NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JJOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
- Guerra da Secessão -
Dê a eles termos bastante liberais. Deixe que fiquem com seus cavalos para que possam arar a terra, e com as suas armas para que possam atirar nos corvos. Não quero que ninguém seja punido.
Instruções do presidente Lincoln ao general Ulysses S. Grant
quando da rendição do general Robert E. Lee em 9 de abril de 1865.
Este tema me foi solicitado por um amigo leitor do blog, o sr. Leandro Kern, mas também é algo, um evento da história do continente americano do século XIX, dos mais importantes, e do qual já havia interesse em escrever algo.
A Guerra de Secessão, ou Guerra Civil Americana, ou Guerra Norte/ Sul, foi o conflito entre alguns estados (não todos) do Sul e os estados do Norte dos Estados Unidos ocorrido entre 12 de abril de 1861 e 26 de maio de 1865.
Esse conflito trouxe grande destruição, sobretudo para o Sul, afetando diretamente sua economia e resultando em um saldo aproximado de 660 mil mortos entre os digladiadores.
O que motivou essa cruenta guerra entre irmãos?
Os historiadores norte-americanos apontam classicamente dois: a questão da escravidão, e a questão dos impostos sobre produtos importados.
Abaixo estenderemos aos detalhes os motivos das desinteligências entre esses estados irmãos.
Mas, nisso há um consenso, a gota d´água que transbordou o copo dessas desinteligências (que, ao limite, derivaram para ódios) entre os estados sulinos e os nortistas foi, sem dúvida, a eleição e posse do político republicano do Kentucky Abraham Lincoln (1809 – 1865).
Lincoln, filho de colonos pioneiros que formaram o Oeste naquilo que seria depois ‘a grande nação americana’, nasceu em 12 de fevereiro de 1809, filho do casal Thomas Lincoln e Nancy Lincoln, no povoado de Hodgenville, Kentucky. Foi um autodidata e leitor voraz que trabalhou como lenhador, fazendeiro, lavrador, bedel em casas de comércio, aprendiz em escritório de advogados, advogado, deputado estadual, federal, e 16º presidente da República.
Era declaradamente um abolicionista, não radical, mas, sim, ideológico por razões de humanidade e, convenhamos, por ter certamente nascido num ambiente tão pobre, tão desprovido de recursos, quanto aos dos negros escravos.
Os estados sulistas à época, eram amplamente a favor da manutenção da escravidão, pois dependiam dessa mão-de-obra nas ‘plantations’, basicamente de algodão, para manter o padrão de extrema opulência e luxo em suas majestosas mansões rurais, com estiloso design europeu, servidas por inúmeros servos escravos.
Era o clássico senhorio aristocrata por excelência, mantido pela servidão humana!
Portanto, nada de mudanças, tudo tem que continuar como está.
Óh dolce far niente!
(Se minha descrição deste cenário aristocrático feudal não criou uma visão clara na mente dos meus preclaros leitores, uma sugestão: assistam no streaming o clássico filme E O Vento Levou, de 1939, três horas de projeção, e que trata exatamente do tema deste meu escrito.)
Em oposição aos Estados do Norte, possuíam uma economia não industrializada, basicamente rural e exportadora. Defendiam a não taxação de impostos. Exportavam com gordos lucros e importavam tudo que precisavam em termos de produtos industrializados. A fixação de taxas de proteção aos produtos internos (todos vindos dos estados nortistas) evidentemente não era do interesse dos sulistas e por isso, por esse estilo de vida, lutavam e iriam até a guerra se necessário.
Os sulistas exportavam seu algodão, produzido por três milhões de negros escravos, para a Europa, Inglaterra principalmente, cujos teares movidos pelas revolucionárias máquinas a vapor tinham fome dessa matéria-prima barata da América.
Por outro lado, o interesse do Norte – industrializado – era proteger o mercado interno da invasão de manufaturados vindo da Europa.
Havia sim por grande parte da população dos Estados do Norte (e de muitos sulistas, também) uma preocupação ética, moral com relação à escravidão e a necessidade de uma imediata emancipação de todos os escravos do território americano.
Também havia a questão econômica. Para o Norte, e sua economia vibrante, era mais racional remunerar os negros e tê-los livres como simples empregados e potenciais consumidores.
Além desses dois entraves, havia uma terceira questão: a expansão da nação para novos territórios conquistados, pois – por uma Lei vigente – suas populações eram quem decidiriam em manter ou não o escravagismo. Há alguns casos interessantes, como do Texas, que libertou-se do México em uma guerra icônica, remember Álamo, e que, então, tinha interesse em juntar-se, ser anexado aos Estados Unidos, mas houve problema com os políticos: os sulistas do Congresso não apoiaram, pois temiam que seria mais um estado não escravocrata!
Então, Lincoln, o advogado abolicionista do Kentucky, o tirano, o demônio, o republicano negro, em uma eleição apertada, é eleito. É a gota d'água, ou a fagulha incontrolável que faltava para detonar o TNT puro!
Guerra, guerra civil, guerra fratricida!
Morte entre irmãos,
Em 6 de novembro de 1860, Lincoln é eleito presidente dos Estados Unidos. Em 8 de fevereiro de 1861, 7 Estados do Sul elaboram uma constituição e se unem aos Estados Confederados do Sul. Dois meses após, em 12 de abril, tomam a iniciativa e começam a guerra atacando o Fort Sumter, na Carolina do Sul.
O Norte industrializado contava com uma população bem maior. Seus 23 Estados possuíam 22 milhões de pessoas.
Os 11 Estados Confederados, agrícolas, quase feudais (4 entraram depois de 8 de fevereiro), possuíam 9 milhões de habitantes, sendo que destes, 3 eram escravos.
Como disse, anos após, Gabriel García Márquez, era a ‘Crônica de uma morte anunciada’.
A única chance dos sulistas vencerem esta guerra seria a Inglaterra reconhecer diplomaticamente o novo Estado, dar-lhe apoio financeiro, material e humano. Mas a distância, a logística complexa, e a precaução não permitiram.
Ninguém adivinhava a tragédia que se avizinhava.
Na verdade, os dois lados estavam totalmente despreparados para uma guerra longa. Suas tropas, quase todas de voluntários, eram despreparadas, inexperientes, e faltava tudo, desde fardamento à espingardas, canhões, etc.
O primeiro grande encontro entre os dois ‘exércitos’ deu-se em 21 de junho de 1861, numa região perto (uns 50 km) de Washington, mas foi encarada como um grande e festivo piquenique. Espectadores moveram-se em suas carruagens, carroças simples, cavalos, para assistir, não perder o evento.
Mas o que houve foi tudo menos festa.=
Ao final, os confiantes nortistas, tiveram que bater em retirada, em desespero, à procura de uma sítio seguro.
Dos 50 mil envolvidos nesta gesta (nada épica, mau presságio!), entre mortos e feridos, houve mais de 5 mil.=
O grande poeta Walt Whitman, um libertário, homem esclarecido, autor da obra mundialmente famosa Folhas de Relva, registrou em seu diário esse dia como o ‘dia da crucificação do presidente Abraham Lincoln’.
A guerra, que era pra ser curta, durou exatamente 1.505 dias, de 12 de abril de 1861 a 26 de maio de 1865.
Custou em torno de 660 mil vidas, entre as quais, a do presidente Lincoln, que havia proclamado, em 1º de janeiro de 1863, a libertação de todos os negros em território dos Estados Unidos, e com isso acentuado mais o ódio dos sulista.
Houve várias batalhas que estão hoje registradas – e orgulhosamente transmitidas aos jovens nos bancos escolares – nos anais da gloriosa história da Nação do Norte. A principal, ao menos na opinião deste historiador diletante, é a de Gettysburg, ocorrida em dias de julho de 1863, na qual mais de 50 mil homens foram feridos ou mortos, e que foi decisiva para a vitória da União. Sobre esse evento, há um texto da lavra do presidente Lincoln, com exatas 267 palavras, do pronunciamento feito em honra aos mortos nessa batalha, que é um primor de escrita em termos de humanidade, respeito aos mortos de ambos os lados, elevação ao patriotismo, libelo à liberdade, fraternidade, irmandade...
Entre os grandes nomes militares envolvidos, destaco dois, os principais: Ulysses S Grant, pelos nortistas, e Robert E. Lee, pelos derrotados sulistas.
Depois da guerra, o general Ulysses S. Grant foi consagrado pelas urnas como o 18º presidente dos Estados Unidos, ficando no cargo por dois períodos entre os anos 1869 e 1877.
Finalizo com uma provocação: vocês sabiam que morreram mais soldados americanos durante os 4 anos de guerra entres os confederados e unionistas do que em todas as guerras nas quais os Estados Unidos se envolveram no século XX?
Digo e provo!
Mas antes de provar, como comparativo, a nossa guerra entre irmãos sul-americanos, a Guerra do Paraguai, também foi ‘porrada’ em termos de mortandade, morreram um total de 150 mil combatentes, dos quais em torno de 50 mil eram brasileiros. O Google fala em 350 mil mortos totais, mas não está correto, a estimativa é exagerada. O Interessante é que uma guerra, do ponto de vista temporal, sucedeu à outra: 1861 a 1865 lá, aqui de 1864 a 1870.
A prova:
Guerra da Secessão, 660 mil mortos;
Entre as guerras que os Estados Unidos se envolveram durante todo o século XX, o total de mortos estimados alcança pouco mais de 647 mil mortes, sendo:
Primeira Guerra Mundial, 116.516;
Segunda Guerra Mundial, 405.399;
Guerra da Coreia, 36.516;
Guerra do Vietnã, 58.209;
Guerra do Golfo, 258.
That’s All, Folks!

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