Ferro e Mais Ferro - 5 de setembro

O DIA DA PENITÊNCIA
Clóvis Heberle*

Em Oruro, no altiplano boliviano, a principal atividade econômica é a mineração, desde que os espanhóis conquistaram a região e passaram a explorar o subsolo.  Na época colonial, os índios eram usados como mão de obra, e  morriam às centenas de milhares no trabalho das minas.
Aprenderam nas aulas de catecismo dadas pelos missionários católicos que Deus habitava o céu e o diabo as profundezas da terra. Concluíram que com  uma mãozinha do senhor das trevas tudo seria mais fácil - achar bons veios de ouro, prata ou cobre, ou pelo menos não morrer num desmoronamento. E assim surgiu a diablada.
 Desde o século 16, na época do carnaval, os moradores de Oruro dançam e cantam com os rostos encobertos por máscaras medonhas  representando a imagem de satanás. A tradição de homenagear o diabo perdura até hoje, e virou atração turística internacional. Mas, terminada a festa, correm às igrejas para pedir perdão a Deus e à Virgem e serem perdoados deste pecado.
É o dia da penitência.
No Brasil, em agosto, a Rede Globo e a Mc Donalds também fazem a sua penitência.
A Globo satura os lares brasileiros com violência, futebol, sexo e besteirol. As crianças são as maiores vítimas, submetidas a programas que estimulam a erotização precoce, a alimentação à base de doces, refrigerantes e  salgadinhos e a solução de seus problemas na base da pancada, da intriga e da fococa. As menininhas, para estarem na moda, usam baton, se pintam, calçam sapatos de salto e usam roupinhas justinhas. Beijar, namorar e conspirar contra coleguinhas, como nas novelas, se tornam as prioridades numa fase de suas vidas em que não têm condições de avaliar o  certo e o errado.
Mas, um dia por ano, há o Criança Esperança. Os funcionários da empresa são convocados a pedir dinheiro para obras em favor das crianças. É o dia da penitência.
A Mc Donalds, que durante 364 dias por ano entope seus clientes com alimentos à base de carbohidratos, gorduras e refrigerantes (água carbonada com xaropes), tornando-os obesos e desnutridos, criou o Mc Dia Feliz.  Com a ajuda de jornalistas, atores de TV e artistas conhecidos, recolhe dinheiro doado posteriormente  a entidades dedicadas ao tratamento do câncer infantil.  Um dia de penitência pelo dano que causam, principalmente, a meninos e meninas.
Mas, ao contrário dos índios bolivianos, os pecados destas duas megaempresas são reais, e não fruto da imaginação dos padres que acompanhavam os conquistadores espanhóis.
E não é com um ato penitencial  por ano que eles serão perdoados.

* Clóvis Heberle é jornalista e edita o http://clovisheberle.blogspot.com

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