle de um espaço onde havia muitos alemães. Depois disso, o tirano tomou conta do resto da Tchecoslováquia e de seus modernos armamentos. Franceses e ingleses, novamente, só protestaram;
• 1939: a gota d'água que transbordou o copo da crise; ambos países tinham assinado acordo militar de proteção à Polônia, e não mais puderam passar ‘paninhos’. Cheios de dedos, declaram Guerra à Alemanha, ou seja, declaram guerra, mas sem querer a guerra, entonce...
A Inglaterra era relativamente organizada politicamente, não havia crises neste sentido. O problema dos premieres ingleses (vide o episódio amplamente registrado do premier britânico Neville Chamberlain, em 1938, mostrando aos fotógrafos, ao descer da escada do avião, uma declaração do Acordo de Munique, apaziguando o Hitler e permitindo a tomada dos Sudetos da república Tcheca) não era os políticos em si, mas o povo que não queria guerra de jeito algum!
Com a França ocorria o mesmo (e convenhamos, a França havia perdido a nata de seus homens na faixa de 20 a 30 anos, e tinha todos os motivos para se desesperar com a possibilidade de uma nova guerra. ‘O quê, guerrear com os boches por causa dos poloneses, não!), seus cidadãos, em sua ampla maioria, não queriam guerra.
A França, além de tudo, tinha graves problemas políticos. Nos últimos 10 anos haviam sidos criados e caídos mais de 20 gabinetes. Era a crise da Terceira República, um sistema político que dava muito poder ao parlamento. Quando os deputados não concordavam com as ideias do governo, eles votavam para derrubá-lo. Era crise em cima de crise!
A guerra de fato, pra valer, ocorre em 10 de maio de 1940, quando os exércitos alemães invadem a França, desviando a Linha Maginot, e entrando pelas florestas das Ardenas, na Bélgica, com seus soldados e tanques.
Igual aos argentinos na Guerra das Malvinas em 1982, o movimento mais rápido que os franceses cometeram foi o de elevar os braços em rendição! Praticamente, em 40 dias de guerra, os nazistas tinham derrotado os exércitos franceses e ingleses (na verdade, a Inglaterra enviou poucos recursos, tanto material quanto de pessoal. Escapou de uma tragédia maior, com a retirada
De acordo com William Shirer, em seu livro A Queda Da França, os exércitos (potencial militar) entre os franceses e os alemães eram muito parecidos – no papel – em 1940. Além disso, os ingleses mandaram alguns batalhões e aviões, e também havia o exército da Bélgica.
Então, por que a derrota humilhante da França?
Listo três razões: 1) os 42 milhões de franceses não queriam lutar de jeito algum; 2) Seus generais usaram técnicas/táticas nesta guerra muito próximas às utilizadas em 1914. Eram avessos ao uso de tanques, que para esses ‘velhos militares’ só funcionariam com o acompanhamento de uma forte artilharia, etc. Os aliados ingleses, que tinham uma aviação bem moderna que poderia ter bombardeado os nazistas na floresta das Ardenas, claramente pouparam seus ‘preciosos’ aviões para defender à ilha; 3) Os generais franceses, principalmente o generalíssimo Gamelin (68 anos), eram extremamente ‘cautelosos’, para não usarmos outro termo.
Mesmo o primeiro-ministro Reynaud sendo contra (queria transferir o governo para o norte da África) prevaleceu a vontade dos demais membros do gabinete, liderados pelo marechal Pétain, herói da Guerra de 1914, de solicitar à Alemanha um armistício/rendição.
Reynaud resigna, 16 de junho, Pétain assume, é assinado o armistício em 22 de junho, e, logo após, instalado o governo de Vichy, o opróbrio maior da França em toda sua história!
Charles De Gaulle, já general, e que lutou com bravura comandando esquadrão de tanques, discorda do marechal e escapa (com toda a sua família) para a Inglaterra para, de lá, comandar a reação.
Com esta decisão, este simples general, já com 50 anos, sai do ostracismo e entra para a história da França como o Herói da Resistência.
Finalizando,
1940 – Em 17 de junho, em Londres, com em torno de seis mil comandados, cria o movimento França Livre;
1943 – É reconhecido como chefe único do Governo Provisório Francês em Argel;
1944 – Após 6 de julho, Dia D, com o desembarque dos aliados na Normandia, em 25 de agosto lidera o desfile triunfal pela avenida dos Campos Elísios, quando Paris é libertada, para uma assistência de um milhão de parisienses;
1959 – É eleito primeiro presidente da recém-formada V República;
1969 – Renuncia pela segunda vez à presidência da República;
1970 – Em 9 de novembro, Charles de Gaulle morre. Seus restos mortais estão depositados no cemitério da pequena comuna de Colombey-les-Deux-Églises, na região de Champanha-Ardenas, no leste da França.
Vida eterna ao resgatador da Honra Francesa!


