NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
IA - Inteligência Artificial -
a nêmesis do século XXI -
AI – nêmesis do século XXI – um terrível adversário da
humanidade a ser domado! (retirado da web)
Dias desses, quando eu recém havia escrito um texto sobre a entropia, um amigo e leitor do blog, o médico Paulo Fabris, fez-me uma observação, ‘João, por que não escreves algo sobre a AI?’. Aí eu o lembrei de que havia escrito uma crítica do livro NEXUS, do historiador israelense Yuval Noah Harari, um livro/estudo que, entre outros temas, também fala dos riscos e dilemas da Inteligência Artificial como um mecanismo/rede autônomo que, pela primeira vez, toma decisões por conta própria. Mas daria, sim, para eu desenvolver mais sobre este importante tema.
Harari descreve exemplos do uso da AI para coisas absurdas, anti-democráticas, próprias de repúblicas tirânicas como ocorria na comunista Romênia do Ceuscesco ou no Irã dos aiatolás dos dias de hoje, tal como identificar rostos de mulheres iranianas que não estão usando o hijab (véu que cobre o rosto), ligar para a ‘transgressora’ no ato e marcar a sua penalização – que vai num crescendo chegando até mesmo à prisão! Isso é, a meu ver, a aplicação brutal do conceito do grande irmão, BB (livro 1984 – George Orwell) elevado à potência 1000!
Mas, como diz a sabedoria popular, a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Plagiando o genial Caetano Veloso, que no seu baianês suave e arrastado, sempre termina qualquer assunto complexo com um ‘ou não’, tipo: ‘essa coisa da inteligência artificial é, creio, algo muito perigoso à sociedade, ou não!’
IA, que é exatamente?
Em primeiro lugar, a ideia do uso dos computadores para extrairmos IA vem de longe, lá do inglês Alan Turing (1903-57), matemático e cientista da computação, reconhecido por todos como um dos pais da computação e da AI, que já em 1942, durante a 2º Guerra, conseguiu quebrar a complexa criptografia da máquina "enigma" utilizadas pelos nazistas, ajudando, com isso, na vitória dos aliados.
Turing foi o primeiro a pensar nos computadores como um sistema capaz de responder a qualquer tipo de problema, sem esquecermos que foi ele quem formulou o famoso "Teste de Turing" que avalia a capacidade de um computador de exibir comportamento inteligente equivalente ao de um ser humano.
No início deste século, áreas como prospecção de petróleo, análises de dados da física quântica, da aviação, etc., já possuíam seus "gênios", parametrizando máquinas e extraindo delas dados complexos de um modo rápido e confiável. Existiam, sim, mas poucos conseguiam utilizá-las, não eram ‘"amigáveis" como nos dias de hoje.
A inteligência artificial está aí, presente no nosso cotidiano, é algo real, impactante em nossas vidas, da qual não há como escaparmos. Assim, amigos, não há como não avançarmos no conhecimento, mesmo que básico, nesta área da computação e suas extraordinárias possibilidades de aplicações.
As bigtecs investiram, nos últimos 10 anos, bilhões e bilhões de dólares numa intensa corrida tecnológica que ao fim definiria quem teria o usufruto dos louros em forma da exponencial valorização das suas ações na Nasdaq – Apple, Microsoft, Nvidia, Google, Meta, Mistral AI, entre as principais –, ou ficaria no rabo da história tecnologia e definharia economicamente.
Eu, ser antitecnológico por excelência, tenho usado a IA do Google e estou satisfeito, mas leio, vejo, ouço de sucessos como o tal ChatGPT, da OpenAI, e alguns outros, mas não ouso me entronizar nesta área, pois em termos de tecnologia sou, com otimismo, pouco mais evoluído que um dinossauro.
Eu citei basicamente as empresas ocidentais, mas não dá para omitirmos a importância das empresas chinesas, as quais estão superavançadas em termos de robótica (que a gente só acredita, pois está vendo, mas que é incrível a evolução, isso é!), patentes industriais, modelos concorrentes, etc.
No dia a dia do nosso cotidiano, quem ainda não viu no screen de um celular a foto de um avô nascido em 1920, em preto e branco, ser colorizada e criar movimentos como se um filme fosse?
Usando o AI do Google, a definição bem básica da AI é:
"O campo da ciência da computação que desenvolve sistemas capazes de simular o raciocínio humano. Em vez de apenas seguir regras rígidas, essas máquinas analisam dados, reconhecem padrões e tomam decisões de forma autônoma.!
Claro que é muito mais, mas a essência é isso mesmo.
A questão que se coloca é se o AI é um bem ou um mal (uma nêmesis, como nos têm alertado alguns cientistas e sociólogos) colocado à disposição da humanidade.
Eu, particularmente, usando a metáfora dos medicamentos, vou pelo mesmo caminho que lá atrás "causou" no mundo quando do aparecimento do urânio radioativo e da bomba atômica, ou seja: pode ser uma mal – vide Hiroshima e Nagasaki – ou um bem, como exemplos: a terapia radioativa que usamos no combate de doenças como o câncer, as usinas nucleares para produção de energia elétrica, exames de imagens, etc.
Neste exato momento, a AI, com seus algoritmos complexos, está sendo usada para, entre outras áreas:
1) detectar ondas gravitacionais que comprovam a teoria do A. Einstein;
2) parametrizar, classificar e simular dados de pesquisa em física quântica, pois algoritmos de aprendizado ajudam a contornar o alto custo computacional necessário para resolver suas equações e identificar padrões em volumes massivos de dados experimentais;
3) simular novas moléculas, revolucionando o processo de descoberta de fármacos, transferindo grande parte dos testes laboratoriais de tentativa e erro para simulações virtuais ultrarrápidas;
4) prever como as novas moléculas interagem com o corpo humano, acelerando o desenvolvimento de tratamentos, e muito mais. Já ouvi cientistas da área da medicina afirmando, com um otimismo calculado, que dentro de cinco anos haverá medicação para todos os tipos de cânceres e outras doenças hoje mortais, aumentando a nossa expectativa de vida – com qualidade;
5) no entretenimento: cinema, televisão, streaming, música, etc., não há limites. Qualquer um interessado escreve uma letra, pega um programa do GPT, parametriza os dados e, pronto, consegue compor uma música e editá-la no YouTube ou em outro aplicativo, divertindo familiares e amigos.
A aplicação na feitura de filmes é quase que ilimitada: pode-se pegar o rosto e a fala do James Dean, morto aos 24 anos, em 1955, um superstar, e fazer um filme como se vivo estivesse. Loucura total.
Claro que há coisas desagradáveis, como, por exemplo, ver-se um vídeo na web e não termos a certeza se é fake ou real. Imagino o problema dos professores avaliadores de trabalhos escolares ou trabalhos de conclusão de mestrado, etc.
Assisti dias atrás, no YouTube, uma entrevista do cientista Sérgio Sacani com o professor Walter Longo, legal, extensa, prolixa, sobre o AI. O professor classificou-a como um tsunami tríade: com abrangência, impacto e velocidade, e que de nada adianta a gente reagir, pois é algo que veio para ficar, portanto o seu conselho é que surfamos neste tsunami, pois vai doer menos, passará, e fará parte do nosso cotidiano. Particularmente, fiquei alarmado, o eminente professor disse que neste último ano escreveu 16 livros usando a AI. Há informações na rede de que hoje, em torno de 12% dos trabalhos científicos, são produzidos via AI, absurdo!
Pessoal, falei bastantes coisas sobre o que é o IA, sobre ‘sua definição’ – que convenhamos, é complexa, controversa, polêmica – e vou terminar apresentando dois depoimentos: um, do pai da computação, John Von Neumann; outro, do brasileiro Miguel Nicolelis, médico, cientista neurocirurgião de fama e respeito mundial:
· Neumann (1903-1957), um dos maiores matemáticos do século passado, e que foi quem desenvolveu o modelo lógico dos computadores, disse, resumidamente, que um computador é uma máquina de fazer cálculos, simples assim. Ao avaliar a tecnologia, ele alertou (isso lá pelos anos 1950) que o progresso rápido e incontrolável causaria instabilidades. Ele afirmava que o caminho para lidar com o poder tecnológico incontrolável exigiria o uso de ‘julgamentos diários, inteligentes; e tomadas de decisão, cautelosas’;
· Nicolelis, paulista de 65 anos, para ele o atual boom da AI é considerado uma das ‘maiores ciladas’ e um "delírio coletivo": ela não é inteligente e nem mesmo artificial.
A inteligência é uma propriedade biológica exclusiva dos seres vivos, moldada pela seleção natural para a sobrevivência. O cérebro humano opera em lógica analógica e é um sistema complexo de criação de realidade. A inteligência, para o autor, é um fenômeno não computável, ou seja, não pode ser reduzida a algoritmos ou equações matemáticas. Não é artificial, pois os sistemas de IA dependem da criatividade humana e do trabalho invisível e precário de milhões de pessoas em todo o mundo para treinar e corrigir os modelos (rotulagem de dados).
(Sinceramente, analisando vários depoimentos, falas, escritos deste cientista, de fama e conceito mundial, concluo ser alguém que tem certa tecnofobia ou pessimismo intrínseco sobre essa área, acha tudo errado, o mundo vai terminar, as bigtecs são um mal à humanidade, são predadoras, critica o sistema de vida e a economia dos Estados Unidos, mesmo lá vivendo desde 1980, etc. No mínimo, interessante!)
Inteligência artificial com computadores quânticos, e daí?
Bom, se estamos num misto de euforia e apreensão com as presente AIs, que tal uma revolução tecnológica e de costume igual (ou ainda maior em termos de importância e repercussão) ao aparecimento da internet?
O hibridismo destas duas valências, Deus meu! Preparemo-nos!
O Computador Quântico tem um potencial de transformação na maneira como as máquinas atuais (computadores tradicionais) processam as informações, tão extraordinário, que até mesmo os mais experts da área têm dificuldades para traduzir esse ‘potencial’ em palavras e previsões.
Essa combinação certamente abrirá pontes para a solução de problemas antes impossíveis ou impensáveis.
Um computador tradicional (CT) trabalha com bits (‘zero e um’, ‘ligado e desligado’, ‘sim e não’). A informação processada é uma sequência imensa dessa binariedade.
Já o quântico (CQ) trabalha com o qubits que processa, entre o ZERO e o UM, um universo de outras possibilidades que envolvem os princípios da mecânica quântica como o ‘superposicionamento’ e o ‘entrelaçamento’.
A coisa é tão extraordinária que um CQ pode calcular em segundos o que um CT levaria anos para conseguí-lo.
O desenvolvimento dos algoritmos de IA, num computador quântico, teria limite?
Qual seria este limite?
Loucura total!
Então, caro leitor, imaginemos o que poderá fazer (pro bem?... pro mal?) a associação de um chat GPT com um CQ?
Vou finalizar dizendo que eu tenho muita dificuldade para enxergar em um tempo curto (10 / 20 anos) computadores quânticos operacionais. O que teremos (é minha opinião de curioso, nada retirado de chat GTP) será grandes instalações com sistemas próximos a um computador quântico plenamente operacional, em grandes corporações, prestando serviços a clientes vários de uma maneira muito pontual.
Vou dizer o porquê assim penso:
A computação quântica, o uso dos qubits entre o 0 e 1, exige uma sofistificação técnica tão complexa, tão difícil de ser operacionalizada, que, usando uma metáfora, seria o mesmo que eu tentar empilhar umas 1000 moedas de um real, em pé, uma sobre a outra. É possível? Matematicamente, sim, mas em termos de probabilidade, é uma chance em um trilhão ou mais!
Eu me lembro perfeitamente quando da novidade da fusão do átomo para produzir energia, isso há uns 40 anos. Estourou nas mídias, todos falavam, é o futuro que está chegando, adeus fissão do átomo, adeus resíduos radioativos, adeus às complexas e caras usinas hidroelétricas, adeus às queimas de carvão, adeus...
Era tão recorrente que até houve o caso da famosa ‘fusão a frio’, que saiu na revista Veja, por erro ou brincadeira.
O problema da fusão nuclear é o conflito entre a teoria e a realidade: na realidade, fundir dois átomos de hidrogênio para obtermos um de hélio e a liberação fantástica de energia precisaremos da mesma energia do interior do sol: milhões de graus. E, como conseguir?
Pra mim, ainda levaremos mais uns 20 para termos algo operacional, isso se conseguirmos!
No caso do Computador Quântico ‘operacional’ (não um aparato tecnológico conceitual), penso o mesmo: é coisa pra daqui a 20 / 30 anos, ou mais!
Contrariando-me, mas não tanto, vejam o que diz a IA do Google: ‘Embora o controle de um computador quântico seja estatisticamente improvável se tentado por força bruta, ele é totalmente viável quando estruturado através de portas lógicas e algoritmos matemáticos complexos que guiam as probabilidades a nosso favor. Pode-se acompanhar as últimas atualizações sobre essa corrida tecnológica no portal do MIT - Massachusetts Institute of Technology’.
Fui!
That’s All, Folks!

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