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Alfredo Octávio: o maior jornalista do Brasil
NESSA SEXTA
a cesta do João Paulo
JJOÃO PAULO DA FONTOURA é de Taquari-RS. É escritor e historiador diletante, membro da ALIVAT – Academia Literária do Vale do Taquari, titular da cadeira nº 26. Autor do livro biográfico "Costa e Silva", edição 2025
- Guerra dos Canudos -
Os Sertões
"Os Sertões representou o mea culpa da geração de Euclides que,
como membro da consciência letrada do país,
não compreendera aquele Brasil profundo ..."
Este é um outro tema histórico nos solicitado por um dileto leitor deste Blog, tema este qual, sinceramente, deixa-nos (ou ao menos a mim) uma sempre grande dúvida: o que foi foi mais importante, a guerra em si, ou a sua descrição feita magnificamente pelo jornalista e escritor Euclides da Cunha, em seu livro Os Sertões, de 1902?
Esta obra maior do grande autor traz uma enorme dificuldade aos críticos literários brasileiros quando tentam classificá-la a partir dos cânones tradicionais: é um livro-reportagem? Sim, ele o é, mas é muito mais. Então é um livro pré-modernismo? Ou seria então um clássico ensaio histórico e sociológico de um evento da aurora da nossa república, ainda imberbe, ainda imatura, que confundia um evento social, localizado, com ‘sebastianismo puro’? Pode ser, mas certamente é ainda mais.
Então, caro amigo leitor, usemos a senda dos imprecisos: é um escrito inclassificável, uma mistura esparsa de ótima literatura com o uso abundante e rico (que eu adorei) de figuras de linguagem como, por exemplo, o pleonasmo ‘sol quente’; mais outras, como: ‘(...) o andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados...’. Das suas frases, lindas, sintéticas, a que mais me marcou é ‘o sertanejo é antes de tudo um forte!’
Não vou aqui fazer uma análise crítica da obra em si, pois li Os Sertões há bem mais de 40 anos, então me faltaria elementos para fazê-lo, e teria que o reler adrede.
Mas aviso aos amigos, ler Os Sertões é ler algo profundo, extenso, o leitor tem que estar preparado para uma imersão louca (o livro da Companhia das Letras dá em torno de 550 páginas). Esqueçam por completo a rapidez, a fluidez, e a inocuidade do Tic-Toc!
Os Sertões é porrada!
O que lembro, e bem, é que o livro contém uma divisão em três partes: A Terra, O Homem e A Luta.
Em A Terra, ele extravasa seu conhecimento técnico de engenheiro e descreve a geografia, a topologia da região, a vegetação do local, etc.;
Em O Homem, Euclides da Cunha descreve o sertanejo como uma figura marcada por fortes contrastes, forjada pela miséria e pela aridez da caatinga. A visão (do autor) é profundamente ambivalente, misturando o fascínio pela resistência física com o preconceito das teorias científicas e raciais da sua época; daí vem a frase, (...) antes de tudo, um forte;
Em A Luta, ele descreve a guerra de Canudos não apenas como um conflito militar, mas como um violento choque cultural e geográfico. Ele retrata os jagunços como sertanejos resistentes, perfeitamente adaptados ao meio, e o Exército como uma força despreparada, lutando tanto contra os rebeldes quanto contra a hostilidade da caatinga.
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Caro leitor, vou abaixo colocar uma pequena bio do Euclides da Cunhas, e depois, em rápidas palavras, descrever a guerra em si.
Euclides da Cunha,
Escritor, jornalista e professor, autor de uma das maiores obras da literatura brasileira, Os Sertões, Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, no dia 20 de janeiro de 1866, filho de Manuel Rodrigues da Cunha Pimenta e Eudósia Alves Moreira da Cunha.
A partir de 3 anos, viveu entre fazendas na Bahia e o Rio de Janeiro, com tias que o criaram depois que ficou órfão de mãe.
Devido à morte precoce de sua mãe e às constantes mudanças de seus tios e avós na infância, Euclides da Cunha estudou em diversas instituições.
Ele passou pelo Colégio Caldeira, de Cantagalo, Rio de Janeiro, e pelo Colégio Ribeiro, na Bahia. Também frequentou colégios como o Anglo-Americano e o Vitório da Costa, ambos no Rio.
Concluiu seus estudos secundários e preparatórios no tradicional Externato Aquino, onde foi aluno do célebre professor e militar Benjamin Constant.
Essa formação o preparou para ingressar no ensino superior na Escola em 1885, com 19 anos, na Escola Politécnica, mas, por falta de recursos, transferiu-se para a Escola Militar da Praia Vermelha.
(Nessa época, escrevia para a revista da escola ‘A Família Acadêmica’, artigos inflamados, nos quais defendia ideais republicanos.)
Em 1888, quando o seu batalhão era passado em revista pelo Ministro da Guerra do Império Tomás Coelho, saiu ‘fora de forma’ e jogou sua espada aos pés do ministro, gritando – bem alto – ‘viva à República’!
Em consequência da insubordinação, o jovem cadete foi desligado da carreira militar.
Já em São Paulo, onde passou a viver no interior, passou a colaborar assiduamente nas páginas do jornal ‘Província de São Paulo’, defendendo os ideais republicanos, que era a linha ideológica do jornal.
Proclamada a República em 1889, Euclides da Cunha voltou para o Rio de Janeiro e retornou ao Exército. Na Escola Superior de Guerra, fez os cursos de artilharia, de engenharia militar e bacharelou-se em Matemática e Ciências Físicas e Naturais. Nesse período, casou-se com Ana Sólon Ribeiro. Foi promovido a primeiro tenente e passou a lecionar na Escola Militar. Dedicou-se a escrever artigos sobre problemas políticos e sociais.
Desiludido com a República (basicamente em função das punições aos envolvidos na Revolta da Armada), nosso biografado desligou-se do Exército e dedicou a maior parte do seu tempo ao estudo dos problemas brasileiros.
Em agosto de 1897, foi convidado pelo jornal para ir à Bahia, onde presenciou os últimos momentos do conflito que serviu de matéria para sua obra prima, Os Sertões. Por este livro, foi eleito, em 21 de setembro de 1903, para a cadeira nº 7 da ABL.
Morreu relativamente jovem, assassinado, em 15 de agosto de 1909, com meros 43 anos, em função do escândalo pelo adultério de sua esposa, em consequência de sua permanente ausência familiar. Foi morto a tiros quando foi tirar satisfação do amante da esposa, o jovem oficial militar Dilermando de Assis. E o mais trágico ainda, foi que seu filho, anos depois, foi tirar satisfação do assassino e teve o mesmo fim de seu pai. (Esta história é bem conhecida, pois foi minissérie da Globo , com o nome Desejo, de 1990).
Os restos mortais de Euclides da Cunha repousam no Mausoléu do Recanto Euclidiano, localizado na cidade de São José do Rio Pardo, São Paulo.
Apenas como curiosidade, há uma cidade na Bahia com o nome Euclides da Cunha, justa homenagem do povo baiano ao grande e imortal escritor.
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A Guerra,
Essa guerra se insere no contexto de três guerras ocorridas logo após a Proclamação da República em 1889, ou seja: a Revolução Federalista (1893-1895), a Guerra de Canudos (1896-1897), e a Guerra do Contestado (1912-1916).
Mesmo que em Canudos tenha havido mais de 25 mil mortos (entre os quais cinco mil soldados), contra 10 mil da nossa Revolução Federalista, do ponto de vista de importância histórica, a ‘nossa’ foi muito superior, durou bem mais, e colocou a imberbe República em real perigo de queda.
(A queda de Canudos foi muito mais um genocídio que uma luta justa. Na quarta arremetida do Exército, a população do arraial foi praticamente dizimada em virtude dos tiros de canhão, da fome, de doenças e de execuções sumárias cometidas pelas tropas republicanas.)
Esta guerra é aquilo que classicamente podemos chamar ‘a guerra dos mal-entendidos’.
A história de que foi uma guerra contra a novel república é uma bobagem singular. Mas, sinceramente, não acho que houve ‘mal entendidos’, e sim que foi algo premeditado, intencional, interesseiro.
Os ‘coronéis’ locais, que representavam a elite agrária da região, na defesa dos seus interesses, usando o mote da ‘defesa da República que estava sendo vilipendiada por Antônio Conselheiro e seu séquito de (fanáticos) seguidores’, clamou para que o exército de Prudente de Morais, dando seguimento às ações do Marechal de Ferro Floriano Peixoto, reprimisse o movimento a ferro e fogo. E isso foi feito, mesmo que a custo de muitas mortes e de quatro expedições.
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Finalizo dizendo que essa guerra ao menos uma coisa fez de bem à humanidade: acabou com a vida do coronel Antônio Moreira César, cruél responsável pela brutal repressão (mais de 150 federalistas mortos sumariamente por fuzilamento entre abril e julho de 1894) ao vencidos maragatos no Forte da Fortaleza de Santa Cruz, em Santa Catarina, quando da retomada da ilha pelo Republicanos na Guerra Federalista de 1893.
O tirano morreu atingido por um tiro no abdômen, durante a fracassada 3ª expedição militar, em março de 1897.
É isso, pessoal!


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