Sexta, 22 de julho de 2022

 

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especial

Nesta sexta, uma cesta
de Luc Ferry! 


O filósofo do cotidiano

Muitas religiões e ideologias fizeram
as sociedades e os indivíduos
sacrificar-se por ideais inúteis.
 


Os dois males que estragam nossa existência são a nostalgia de um passado que não existe mais e a espera de um futuro que ainda não existe.


⁠Nada pior do que o fracasso, a não ser o êxito quando ele não nos satisfaz.


⁠Os deuses não devem ser temidos; a morte não pode ser sentida; o bem pode ser conquistado; o que tememos pode ser vencido.



Aprender a Viver, lançado em 2006, vendeu 700 000 exemplares, 40 000 deles no Brasil. Seu segredo é combinar formação acadêmica sólida com um texto leve e bem-humorado. Ferry se alinha com o chamado humanismo secular. Essa corrente da filosofia propõe o uso da razão crítica em vez da fé na busca de respostas para os assuntos que mais intrigam a humanidade, como o amor, a morte e a procura da felicidade.








“A sociedade atual não se inspira em ideais superiores em termos de civilização, como no Iluminismo. O que nos dá a sensação de progredir é comprar, comprar, comprar. Essa lógica apenas aumenta nossa insatisfação



Luc Ferry
  é natural de Colombes, departamento de Hauts-de-Seine, França. Nasceu em 1º de janeiro de 1951, e é filósofo, professor de filosofia e político engajado no União por um Movimento Popular (UMP).

Foi Ministro da Educação Nacional da França no governo de Jean-Pierre Raffarin de 2002 a 2004. Como ministro ficou muito conhecido em 2004 por ter banido o véu islâmico das escolas.


Critíca algumas tendências do ambientalismo no seu livro A Nova Ordem Ecológica. Em conferência, de 9 de Abril de 2005, realizada na Sorbonne, com o tema "O que é filosofia?" define-a como uma soteriologia, isto é, uma doutrina da salvação. É, portanto, um concorrente das grandes religiões.

Com a esposa Marie-Caroline

De acordo com Ferry, a filosofia começou a ser completa quando ela se afastou de Deus. Quanto mais a filosofia for laica, mais corresponde à definição de filosofia.

Realizou o ensino secundário no Liceu Saint Exupery de Mantes. Antes estudou em casa pelo Centro Nacional para Educação à Distância. Graduou-se na Universidade de Paris-IV e na Universidade de Heidelberg.

Professor de Filosofia (1975-1982)

Doutor de Estado em Ciência Política (1981).

Foi professor no Institut d'Etudes Politiques de Lyon (1982-1988) e na Universidade de Caen (1989-1996)

...

O filósofo Luc Ferry é o oposto do que geralmente se associa a um intelectual francês. Seus livros são fáceis de ler – estão sempre na lista dos 10 mais vendidos na França. Os títulos lembram a auto-ajuda (Aprender a Viver, O Que É uma Vida Bem-Sucedida ou Famílias, Amo Vocês), mas tratam apenas de questões-chave da história da filosofia. 

“Minha questão é saber como o ser humano pode viver melhor, e isso só a filosofia é capaz de responder”, diz. Além de escrever best sellers, Luc Ferry milita na direita francesa, ao contrário de muitos dos seus colegas intelectuais. Membro do governo do presidente Nicolas Sarkozy, ele era ministro da Educação em 2004, quando a França criou polêmica ao proibir que as crianças usassem símbolos religiosos na escola – lei que afetou sobretudo jovens muçulmanas que usavam véu. Ele também não é um intelectual pessimista, mas um entusiasta da maneira de viver e pensar do Ocidente. 

Se o Brasil e o mundo ficam escandalizados com a morte da menina Isabella ou o caso do austríaco que praticou incesto com a filha durante 28 anos, Ferry diz que nunca amamos tanto nossa família. Numa tarde quente de primavera em Paris, o filósofo explicou por que o amor à família é a novidade na história que define o mundo de hoje. 

Vale a leitura da entrevista, na Super Interessante: https://super.abril.com.br/comportamento/entrevista-com-luc-ferry/


A felicidade não existe. Só a serenidade 


A LIBERDADE
COMO DESAFIO SOCIAL



A FELICIDADE É
UMA IDEIA ABSURDA



A BOA VIDA



CASAMENTO HOMOSSEXUAL
E EDUCAÇÃO DOS FILHOS



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A FILOSOFIA
PARA UM NOVO TEMPO


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“Quem alardeia o declínio da família esquece que o divórcio foi inventado junto com o casamento por amor. Quando a união se ampara apenas no sentimento, basta que o amor se apague para que outro amor se imponha”


ENTREVISTA (VEJA.COM.BR - 8/11/2009)

Em seu livro, “Famílias, Amo Vocês”, o senhor argumenta que a família substituiu a religião como entidade sagrada no mundo moderno. Isso não contradiz a constatação do aumento no número de fiéis em diversas igrejas de todo o mundo?

Essa corrida para as igrejas não chega nem perto do que acontece quando o assunto é família. Pergunte aos milhões desses novos fiéis se eles morreriam pelo seu deus. A resposta será não. A família é a única entidade realmente sagrada na sociedade moderna, aquela pela qual todos nós, ocidentais, aceitaríamos morrer, se preciso. Os únicos seres pelos quais arriscaríamos a vida no mundo de hoje são aqueles próximos de nós: a família, os amigos e, em um número bem menor, pessoas mais distantes que nos causam grande comoção. No século XX, o ser humano virou sagrado.

O que o senhor considera sagrado?

Para entender o que é sagrado é preciso conhecer a história do sacrifício, ou seja, por quais razões os humanos já aceitaram sacrificar a própria vida. No fundo, esse é o significado do sagrado: algo pelo qual vale a pena morrer. O homem abriu mão da vida por três grandes causas através dos tempos: por Deus, pela pátria e pelas revoluções. Matou e provocou a morte de milhões de pessoas em guerras religiosas, batalhas nacionalistas e embates revolucionários. Hoje, no Ocidente, ninguém mais aceita morrer por um deus, um país ou um ideal. Há, sim, religiosos extremistas no Islã. Há gente na Chechênia ou na Ossétia disposta a morrer pela nação. Mas garanto que não há cidadãos com tais intenções na Alemanha, na França ou nos Estados Unidos. Em contrapartida, não conheço pai que não arriscaria a vida por seus filhos. Os filhos se tornaram o principal canal para o homem tentar transcender espiritualmente. As crianças substituíram as instituições despedaçadas que citei acima.

Os pais de antigamente amavam menos seus filhos que os de hoje?

O amor dos pais pelos filhos é instintivo e descrito desde a Antiguidade em mitos e lendas. Esse sentimento, porém, estava longe de ser uma prioridade para os casais. O escritor francês Michel de Montaigne (1533-1592), celebrado como grande humanista, confessou não se lembrar do número exato de filhos seus que morreram enquanto ainda eram amamentados. O filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), um dos próceres do Iluminismo, abandonou seus cinco filhos sem dó nem piedade. Esses exemplos parecem bizarros, mas temos de lembrar que, até a Idade Média, não havia sequer o conceito de infância. Foi entre os séculos XVII e XVIII que a infância passou a ser definida como um período de fragilidade e ingenuidade, no qual se deve prover as crianças de mimos e carinhos.

O que provocou essas mudanças?

Praticamente todas as relações familiares da sociedade contemporânea têm origem no casamento por amor, que nasceu com o capitalismo. Antes disso, o casamento se destinava a atender a uma série de interesses. O sentimento era o que menos contava. Casava-se para dar continuidade à família, manter a linhagem e a propriedade. Com o capitalismo e tudo o que é derivado dele, como o salário e o mercado de trabalho, uma nova ordem se estabeleceu. As mulheres, antes confinadas em suas casas, foram para as cidades trabalhar na casa dos burgueses, como empregadas, ou se tornaram operárias nas fábricas. Essa mulher começou a ganhar o seu dinheiro – pouco, mas seu – e a conquistar a independência. Com isso, houve uma grande ruptura. A percepção a respeito dos filhos e das crianças em geral também sofreu grande modificação.

A frequência com que os casais hoje se divorciam e iniciam novos relacionamentos não desmonta o argumento de que a família é sagrada?

Essa idéia não se sustenta nem do ponto de vista histórico nem do filosófico. Há vários argumentos que desmentem os clichês hoje propagados sobre o declínio do casamento e o fim da família nuclear. A família na Idade Média era muito mais dividida do que hoje. Havia muito mais pais e mães sozinhos cuidando de seus filhos. Por causa da elevada taxa de mortalidade, as pessoas se casavam mais vezes e tinham mais filhos com outros parceiros. Quem alardeia o declínio da instituição familiar esquece que o divórcio foi inventado junto com o casamento por amor. A partir do momento em que a união entre duas pessoas se ampara apenas na lógica do sentimento, basta que o amor se apague para que outro amor se imponha. A família burguesa é aparentemente estável, mas na maioria dos casos está carcomida por infelicidades. Ela é inseparável de outra instituição: a infidelidade. Muitas mulheres sacrificam a profissão e, em seguida, a vida afetiva por um marido que as engana.

Uma sociedade sem religiões e sem ideologias, como o senhor a vislumbra, não é contrária à índole humana?

De jeito nenhum. Muitas religiões e ideologias fizeram as sociedades e os indivíduos sacrificar-se por ideais inúteis. O sociólogo alemão Max Weber costumava dizer que era possível encontrar os valores tradicionais do sacrifício no código do mar. Segundo esse código, o comandante de um navio deve morrer com sua embarcação naufragada, mesmo quando os passageiros e a tripulação se salvam. Para continuar a metáfora, eu diria que hoje ninguém mais está disposto a morrer pelo casco do navio, mas somente pelos passageiros que ele abriga. Isso é um grande progresso. Não tenho nenhuma saudade dos extremistas religiosos ou nacionalistas que provocaram a morte de 50 milhões de pessoas na II Guerra.

O senhor argumenta que o amor dá sentido à vida. A busca desenfreada pelo amor não causa mais sofrimento?

A condição do homem moderno é mais trágica do que nunca. O casamento por amor nos condiciona a amar mais e mais. A perda do ser amado tornou-se um luto. Isso só aumenta o descontentamento do mundo ocidental, no qual o homem se transformou num ser eternamente insatisfeito.

Então o senhor concorda com a tese de muitos filósofos contemporâneos de que o homem nunca foi tão infeliz?

Há um descontentamento generalizado no mundo moderno. A sociedade se interessa mais pelos meios em si do que pelos fins. Um olhar sobre o Iluminismo ajuda a compreender esse novo mundo. As mentes mais brilhantes do século XVIII buscavam nas ciências e nas artes emancipar a humanidade do obscurantismo da Idade Média. Tudo era feito com o objetivo de, no fim, alcançar a liberdade e a felicidade. Hoje, o movimento das sociedades não se inspira em ideais superiores em termos de civilização. A sociedade se movimenta no sentido de estabelecer a concorrência acirrada entre todos os indivíduos, sem objetivos finais claros. A história não se move pela aspiração a um mundo melhor, mas pela ação mecânica da competição. O êxito pessoal é o que importa. Precisamos ter poder, dinheiro, um carro novo, uma mulher nova, os filhos mais bonitos, tudo para conseguir o reconhecimento alheio e nos sentir superiores aos outros. Como dizia o filósofo romano Sêneca, enquanto esperamos viver, a vida passa rapidamente.

Dentro dessa perspectiva, a felicidade é possível?

O filósofo alemão Immanuel Kant tem um ótimo argumento sobre isso. Se a felicidade fizesse parte da natureza humana, Deus não nos teria dado a inteligência. Desde sempre o ser humano vive seus conflitos e tenta gerenciá-los da forma que pode. Hoje, vivemos na era do hiperconsumo. O que nos dá a sensação de progredir, de ser felizes, pelo menos momentaneamente, é comprar, comprar e comprar. Claro que isso não basta. A lógica contemporânea aumenta a insatisfação e nos incute medos cotidianos e recorrentes.

Que medos acometem o homem contemporâneo?

Nós, ocidentais, temos medo de tudo. Da velocidade, do sexo, do álcool, do tabaco, da carne vermelha, de frango, da Europa, do efeito estufa, da globalização, das notas escolares das crianças, e por aí vai. Todo ano se acrescenta um novo medo aos anteriores. Na época em que era ministro da Educação, fiquei com medo quando vi jovens franceses que mal tinham saído da universidade fazendo passeatas em defesa da aposentadoria deles. Em meus anos no governo, nunca recebi uma delegação sindical que não começasse a conversa com um “Senhor, estamos muito preocupados”. E não há nenhuma ironia nisso. O medo é uma das paixões dominantes das sociedades democráticas. Ele não existia dessa forma no Iluminismo. Quando eu era criança, era feio ter medo. Superá-lo era um dos marcos da chegada à idade adulta. Hoje, ter medo não implica culpa. É através do medo que os movimentos ecológicos radicais, por exemplo, se impõem.

Como os medos cotidianos prejudicam a sociedade?

Qualquer ameaça, como o terrorismo, o aquecimento global ou a gripe aviária, desperta uma neurose global. A angústia que essa histeria causa individualmente é mais prejudicial do que a ameaça a que ela se contrapõe. Veja o exemplo do aquecimento global. Aos olhos das novas ideologias, a natureza é admirável e a ciência, ameaçadora e maléfica.

Como ministro da Educação, o senhor foi acusado de racista ao banir o uso de véu pelas estudantes muçulmanas e de solidéu pelos judeus nas escolas públicas. O senhor tomaria essa medida novamente?

Certamente. Em primeiro lugar, essa lei teve a aprovação de 75% dos franceses. Foi apoiada tanto pela direita quanto pela esquerda, o que é muito raro na França, uma nação singular. Nela convivem enormes comunidades judaicas e muçulmanas. Só há mais judeus em Israel e nos Estados Unidos. Estimamos que existam 5 milhões de muçulmanos no país. Após o início da segunda intifada, vimos aumentar exponencialmente os conflitos entre os dois grupos. O mínimo que poderíamos fazer era deixar nossas crianças fora desse clima de guerra. Não foi uma medida anti-religiosa, muito menos racista, mas de promoção da paz.

Seu livro anterior, “Aprender a Viver”, foi um enorme sucesso mesmo tratando de um assunto que não atrai muitos leitores, a filosofia. A que o senhor atribui esse êxito?

O ser humano precisa da filosofia mais do que imagina. A filosofia grega surgiu para ajudar o homem a superar seus medos e angústias e, assim, encontrar a serenidade. Os gregos propunham a reflexão como exercício de sabedoria. As principais correntes filosóficas são, na verdade, grandes doutrinas de salvação, assim como as religiões. A diferença entre religião e filosofia é que a primeira tenta encontrar a paz interior e a felicidade através da fé, enquanto a outra busca o mesmo pela razão, sem a intervenção de um deus. Mais do que nunca, vivemos num mundo no qual a religião não é suficiente para dar ao homem as respostas que ele procura.

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ENTREVISTA GALILEU

Pensador critica nova "ecochatice"

a ecologia nasceu do nazismo? o encontro de copenhague serve para algo? os ambientalistas querem que a gente pare de comprar carros e ipods? sabia que golfinhos já foram processados? na entrevista a seguir, o filósofo luc ferry revela o que você nunca imaginou sobre o passado e o futuro do meio ambientE




O filósofo francês Luc Ferry pratica a dolorida arte de cutucar certezas. Dê uma olhada, por exemplo, no que ele acha de alguns dos movimentos ambientais que brandem seus cartazes recicláveis por aí: “Os ecologistas radicais pensam que, para se chegar a uma solução, é preciso destruir o capitalismo e até a democracia. Mas a verdadeira ecologia é aquela que acredita na inovação, na razão e na ciência”.

O autor de A Nova Ordem Ecológica (Ed. Difel), que acaba de sair no Brasil, não espera grandes mudanças de encontros como o de Copenhague. Eventos desse tipo servem mais para resolver problemas políticos e econômicos do que fazer algo de bom para a saúde do planeta. Ferry entende que a saída para o aquecimento global está na tecnologia e nada mais.

Polêmico? O pensador, que ficou conhecido mundialmente por ter banido o véu das escolas francesas em 2004, enquanto foi ministro da educação, vai mais longe. Seu ganha-pão é mostrar o inusitado escondido nas coisas mais comuns. Um exemplo? Você sabia que o movimento ambiental pode ser visto como um sucessor direto do... nazismo? De Paris, Ferry, que é presidente do Conselho de Análises da Sociedade, ligado à Presidência da França, explicou essa história. E falou também sobre radicalismo ecológico, o julgamento de insetos e os direitos das árvores.

* encontros como o de copenhague servem para colocar em questão os movimentos ecológicos mundiais. você acha que eles resolvem alguma coisa?
Ferry:
 No fundo, o problema é que a ecologia tenta resolver um conflito econômico e político. O mundo vive a seguinte contradição: de um lado, temos que continuar crescendo para sair da crise econômica. Sem crescimento há falência, miséria e desemprego. Mas, por outro, se o Brasil, a Índia e a China crescerem tanto quanto os americanos, se vocês tiverem tantos carros, computadores ou televisões quanto eles, seriam necessários muitos planetas para tudo isso! Então, o que vários ecologistas defendem é o “decrescimento”. O problema é que eles são totalmente incapazes de assumir as consequências humanas, sociais e políticas de um processo como esse.

* os ecologistas são contra o capitalismo?
Ferry:
 A civilização ocidental moderna é baseada em uma cultura de consumo sem fim, ou seja, de um esgotamento das riquezas naturais. Aqueles que defendem o “decrescimento” são, desse ponto de vista, também anticapitalistas — e daí vem a forte ligação do altermundialismo (corrente política que usa o lema “um outro mundo é possível” e combate a globalização) e da ecologia. E há também uma forte crítica ao humanismo, à filosofia que está na base da modernidade.

* como assim?
Ferry:
 Com o nascimento dos direitos humanos, o Ocidente colocou o homem no centro do Universo. Alguns ecologistas querem tirar o homem do centro e colocar a natureza, defendendo, por exemplo, o direito dos animais ou das árvores. Essa ideia é, principalmente, uma arma de guerra, mas guarda uma certa verdade. Afinal, com o desmatamento, o Homo occidentalis se portou mal com a natureza e com os seus habitantes. E esse é o problema da ecologia: ela sempre tem um fundo de verdade. Se tudo estivesse errado, seria muito fácil... mas esse fundo de verdade é quase sempre transformado em arma de guerra contra a democracia moderna.

* aliás, em seu livro, você fala sobre pessoas que, na idade média, não só quiseram colocar a natureza no centro de tudo como também defender carunchos, ratos e árvores em tribunais de verdade... será que estamos dando um passo atrás, caminhando de novo para isso?
Ferry:
 Os processos de animais na Idade Média europeia são completamente ignorados pelo grande público, mas bastante significativos — e divertidos. Entre os séculos 13 e 18, houve na Europa centenas de processos de porcos, ratos, pulgas... com tribunais, juízes e até advogados de verdade! Esses processos que hoje nos fariam gargalhar não eram absurdos. A ideia de base era o direito antigo, o direito romano, segundo o qual o juiz está lá, um pouco como o médico, para colocar em ordem o “cosmos”, a natureza, cada vez que ela fica bagunçada. Quando um porco comia a mão de um menino na rua (na época os porcos viviam pela rua, não nos currais), era o porco a vítima do processo, e não seu proprietário. Quando o porquinho era condenado à morte, quem o executava era um carrasco... de verdade! A ordem cósmica era restabelecida, eliminando-se o fator problema, humano ou animal. Então, de certa forma, sim, você tem razão, as discussões sobre os direitos animais ou das árvores são uma forma de retorno às visões antigas do mundo. O problema, a princípio, é que, hoje, quando alguém tem direitos, tem também deveres, algo que para os animais e as árvores é um tanto complicado...

* em 1992, você previu que a discussão ecológica de hoje seria sobre o “grau de desprezo dos animais”. haveria uma proporcionalidade entre o grau de humanidade de uma pessoa e seu respeito pelos animais. o que me coloca em uma situação bem complicada cada vez que eu quero que um porco morra para virar linguicinha, ou um ganso seja torturado para que eu coma um bom foie gras...
Ferry:
 Essa é uma questão e tanto. Como sempre, há um lado de verdade na ecologia, e o sofrimento animal não é algo evidente. E nós sentimos isso, intuitivamente. Não temos nenhuma piedade pelas ostras ou pelos mariscos que comemos, não vemos problema nenhum com a morte deles. Mas, veja só, alguém que tortura um animal de estimação, como um cachorro ou um gato, nos horroriza. Não precisamos fazer uma declaração dos direitos animais, como na Europa, para achar o sofrimento animal algo realmente problemático e complicado. Como mostro no livro, a questão do limite é muito difícil de resolver... Isso posto, eu diria que, por trás do amor aos animais, se esconde também um ódio aos homens. Então é preciso desconfiar bastante desse amor.

* ativistas-celebridades como brigitte bardot e woody harrelson odeiam mesmo os homens?
Ferry:
 O ponto é que o interesse pela natureza, mesmo não envolvendo a pressuposição do ódio aos homens, pode não proibi-lo. Vamos confessar: Hitler aliou a mais ardorosa defesa dos animais com o ódio aos homens mais feroz que se conheceu na história. O fato de não nos servirmos dessa constatação em uma polêmica apressada contra todas as formas de ecologia não proíbe a reflexão sobre seu significado.

* falando em nazistas, há mesmo uma relação entre a política da diversidade, o nazismo e a ecologia?
Ferry:
 Historicamente, sim. Os nazistas foram os primeiros no mundo a colocar em prática, nos anos 30, uma grande legislação ecológica. E isso é uma herança direta do romantismo alemão. Hitler supervisionou pessoalmente a elaboração de três grandes leis: a lei de caça, a lei de proteção da natureza e a lei de proteção dos animais. O ideal que inspira os nazistas é duplo: primeiro há, como disse, a herança do movimento romântico, a ideia de que a natureza original, selvagem, não destruída pelos homens, deve ser defendida. Hitler mandou imprimir dezenas de milhares de cartões-postais com fotos dele na floresta alemã acariciando cervos. A busca da raça pura, do germânico puro, análogo à floresta virgem, também se inscreve nessa perspectiva. E existe também uma grande hostilidade à França, explícita no texto dessas leis ecológicas. O país é acusado de ridicularizar a diversidade, principalmente em sua relação com os povos colonizados, que podem ser “assimilados”. Para os nazistas as diferenças devem ser preservadas a todo custo e os povos primitivos devem ser mantidos em seu estado original. Eu cito textos nazistas incríveis sobre isso, que poderiam ser assinados tranquilamente por ecologistas e etnólogos contemporâneos!

 * olha, mas cuidado, viu? em seu livro, você escreve sobre um processo de membros do partido verde europeu contra o diretor da revista actuel, que os tratou de “fascistas”. os ecologistas poderiam processar você por fazer uma relação dessas...
Ferry:
 E perderiam!

* por que você diz que “partidos verdes são impossíveis”?
Ferry:
 A ecologia política é cada vez mais forte em todo o mundo ocidental. No entanto, em lugar nenhum ela é o partido do governo. Por quê? Simplesmente porque a política compreende todos os setores da vida humana, e não apenas o meio ambiente. Quando alguém é presidente da república, precisa falar também de escolas, de exército, do conflito no Oriente Médio ou no Iraque e, aí, não se trata mais de ecologia. A ecologia é, sobretudo, um lobby, que pode ser muito poderoso, mas que precisa se aliar à direita ou à esquerda para atingir o poder.

* você acredita que esse tipo de ecologia é um bom substituto para as utopias dos anos 60?
Ferry:
 Sim, claro! Aliás, é daí que vem a famosa piada francesa: os ecologistas são como as melancias, verdes por fora e vermelhos por dentro! Na Europa, quase todos os eco-líderes são uns comunas antigos que precisaram abandonar o maoísmo ou o trotskismo, mas que substituíram essas correntes pela ecologia para continuar sua luta anticapitalista. Basicamente, é isso. Como diria um líder francês dos verdes, “cheguei ao verde pelo vermelho”!

* é possível cuidar da natureza sem ser extremista?
Ferry:
 É possível! Óbvio que é. Somos todos ecologistas, e eu sou o primeiro deles! Ninguém quer um desenvolvimento “insustentável”, ou o esgotamento dos recursos naturais e a destruição do planeta. Os ecologistas radicais pensam que, para chegar a uma solução, é preciso destruir o capitalismo e talvez até a democracia, já que é necessário impor medidas de urgência à humanidade. E é aí que a divergência começa. Aos meus olhos, a verdadeira ecologia, é aquela que quer o crescimento sustentável e que acredita que a solução se encontra na inovação, na razão e na ciência, não no decrescimento e no ódio à democracia.

* a solução para a ecologia é a tecnologia?
Ferry:
 Existe uma outra leva de ecologistas — da qual faço parte — que apostam na inovação, na ciência e no desenvolvimento sustentável. Por quê? Simplesmente porque não é possível regular o desenvolvimento de países como Índia ou China: nem o Lula nem o Sarkozy têm poder para impedir isso. Os indianos e os chineses fazem o que querem, e o que eles querem é crescer, certo? Então precisamos urgentemente inventar produtos “sustentáveis”, não-poluentes, como os carros elétricos, por exemplo. O caminho é esse...


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